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segunda-feira, 1 de maio de 2017

ÁGUA FRIA: TERCEIRO LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA



TERCEIRO LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DIZENDO COMO UMA CRIANÇA: poema de Jefferson Bessa


um homem me disse: o silêncio
é como experimentar a morte.
ouvi a assertiva feito uma criança.
sem qualquer dificuldade afirmei:
por isso nunca se sabe do silêncio
- a morte alguma vez foi sentida?
o que não se sente não é nada

o silêncio, nunca o sentimos
muito do que se acredita não existe:
é como pensar que se sente morto.
isso tudo ficou claro para mim
e o homem adulto, previsível, disse
você parece bastante doido.
respondi: sou doido feito criança

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

HINO: poema de Jefferson Bessa




 HINO


imagino os deuses
reunidos
na minha hora de nascer
imagino as mãos
entrecruzadas
que desejavam me acolher
imagino
como eu chorava
na mão dos que não me agradavam
como eu sentia graça
agradecido
quando a seguir me deitavam
nos braços de outro

fui tocado por tantas mãos
fui assim passando
rolando
por tantas divindades
eram tantos corpos
proviam de tantos lugares
que agora
não me lembraria de um sequer

mas um fato se fez

agora me lembro:
ao meu redor ficaram
os deuses de mãos aquecidas,
envolveram-me
os deuses em corpo bruto
eram todos de beijos
eram de abraços

em meio a tantas mãos
aprendi a ser táctil
hoje sinto
na maneira bruta
vivo num corpo
feito terra revolvida

(ah, deuses dos quais não sei o nome,
nunca me preocupo por onde andais
glorifico-vos sem glorificar
não espero me trazerdes outra coisa
imagino estardes por aí entre ruas e casas
apresentando vossas mãos a quem queira)


Blog de Jefferson: clique aqui

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poemas: ROGEL SAMUEL E JEFFERSON BESSA




Após o poema Cheguei há pouco:



De Rogel Samuel para Jefferson Bessa:

li há pouco
o seu poema corpo
o corpo do seu poema
as coisas que com o corpo
fazem
li e sonho
com o alheio quarto
do alheio gozo
do poema


De Jefferson Bessa para Rogel Samuel

poema lido, escrito:
que respira
o alheamento
dos olhos, do corpo
do poema.
poema lido, escrevo:
neste quarto
que habitamos.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poema de Wang Wei (699-759 D. De C.)


Ultimamente tenho compreendido o significado da tranquilidade,
dias após dia me mantenho longe da multidão.
Limpei minha cabana e a preparei para a visita de um monge,
que chegou de longínquas montanhas para visitar-me.
Descendo veio dos picos ocultos pelas nuvens,
para ver-me na minha casa de teto de palha.
Sentados no pasto compartilhamos a resina do pinheiro,
queimando incenso lemos os sutras do Tao.
Ao terminar o dia, acendemos nossa lamparina
os sinos do templo anunciavam o
começo da noite.
Repentinamente, adverti que a
tranquilidade é realmente Felicidade
e senti que minha vida é feita de um farto tempo livre



****
O dia hoje é a tranquilidade. E só assim foi possível aproximar-me do poema de Wang Wei. Por isso, antes não havia comentado.
A tranquilidade se faz do ócio, que abre a porta para sentirmos o acolhimento de nosso abrigo. Dessa maneira é que o abrigo pode ser, então, amado. E o que se ama não permanece fechado. Abre-se a quem chega. Abre-se à visita, à pessoa que se ama.


A pessoa que me visita também virá acolher-me, já que de tão longe me vem fazer a visita. O exterior se encontra com a intimidade de meu abrigo: ama-se o exterior, porque se ama o interior e vice-versa.
Mas o que oferecer à visita tão importante que vem chegando dos altos picos de uma montanha para se instalar numa casa de teto de palha?
Ofereço meu abrigo, minha casa, onde eu habito - espaço que amo e que é feito de Tranquilidade, Felicidade e Ócio. (Jefferson Bessa)

domingo, 6 de março de 2011

O poema VERSO-SERPENTINA de Jefferson Bessa

Pierrot - Pablo Picasso


Verso-serpentina de Jefferson Bessa

(enquanto festejam lá fora
eu aqui sentado escrevo
e sinto sentado.
quatro da manhã
depois de já dormir
penso na vaidade de um verso
que se quer registrar,
que se quer lido)

então um verso-serpentina
enrolado ao tempo breve
feito para jogar ao chão
em ondulação aérea

ouvindo
um verso claro
- que em seu curso
se evapora na dança de fazê-lo
como quem brinca
- sem fantasia,
sem co
(memoração)



Um amigo me lembrou de um poema que escrevi em 2009. Sugeriu que o postasse no blog por conta do momento de festa no país.




Agradeço e adiciono a esta postagem o poema do Rogel Samuel para Jefferson Bessa:



SEU VERSO SERPENTEIA
NA MINHA IMAGINAÇÃO
CARNAVALESCA

solta
livre
enroscada
essa serpentina
faz
meu carnaval

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fim de um crepúsculo: poema de Joaquim Cardozo





Do fim desse crepúsculo a parte da noite caminha,
A parte do dia se isola em vários pontos;
Parece que a luz tem saudade do dia.
A escuridão da noite dividiu-se,
Perdeu a coesão que havia no preto de marfim.
A fragmentação desse crepúsculo,
Em que há muros de negro, o mais denso,
Onde as formas, geométricas tênebras
Entre estratificações mais suaves se entretecem.
Com lineamentos de cinzento cor de pérola.



Nesse fim de crepúsculo ainda restaram
Regiões de clara luz do dia
Que ficarão largadas para as outras eras.





Os ângulos agudos do preto de marfim
Enumeram um tecido bem distribuído.
De onde veio a noite, há terra de sombra queimada
Acompanhando a cor parda de Van Dyck;
A cor parda que ainda resta no Ocidente
E será coberta pelas escuras formas do contorno retilíneo.
Será coberta pelas formas intensas, trevosas.
E fechando esse último trecho em tinta neutra
Resulta a realidade do fim;
Do fim desse crepúsculo.





A manhã começa no Oriente com o nascer do sol.
O crepúsculo se fecha no Ocidente
E o que resta é o brilho das estrelas.


Do livro O interior da matéria.



Pensei em postar um poema mais "conhecido" de Joaquim - a bela Canção elegíaca do livro Signo Estrelado. Mas sempre que seleciono algum poema de Joaquim Cardozo para postar no blog escolho quase sempre algum poema do livro O interior da matéria. Foi o que aconteceu. Este é um livro em que os poemas olham as coisas. Fazem do invisível algo para ser visto. Dizem os traços, a altura, a largura, as cores, o movimento, luzes, sombras, pinturas. E olham para além de um olhar único, para além de um olhar estático. Ao contrário, o movimento presente em cada poema se refaz a cada leitura. O instante num eterno movimento. Desenhando.
(Jefferson Bessa)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Perfeição: um poema de Jorge Guillén


Fica curvo o firmamento
Compacto azul, sobre o dia.
É o arredondamento
Do esplendor: meio-dia.
Tudo é cúpula. Repousa,
No centro sem querer, a rosa
A um sol em zênite se sujeita.
E tanto se dá o presente
Que o pé andante sente
A integridade do planeta.


trad. Jefferson Bessa

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Monstros: um poema de Dámaso Alonso


Todos os dias rezo esta oração
quando me levanto:

Oh Deus,
Não me atormente mais.

Diga-me o que significam
estes espantos que me rodeiam.
Cercado estou de monstros
que mudamente me perguntam
igual, igual a mim quando os interrogo.
Talvez a você perguntem,
o mesmo que eu quando em vão perturbo
o silêncio da sua imperturbável noite
com minha desgarrada interrogação.
Sob a penumbra das estrelas
sob a terrível obscuridade da luz solar,
espreitam-me olhos inimigos,
formas grotescas me vigiam
cores hostis me estendem
os laços:
são monstros,
estou cercado de monstros!

Não me devorem.
Devorem meu repouso ofegante
me façam ser uma angústia que se desenrola a si mesma
me façam homem,
monstro entre monstros.

Não, ninguém tão horrível
como este Dámaso frenético
como esta centopeia amarela que o clama com todos os [
tentáculos enlouquecidos,
como esta besta imediata
difundida em angústia fluente;
não, ninguém tão monstruoso
como este animal estúpido que ruge por você
como esta dilacerada incógnita
que agora o repreende com articulados gemidos,
que agora o diz:
“Oh Deus,
não me atormente mais,
diga-me o que significam
estes monstros que me rodeiam
E este espanto íntimo que à noite geme para você.
tradução: Jefferson Bessa

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ferreira Gullar: o poema Tato




Na poltrona da sala
as mãos sob a nuca
    sinto nos dedos
    a dureza do osso da cabeça
    a seda dos cabelos
    que são meus

A morte é uma certeza invencível


    mas o tato me dá
    a consciente realidade
    de minha presença no mundo

Do livro Muitas Vozes



Após decidir postar esse poema de Ferreira Gullar no blog, encontrei esta fotografia do poeta na Internet. Não sei quem a registrou, não encontrei os créditos. Mas não pude deixar de ver a presença do poema nesta fotografia. Nela - assim como no poema - está a presença do tato em con(tato). Na leveza de sentir as mãos passarem o corpo, a consciência da realidade afirma a presença. Como um pintor sente a tinta sobre mão e assim sente a presença dele no mundo e vice-versa. A experiência táctil pode confirmar a "certeza invencível da morte" na ausência do corpo. No entanto, para além da morte, o tato nos dá a experiência imediata e plena "de minha presença no mundo", como a fotografia acima na qual o poeta (é minha leitura) não esconde o rosto, mas sente a si mesmo (enquanto presença) no tato que desliza sobre o rosto. (Jefferson Bessa)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Amanhecer: poema de Joaquim Cardozo



A luz nasce no Oriente, os pássaros despertam ...
Amanhancer! Amanhecer!
As cinzas da noite já se afastam
Promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã

Amanhecer! Amanhecer!
Agora se libertam os horizontes
E cada vez mais se chegam e se aproximam
Da noite escura que vai fugindo
Que se flutuando e vai se perdendo;
A noite - que depois voltará.

A noite se dissolve nas marcas do papel
Desenhada e claras ...
Ou cavalga como manchas brancas
Para fugir mais depressa,
Ou se retarda nas trevas
Que ainda se vão arrastando longamente
Amanhecer! Amanhecer!

Muito em breve termina o amanhecer
Embora, nessa página ainda continue .

Amanhecer! Amanhecer!
É grito agudo de quem espera
Chegar ao fim da noite.


Do livro O Interior da matéria.




Terminada a digitação do poema de Joaquim Cardozo para o blog, apenas tive uma grande satisfação em poder digitá-lo. É como se eu o sentisse meu. Mas esta sensação é ter, por um um momento, o poema de Joaquim ao lado e bem próximo - rente a mim. É um amanhecer como o poema amanhece, amanhecer junto ao poeta pernambucano que ao meu lado anuncia uma luz que nasce no Oriente.


E desta maneira vou ouvindo o canto de Joaquim, que canta o nascimento do amanhecer numa descrição tão simples e rara que se tem a presença de um eterno amanhecer em papel.


Mas e a brevidade desse instante? Como ele ser eterno? Mas afirmo por aquilo que o poema se faz uma eternidade própria do Amanhecer. Ele tem a força do amanhecer. É o amanhecer. Reli-o várias vezes. Em todas as vezes este instante surgiu como um poema que inicia sempre, ou ainda, como um poema que amanhece sempre.


Há uma força grande e simples. E o que move o poema está na forma e na vida dele mesmo.


Digitar um poema se tornou  amanhecer.


(Jefferson Bessa)

domingo, 29 de novembro de 2009

poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa



A partir do poema Minha letra é outra, surgiu um poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa.


Rogel Samuel escreveu:



para Jefferson Bessa


seu poema está imerso
nessas ondas do fundo
que confundem são gavetas
são marcas dágua
são dunas de um outro mundo
são gravações agravadas
onde o poema dorme, gravado
mas solto, engavetado
mas aéreo, eu disse
que essa sua nova fase
de sua poesia vai ser gravada
nas ondas desse mar
desse colorido mar
nas ondas do fundo da memória
desses computadores-leitores
a cores
ou leitores em preto e branco e agora
em ondas vermelhas pretas e azuis
concentradas
concêntricas
fecundas
postadas
gravadas
água
água e areia
água
tinta de cor de água
água e tinta de água e cor

***

Jefferson Bessa escreveu:


nossas águas-palavras (para Rogel Samuel)


palavra úmida
em palavra água
gravada em seiva
em leitura água-viva.

palavra-ondina
amistosa fluvial.
é nossa face que vibra
por entre a tela líquida.

letras postadas
móveis nos corpos
na confluência de ondas
escritas, magnéticas.

é tinta de olhos
pela entre-onda
muito atenta e diluída
que ondula o poema.

domingo, 8 de novembro de 2009

O livro Falo: a poesia de Paulo Augusto

Falo de Paulo Augusto é o canto FÁLICO da VOZ do poeta. Mas o FALO se torna também um “EU FALO” – e ambos são a CORAGEM do poeta de cantar a homossexualidade. Mas esta voz libertária, erótica e visceral se espalha e atravessa o país identificando as injustiças com ele (enquanto gay) e com os outros (enquanto coletividade). Dessa maneira é que o livro exibe Ele e o Nordeste (sobretudo) na arena das perseguições da tirania e da violência na sociedade. Entretanto, o livro tem a força de libertar-se dessas amarras, pois se impõe como aguerrido. A força e a alegria do poeta vibram, porque tudo ainda está para ser feito, nada está acabado. Tudo é vivido intensamente, tudo é vivido como um porvir.
O corpo que é amor, delicadeza e erotismo é o mesmo corpo que grita e guerrilha. Momentos como os dos seguintes versos mostram que os ataques e perseguições acontecem porque sabe que é maravilhoso,/ ser fresco/ como um dia de Domingo/ ensolarado e pendurado/ no varal. É o poeta na simplicidade de saber que ser o que é vale a vida.
Versos soltos, livres que explodem numa energia própria de quem quer amar e para tanto está pronto para lutar. Diz: “João, pense no que diz como se morresse”. E dialoga diretamente com os Homens, com a América e com o Mundo Todo.
O livro está disponível no blog Livros Online de Rogel Samuel; para lê-lo clique aqui.
Jefferson Bessa

Dois poemas do livro FALO de Paulo Augusto:

SYSTEM-ATTICA

Porque sou fresco,
hábil, lépido,
a gerontocracia sente medo,
se arrepia como um rato.
Cospe leis, editos, atos.
Se agasalha, modorrenta, rouca,
recua na cadeira de balanço
botando graxa
na dobradiça das pernas.
A tosse, a vista cansada,
a velha despótica me espreita.

Quando exibo meu porte,
meu corte,
me chama de trans
viado me cobra pedágio - a doida
quer me ver casado,
parindo mão-de-obra
para eternizá-la.
Para destruí-la, esterilizo-me.
Minha praxis.
Por puro capricho
me amedronta, me persegue, me degrada.
Nego, renego, faço ouvido mouco.
Se me encontra pela rua
madrugada
quer violentar-me,
ver meus documentos,
me revista e se delicia
apalpando minhas partes,
pensa em coito.
Nego, renego, abomino.
E ficamos eternamente
nessa cachorrada.

Quer me tributar,
me chupar – foder-me
porque sabe que é maravilhoso,
ser fresco
como um dia de Domingo
ensolarado e pendurado
no varal.

POEMA PARA AS MÃOS DE ANTÔNIO

Essa mão que me segura
pelo pescoço,
me sacode e me revista,
essa mão eu amo.

Toda vez que vai ao coldre
leva um beijo meu.

Se atira pedras
e arrebenta vidros,
assusta gente, cidades,
eu gozo - ela é minha.

Nas sombras de minhas colchas
desliza atrevida
em partes que eu não permito.

Silencia, vibra, fala
- abarca tudo que vê,
ambiciosa e chula.

Se peço que pare,
avança - adoro!
Louca, impura, grossa,
entra aonde não deve,
cava, coça, atira e treme,
goza - banha-se
no meu torpor,
vive para acarinhar
meu rosto
e me bater
se grito
quando quer me amar.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Soneto da paz: um poema de Joaquim Cardozo

Este soneto é natureza morta,
Traço na alvura, sombra de uma flor,
Sinal de paz que inscrevo em cada porta,
Gesto, medida de comum valor.


É letra e clave, é módulo que importa
Na redução da voz, do som. Calor
Do que vivido foi e inda comporta
Palpitação de implícito lavor.


Moeda que correu por muitas mãos,
Brinquedo que ficou perdido a um canto
Num lago de esquecidas esperanças.


Mas nos seus versos fecho os sonhos vãos
E em notas claras digo, exalto e canto:
– Paz! Paz! Brincai, adormecei, crianças!


CARDOZO, Joaquim. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. p. 203


O canto de paz de Joaquim Cardozo materializado, estampado na natureza. A paz de Joaquim chega no seu momento e espalha-se por todas as portas - é o sinal do poema que nos doa a paz, porque, enquanto sinal, o poema existe e ninguém poderá negar que ele mesmo é a paz; existe sendo a paz como um traço, como uma sombra, como uma pintura.
Dessa maneira é que corre este soneto, convidando muitas portas a ficarem abertas para este canto que é paz: brinquedo esquecido, mas que Joaquim, em notas claras, faz ressurgir para que com ela brinquemos feito crianças! (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A morte, a vida: um fragmento de Novalis (fragmentos II - 1768)

A morte é o princípio da vida. A morte é, a vida é. A vida é revigorada pela morte. (Novalis)

Este fragmento acima é assinado por Novalis. A morte e a vida são - diz o poeta alemão. Mas ambas são de maneira que se relacionam. A morte está para a vida assim como esta está para aquela. Certamente a vida e morte não estão como oposição, ou seja, a morte como negação - como a privação da vida.
A morte - que poderia ser o fim - é o princípio da vida. Por outro lado, a vida - que poderia ser débil pelo seu fim breve e fatal - é revigorada pela morte, uma vez que esta traz o vigor do sentido da vida.
Por isso, nesse contexto do fragmento de Novalis, a vida é. A morte é. No entanto, são como um espelho voltado um para o outro. Porque simplesmente a vida é a morte e a morte é a vida. Elas são a partir do momento em que olham uma para outra e, dessa maneira, se conjugam entre si mesmas. Aponta assim para um caminho diverso da ideia de VIDA e de MORTE. (Jefferson Bessa)

domingo, 4 de outubro de 2009

O sonho de uma sombra - um poema de Píndaro


A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.


Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

tradução: Péricles Eugênio


Ser o sonho de uma sombra. Píndaro nesses versos respira o destino que está nas mãos dos deuses, sendo a sorte humana lançada nas mãos deles. Mas volto: ser o sonho de uma sombra. Ser o que uma sombra sonha é ser o efêmero. É mais: é ser a afemeridade do efêmero. Não é ser a sombra - é muito mais denso ou ainda muito mais efêmero - é ser o sonho dela, ou melhor, é ser o transitório do que em si não tem luz, portanto nem mesmo se vê e nem escolhe [ é o ser homem]. A efemeridade está muito antes do que se imagina. É estar envolto à pergunta sem resposta: "quem somos? quem não somos?".

Mas Píndaro fala também dos deuses; estes podem lançar luz ou escuridão ao sonho da sombra, pois nós só sabemos do que pode vir - que apenas sabemos ser incerto. A sorte é o porvir que não se sabe. Para nós quem poderiam ser os deuses? Para ele parece ser o próprio destino - a própria sorte que não se desvenda jamais. Suportar o destino é viver os deuses. É estar por um fio, é saber que tudo pode acabar em um só momento - em um segundo. (Jefferson Bessa)

sábado, 29 de agosto de 2009

A velha casa e seus poemas: Rogel Samuel e Jefferson Bessa


O poeta Rogel Samuel escreveu:

A meu poema "casa abandonada", o poeta Jefferson Bessa escreveu uma resposta:


casa abandonada (Rogel Samuel)


as janelas estavam assassinadas
assistiam a tudo
ao mar, às aves, à montanha
nunca mais fechadas
fecundas de vento
arrebatadas de sol
batidas pelo firmamento
e as janelas nunca mais se fecharam
porque não havia ninguém mais lá dentro
porque os poros da casa se abriram
às verdejantes trepadeiras
que cobriam todo passado

----------------------


Esta casa (Jefferson Bessa)


Esta casa é
O abrigo do poema.

E respiram as paredes
A verde-planta do tempo.
Crescem por sobre a casa
O olhar presente do passado
De entre-ver nossas janelas
Que não se trancam mais.
Por lá não ter ninguém
É que elas me olham.
Por nenhuma noite mais
Fecharei minhas cortinas.

Este poema é
O abrigo desta casa.


-----------------


Minha resposta (Rogel Samuel)


Por lá não há mais ninguém
nesta casa abandonada
nem os fantasmas esguios
nem as fadas enamoradas
nem mendigos nem ninguém
mesmo o tempo por lá não encosta
mesmo as recordações se desfazem
as memórias as cansadas
naves da madrugada
cinzas do que passou
solidão das marés
esquecimento e silêncio

sábado, 11 de julho de 2009

A interrogação em Mar de Rogel Samuel


Mar



onde está, onde
onde está no horizonte
onde está o destino
por onde se vai nesta barca
por onde navegar assim
neste mar de incertezas
neste caminho sem pista
se por que vagueamos em claros
na grande muralha de atalhos
perdidos labirintos
pássaros de bicos frios
flores de asas mortas
e em embrulhadas falas
mulheres e homens nas tramas
de suas rotas?


Poema retirado do blog de Rogel Samuel

O texto por inteiro é uma interrogação. Esta, então, por si só já traz a aventura do poema de Rogel Samuel. Mas qual será a resposta? Para o poema não há resposta, já que a pergunta tem a força de ser ela mesma. O mar traz - mais do que a incerteza – o movimento dos difíceis atalhos nos quais vamos embrulhando nossas falas, nossos versos. Vamos tramando alguns passos que encontram pelo meio do caminho objetos aparentemente mortos. Mas poderíamos insistir na interrogação do poema que é a sua vida seguindo a busca sem encontrar a resposta. Por meio disso não se define nada, pois o que há de mais forte é saber que o poema impele a vida tateando, navegando por rotas que sempre terão em si a interrogação. (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A escrita contínua de Clarice Lispector em Água Viva



O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto, canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? minha experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que projeta sombra. E é trombeta que anuncia. O halo é o it.

Do livro Água Viva.


É um trecho do livro Água Viva. O livro do início (que não tem) ao fim (que não tem) é essa continuidade da escrita.
Mas o livro não começa, não há fim?
Não, não há nem começo nem fim.
Assim, Clarice "continua" a última frase (que não será a última) do livro com uma frase que dará continuidade eterna ao livro: "O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. (...) O que te escrevo continua e estou enfeitiçada".
Estar "enfeitiçada" é deixar a corrente da vida ser esse fluxo interminável da escrita. O que transcende as frases é sentir a continuidade desse movimento circular e luminoso de um "isto" que não para nunca - o halo das coisas. É uma correnteza viva que não se denomina, mas que flui em instantes vertiginosos pela linha circular que envolve a escrita indecifrável. O halo que se capta é o "it": algo que se eleva da escritura - algo que exala da palavra - o que não se conhece por inteiro. É "isto" que está sobre, que transcende, que está ao redor das coisas. Mas não é o pensamento do sobrevoo da ciência que, segundo Merleau-Ponty, pretende alcançar o objeto de maneira geral, de modo que, como algo prévio, se descubra todos os lados do objeto. Diferentemente, esse halo de Clarice está acima como o que não se pode conhecer por completo, porque o mais valioso está suspenso - ao redor das coisas. Junto ao '"isto" está a continuação perene da escrita que não esclarece ao que se refere. A pintura doa tal experiência - ela diz. A escrita exala sua luminosidade, pois tem ao seu redor esse halo, esse isto - pronome demonstrativo que somente nos indica, nos aponta, mas não nos diz por completo o que a coisa é. (Jefferson Bessa)

sábado, 27 de junho de 2009

Sair - Antonio Cicero


SAIR


Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.


De A cidade e os livros.


Largar e largar. Largar tudo: os conceitos, os espaços, os valores que podem nos acobertar, nos esconder do mundo. Deixar, então, para trás todo o peso da alma, do espírito. Mas para isso se tem à frente uma porta. A porta: matéria pela qual nos abrimos ou fechamos – abrir a porta e sair tem o gesto de deixar o mundo nos trazer o que nele há de gratuito. Sair pela porta é viver calmamente tanto a dor quanto a beleza de tudo o que nos rodeia.
Mas a chave que se usa para abrir tal porta não revelará nenhum segredo que poderíamos pensar ter lá fora, porque além da porta existe o mistério da gratuidade do mundo. Por isso nada será esclarecido quando pela porta sair. Não é como a porta do céu divino que se abrirá para conhecermos Deus e toda a Sua criação. O Divino aqui, nesse sentido, “não existe nem faz falta”.
Em meio à noite, podemos olhar – “sobre todas as coisas” existem coisas que não dizem nada, porque no seu silêncio eterno elas não se explicam. Olha o poeta sabendo simplesmente que a luz voltará na próxima aurora e que tudo vive o silêncio do mistério que não se explica. Esta é a porta já aberta do poema que larga os interiores para largar o exterior no que este é. (Jefferson Bessa)