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domingo, 7 de dezembro de 2014

A CONVALESCENTE: POEMA DE RILKE






Como a canção que vem e vai na rua,
que chega perto e logo mais decresce,
quase inaudível, alça-se e flutua
e depois outra vez desaparece,

a vida brinca na convalescente,
enquanto débil, em seu leito, mal-
azada, como quem se entrega, ausente,
ela perfaz um gesto inusual.

E é quase sedução o que ela sente
quando a mão rígida, que o fogo obscuro
da febre já incendiou, suavemente,
de longe, como que um toque florescente,
consegue acariciar-lhe o queixo duro.

tradução Augusto de Campos

sábado, 30 de agosto de 2014

Um poema de Omar Khayyam


LIII

Se baixas teu olhar, fitando duro o Chão,
ou ergues para o Céu em Sua Imensidão,
lembra que Tu és Tu neste exato Momento,
mas e Amanhã, depois da própria negação?

De Rubáiyát
tradução: Luiz Antônio de Figueiredo

sexta-feira, 11 de julho de 2014

AO PÉ DA PENA: POEMA DE PAULO LEMINSKI




todo sujo de tinta
o escriba volta pra casa
cabeça cheia de frases alheias
frases feitas
letras feias
linhas lindas
a pele queima
as palavras queimadas
formas formigas
todas as palavras da tribo

por elas
trocou a vida
dias luzes madrugadas
hoje
quando volta pra casa 
página em branco e em brasa
asa lá se vai
dá de cara com nada
com tudo dentro
                   sai

Do livro "La vie en close"

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um poema de Bertolt Brecht



Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Trad. Paulo Quintela

segunda-feira, 12 de maio de 2014

NO CIRCO: poema de Antero de Quental






Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse Mundo em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
- É assim que rujo entre leões agora!

domingo, 19 de janeiro de 2014

SABEDORIA: POEMA DE JOSÉ RÉGIO



Desde que tudo me cansa, 
Comecei eu a viver. 
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara. 

Hoje, é que nada espero. 
Para quê, esperar? 
Sei que já nada é meu senão se o não tiver; 
Se quero, é só enquanto apenas quero; 
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar... 
E venha a morte quando Deus quiser. 

Mas, com isto, que têm as estrelas? 
Continuam brilhando, altas e belas. 

sábado, 7 de dezembro de 2013

JORGE DE LIMA: POEMA "DEMOCRACIA"



Punhos de rede embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, malassombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d’água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo o que encontrava,
abraçando as cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nome de amor em todas as línguas de branco, de mouro [ou de pagão.

Do livro Poemas Negros

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CINISMOS: UM POEMA DE CESÁRIO VERDE



Eu hei de lhe falar lugubremente 
Do meu amor enorme e massacrado, 
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente. 

Hei de expor-lhe o meu peito descarnado, 
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário, 
E ser menos que um Judas empalhado. 

Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário 
E desvendar a vida, o mundo, o gozo, 
Como um velho filósofo lendário. 

Hei de mostrar, tão triste e tenebroso, 
Os pegos abismais da minha vida, 
E hei de olhá-la dum modo tão nervoso, 

Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida, 
Cheia de dor, tremente, alucinada, 
E há de chorar, chorar enternecida! 

E eu hei de, então, soltar uma risada. 

de O livro de Cesário Verde

domingo, 2 de junho de 2013

"ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE": POEMA DE ALBERTO CAEIRO



Acordo de noite subitamente, 
E o meu relógio ocupa a noite toda. 
Não sinto a Natureza lá fora. 
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente [brancas. 
Lá fora há um sossego como se nada existisse. 
Só o relógio prossegue o seu ruído. 
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da [minha mesa 
Abafa toda a existência da terra e do céu... 
Quase que me perco a pensar o que isto significa, 
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da [boca, 
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou [significa 
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 
É a curiosa sensação de encher a noite enorme 
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.

terça-feira, 14 de maio de 2013

OMAR KHAYYAM



Eu considero vil o coração
Que, sendo incapaz de amar, não pode
Conhecer o delírio da paixão,
O amor brutal que explode
Em chamas
E nem o beijo — essa divina
Esmola.
Se não amas
És indigno do Sol que te ilumina
E da Lua que à noite te consola.

Rubaiyat 9
Trad. Ivo Barroso

terça-feira, 26 de março de 2013

"um deus também é o vento": poema de Paulo Leminski



um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

do livro Caprichos & Relaxos

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poema de Tu Fu a Li Po



Três noites seguidas venho sonhando contigo.
Estavas à minha porta.
Passavas a mão pelo cabelo branco,
como se uma grande dor te amargurasse a alma...

Depois de dez mil, cem mil outonos,
não terás outro prêmio que o prêmio inútil
da imortalidade.

* tradução Cecília Meireles
* desenho sem crédito encontrado na net

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CANTIGA DE SÁ DE MIRANDA

,


Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria

De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O CEGO: um poema de Rainer Maria Rilke




Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

Tradução: Augusto de Campos
Do livro Anjos e coisas de Rilke

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

“Quando eu te desposar...”: UM POEMA DE HEINRICH HEINE



Quando eu te desposar, teus dias
     Serão dignos de invejas; 
Desfrutarás mil alegrias
     E ociosidade régia.

Hei de perdoar-te mau humor,
     E queixas mas - é claro –
Se não cobrires de louvor
     Meu verso, eu me separo.

Tradução: Nelson Ascher

terça-feira, 2 de outubro de 2012

AO ESPELHO: POEMA DE JORGE LUIS BORGES



Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
e depois outro, e outro, e outro, e outro...

Do livro "O ouro dos tigres" (1972)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O VERBO NO INFINITO: UM POEMA DE VINÍCIUS DE MORAES




Ser criado, gerar-te, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar.

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

POEMA IV DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" DE ALBERTO CAEIRO/FERNANDO PESSOA




Esta tarde a trovoada caiu 
Pelas encostas do céu abaixo 
Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta 
Sacode uma toalha de mesa, 
E as migalhas, por caírem todas juntas, 
Fazem algum barulho ao cair, 
A chuva chovia do céu 
E enegreceu os caminhos ... 

Quando os relâmpagos sacudiam o ar 
E abanavam o espaço 
Como uma grande cabeça que diz que não, 
Não sei porquê — eu não tinha medo — 
pus-me a rezar a Santa Bárbara 
Como se eu fosse a velha tia de alguém... 

Ah! é que rezando a Santa Bárbara 
Eu sentia-me ainda mais simples 
Do que julgo que sou... 
Sentia-me familiar e caseiro 
E tendo passado a vida 
Tranqüilamente, como o muro do quintal; 
Tendo idéias e sentimentos por os ter 
Como uma flor tem perfume e cor... 

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara... 
Ah, poder crer em Santa Bárbara! 

(Quem crê que há Santa Bárbara, 
Julgará que ela é gente e visível 
Ou que julgará dela?) 

(Que artifício! Que sabem 
As flores, as árvores, os rebanhos, 
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore, 
Se pensasse, nunca podia 
Construir santos nem anjos... 
Poderia julgar que o sol 
É Deus, e que a trovoada 
É uma quantidade de gente 
Zangada por cima de nós ... 
Ali, como os mais simples dos homens 
São doentes e confusos e estúpidos 
Ao pé da clara simplicidade 
E saúde em existir 
Das árvores e das plantas!) 

E eu, pensando em tudo isto, 
Fiquei outra vez menos feliz... 
Fiquei sombrio e adoecido e soturno 
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça 
E nem sequer de noite chega...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

EU SOU TREZENTOS...: UM POEMA DE MÁRIO DE ANDRADE



Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, 
As sensações renascem de si mesmas sem repouso, 
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! 
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras, 
E os suspiros que dou são violinos alheios; 
Eu piso a terra como quem descobre a furto 
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios [beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, 
Mas um dia afinal eu toparei comigo... 
Tenhamos paciência, andorinhas curtas, 
Só o esquecimento é que condensa, 
E então minha alma servirá de abrigo.


Data do poema: (7-VI-1929). Do livro Remate de Males.

domingo, 12 de agosto de 2012

SAFO DE LESBOS



a Lua já se pôs, as Plêiades também; é meia-
noite; a hora passa e eu,
deitada estou, sozinha.

tradução: Joaquim Brasil Fontes