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domingo, 6 de novembro de 2011

Ladainha: um poema de Cassiano Ricardo




Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"O Vosso Tanque, General, É Um Carro-Forte": poema de Bertolt Brecht






Derruba uma floresta, esmaga cem homens,
Mas tem um defeito
-       Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general, é poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade e
transporta mais carga que um elefante.
Mas tem um defeito
-       Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
-       Sabe pensar

tradução Joaquim Cardozo

domingo, 23 de outubro de 2011

"Para meus versos, escritos num repente": um poema de Marina Tzvietáieva


Para meus versos, escritos num repente
Quando eu nem sabia que era poeta,
Jorrando como pingos de nascente,
Como cintilas de um foguete,

Irrompendo como pequenos diabos,
No santuário, onde há sono e incenso,
Para meus versos de mocidade e morte,
- Versos que ler ninguém pensa! -

Jogados em sebos poeirentos
(Onde ninguém os pega ou pegará)
Para meus versos, como os vinhos raros,
Chegará seu tempo.

Tradução:Aurora F. Bernardini

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

UM POEMA DE CLAUDIO MANOEL DA COSTA




A cada instante, Amor, a cada instante
No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.

Por entre a sombra fúnebre, e distante
Rompe o vulto do alivio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais frágil, ora mais constante.

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;
Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.

Faz-se parcial da dita a desventura;
Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tão pouco está segura.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O espelho de um momento: um poema de Paul Eluard


Dissipa o dia,
Mostra aos homens as leves imagens da aparência,
Retira aos homens a possibilidade de se distraírem
É duro como a pedra,
A pedra informe,
A pedra do movimento e da vista,
E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras, [se tornam falsas.
O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão.
O que foi compreendido já não existe.
A ave confundiu-se com o vento,
O céu com a sua verdade,
O homem com a sua realidade.

tradução: António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Prefiro rosas, meu amor, à pátria: um poema de Ricardo Reis




Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

domingo, 21 de agosto de 2011

SOMA: um poema de Konstantinos Kaváfis


Não sei se sou feliz ou afortunado.
Mas sempre lembro alegre um simples dado:
na grande soma, a soma odiosa e vasta,
a que em tal cúmulo os contém, não sou
um dos tantos somados. No seu rol
não fui por certo incluído. Isso me basta.

tradução: Eugênio Gardinalli Filho

domingo, 14 de agosto de 2011

"Melhor é desejar do céu": um poema de Píndaro




Melhor é desejar do céu
coisas que assentem a um espírito mortal,
sabendo o que se encontra a nossos pés,
e qual a sorte para que nascemos.

Ó minh'alma, não aspires
a uma existência de imortal,
mas goza plenamente
tudo o que esteja ao teu alcance.


Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

domingo, 7 de agosto de 2011

"e começo aqui": poema de Haroldo de Campos

Postei no Youtube o trecho "e começo aqui" do Haroldo de Campos. Abaixo divulgo a postagem na qual se pode ouvir o próprio Haroldo de Campos recitando o fragmento inicial do livro Galáxias.





e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A PEDRA: um poema de Vítor Solteiro








(a meus pais)

Com a enxada da palavra
cavo a leira dos rebentos.
Por vezes, a lâmina das sílabas
faísca numa pedra mais agreste
escondida debaixo da terra.
Apanho-a e perscruto-a
com curiosidade de geólogo.
É uma pedra de múltiplas faces.
Contudo, só uma reluz quando lhe toco.
Mas é a aresta mais obscura e rugosa
a que me interpela.

Texto e fotografia de Vítor Solteiro. Seu blog: Arquitectura das Palavras

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

meus livros: um poema de Jorge Luis Borges



Meus livros (que não sabem que eu existo)
São parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos
Que inutilmente busco nos cristais
E com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica armagura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem que eu sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.

tradução Josely Vianna Baptista

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poemas: ROGEL SAMUEL E JEFFERSON BESSA




Após o poema Cheguei há pouco:



De Rogel Samuel para Jefferson Bessa:

li há pouco
o seu poema corpo
o corpo do seu poema
as coisas que com o corpo
fazem
li e sonho
com o alheio quarto
do alheio gozo
do poema


De Jefferson Bessa para Rogel Samuel

poema lido, escrito:
que respira
o alheamento
dos olhos, do corpo
do poema.
poema lido, escrevo:
neste quarto
que habitamos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Livro GALÁXIAS de Haroldo de Campos

Galáxias estava esgotado. A 2º edição era de 2004 e a 3º edição (2011) foi publicada recentemente. O livro vem acompanhado de um cd no qual Haroldo recita trechos do livro. O experimentalismo do poema é essencialmente para ser ouvido. A oralidade forte como a oralidade de Guimarães. Rosa é da Língua dos Sertões-Mundo. Haroldo é da Língua das Cidades-Mundo. São inventa-línguas (alusão minha à alusão de Haroldo a Maiakóvski - "o povo é o inventa-línguas").


Caetano Veloso musicou um trecho de Galáxias. Circuladô de fulô. O cd de Fora da Ordem. Encontrei o áudio de Caetano no youtube. Vou postar. Não encontrei nenhum aúdio do próprio Haroldo recitando.





Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen
E feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata
Velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
Outros não existia aquela música não podia porque não
Podia popular aquela música se não canta não é popular
Se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada
Na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria
Física e doendo doendo como um prego na palma da mão
Um ferrugem prego cego na palma espalma da mão
Coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro
Prego cego durando na palma polpa da mão ao sol

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá

O povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
Da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
Azeitava o eixo do sol

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá

E não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
Desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me
Esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto
Que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim
Me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito
E se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem
Faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre
Que me ensinou já não dá ensinamento

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá


sábado, 23 de julho de 2011

Falar: um poema de Ferreira Gullar




A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
falta ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Do livro EM ALGUMA PARTE ALGUMA

domingo, 10 de julho de 2011

Vagabundagem: um poema de Arthur Rimbaud




Lá ia eu com as mãos em meus bolsos furados;
O paletó também se tornara irreal;
E sob aquele céu, Musa! eu era teu vassalo;
E imaginava amores nunca imaginados!

Nas calças um buraco e eu só tinha aquelas.
- Pequeno Polegar das rimas, sonhador,
Instalei meu albergue na Ursa Maior.
- Lá no céu o frufru de seda das estrelas...

Eu as ouvia, sentado à beira das estradas,
nas noites boas de setembro, quando o orvalho
revigorava-me a fronte como um vinho;

E em meio às sombras fantásticas, então,
dedilhava, como se fossem lira, os elásticos
de meus sapatos, o pé junto do coração!

tradução Ferreira Gullar

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma noite em Los Andes: um poema de Ronald de Carvalho

"Naquela noite de Los
Andes eu amei como nunca o Brasil.

De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...

Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.

A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.

Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.

Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...

Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Soneto 55 de William Shakespeare







Nem mármore, nem áureos monumentos
De reis hão de durar mais que esta rima,
E sempre hás de brilhar nestes acentos
Do que na pedra, pois o tempo a lima.

Pode a estátua na guerra ser tombada
E a cantaria o vil motim destrua;
Nem fogo ou Marte apagará com a espada
Vivo registro da memória tua.

Há de seguir teu passo sobranceiro
Vencendo a Morte e as legiões do olvido,
E os pósteros, no juízo derradeiro,

Hão de a este louvor prestar ouvido.
Pois até a sentença que levantes,
Vives aqui e no lábio dos amantes.


tradução Ivo Barroso

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poema de Wang Wei (699-759 D. De C.)


Ultimamente tenho compreendido o significado da tranquilidade,
dias após dia me mantenho longe da multidão.
Limpei minha cabana e a preparei para a visita de um monge,
que chegou de longínquas montanhas para visitar-me.
Descendo veio dos picos ocultos pelas nuvens,
para ver-me na minha casa de teto de palha.
Sentados no pasto compartilhamos a resina do pinheiro,
queimando incenso lemos os sutras do Tao.
Ao terminar o dia, acendemos nossa lamparina
os sinos do templo anunciavam o
começo da noite.
Repentinamente, adverti que a
tranquilidade é realmente Felicidade
e senti que minha vida é feita de um farto tempo livre



****
O dia hoje é a tranquilidade. E só assim foi possível aproximar-me do poema de Wang Wei. Por isso, antes não havia comentado.
A tranquilidade se faz do ócio, que abre a porta para sentirmos o acolhimento de nosso abrigo. Dessa maneira é que o abrigo pode ser, então, amado. E o que se ama não permanece fechado. Abre-se a quem chega. Abre-se à visita, à pessoa que se ama.


A pessoa que me visita também virá acolher-me, já que de tão longe me vem fazer a visita. O exterior se encontra com a intimidade de meu abrigo: ama-se o exterior, porque se ama o interior e vice-versa.
Mas o que oferecer à visita tão importante que vem chegando dos altos picos de uma montanha para se instalar numa casa de teto de palha?
Ofereço meu abrigo, minha casa, onde eu habito - espaço que amo e que é feito de Tranquilidade, Felicidade e Ócio. (Jefferson Bessa)

domingo, 12 de junho de 2011

Branco: poema de Juan Ramón Jiménez





Branco, primeiro. De um branco

De inocência, cego, branco,

Branco de ignorância, branco,


Pronto verdeja o veneno.

Abre janelas o corpo.

O branco torna-se negro.



Guerra de noite e dias!

O vento assassina a brisa,

A brisa ao vento..
.................................Na brisa

Vem reconquistando o branco.

Branco verdadeiro, branco

Já de eternidade, branco.


Tradução Manuel Bandeira

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poema VII: 24 de Simônides de Ceos



Videira, mãe da uva e do vinho que tudo apaziguas,
&nbsp &nbsp &nbsp possa a teia de tuas gavinhas tortuosas
florescer, exuberante, no chão fino e coroar
&nbsp &nbsp &nbsp a estela da tumba do teano Anacreonte,
para que ele, festeiro e ébrio do vinho a que é tão [dado,
&nbsp &nbsp &nbsp tangendo sua lira amante de rapazes
noite afora, sob a terra, tenha acima da cabeça
&nbsp &nbsp &nbsp os galhos com o esplêndido racimo maduro,
e que possa umedecê-lo sempre o sereno da noite
&nbsp &nbsp &nbsp que sua boca de ancião tão doce respirava.



Tradução de José Paulo Paes
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