Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal?
Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por nós. Por que labutar no campo, na cidade? A máquina o fará por nós. Por que pensar, imaginar? A máquina o fará por nós. Por que fazer um poema? A máquina o fará por nós. Por que subir a escada de Jacó? A máquina o fará por nós.
Derruba uma floresta, esmaga cem homens, Mas tem um defeito -       Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general, é poderoso: Voa mais depressa que a tempestade e transporta mais carga que um elefante. Mas tem um defeito -       Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil: Sabe voar, e sabe matar Mas tem um defeito -       Sabe pensar
Dissipa o dia, Mostra aos homens as leves imagens da aparência, Retira aos homens a possibilidade de se distraírem É duro como a pedra, A pedra informe, A pedra do movimento e da vista, E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras, [se tornam falsas. O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão. O que foi compreendido já não existe. A ave confundiu-se com o vento, O céu com a sua verdade, O homem com a sua realidade.
Não sei se sou feliz ou afortunado. Mas sempre lembro alegre um simples dado: na grande soma, a soma odiosa e vasta, a que em tal cúmulo os contém, não sou um dos tantos somados. No seu rol não fui por certo incluído. Isso me basta.
Postei no Youtube o trecho "e começo aqui" do Haroldo de Campos. Abaixo divulgo a postagem na qual se pode ouvir o próprio Haroldo de Campos recitando o fragmento inicial do livro Galáxias.
e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma- páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim- comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala
Com a enxada da palavra cavo a leira dos rebentos. Por vezes, a lâmina das sílabas faísca numa pedra mais agreste escondida debaixo da terra. Apanho-a e perscruto-a com curiosidade de geólogo. É uma pedra de múltiplas faces. Contudo, só uma reluz quando lhe toco. Mas é a aresta mais obscura e rugosa a que me interpela.
Meus livros (que não sabem que eu existo) São parte de mim como este rosto De fontes grises e de grises olhos Que inutilmente busco nos cristais E com a mão côncava percorro. Não sem alguma lógica armagura Penso que as palavras essenciais Que me expressam se encontram nessas folhas Que não sabem que eu sou, não nas que escrevi. Melhor assim. As vozes dos mortos Vão me dizer para sempre. tradução Josely Vianna Baptista
Galáxias estava esgotado. A 2º edição era de 2004 e a 3º edição (2011) foi publicada recentemente. O livro vem acompanhado de um cd no qual Haroldo recita trechos do livro. O experimentalismo do poema é essencialmente para ser ouvido. A oralidade forte como a oralidade de Guimarães. Rosa é da Língua dos Sertões-Mundo. Haroldo é da Língua das Cidades-Mundo. São inventa-línguas (alusão minha à alusão de Haroldo a Maiakóvski - "o povo é o inventa-línguas").
Caetano Veloso musicou um trecho de Galáxias. Circuladô de fulô. O cd de Fora da Ordem. Encontrei o áudio de Caetano no youtube. Vou postar. Não encontrei nenhum aúdio do próprio Haroldo recitando.
Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen
E feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata
Velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
Outros não existia aquela música não podia porque não
Podia popular aquela música se não canta não é popular
Se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada
Na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria
Física e doendo doendo como um prego na palma da mão
Um ferrugem prego cego na palma espalma da mão
Coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro
Prego cego durando na palma polpa da mão ao sol
Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá
O povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
Da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
Azeitava o eixo do sol
Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá
E não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
Desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me
Esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto
Que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim
Me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito
E se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem
Faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre
Que me ensinou já não dá ensinamento
Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô
De fulô e ainda quem falta me dá
A poesia é, de fato, o fruto de um silêncio que sou eu, sois vós, por isso tenho que baixar a voz porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma falta ao revés da fala, como um silêncio que o poeta exuma do pó, a voz que jaz embaixo do falar e no falar se cala. Por isso o poeta tem que falar baixo baixo quase sem fala em suma mesmo que não se ouça coisa alguma.
Lá ia eu com as mãos em meus bolsos furados; O paletó também se tornara irreal; E sob aquele céu, Musa! eu era teu vassalo; E imaginava amores nunca imaginados!
Nas calças um buraco e eu só tinha aquelas. - Pequeno Polegar das rimas, sonhador, Instalei meu albergue na Ursa Maior. - Lá no céu o frufru de seda das estrelas...
Eu as ouvia, sentado à beira das estradas, nas noites boas de setembro, quando o orvalho revigorava-me a fronte como um vinho;
E em meio às sombras fantásticas, então, dedilhava, como se fossem lira, os elásticos de meus sapatos, o pé junto do coração!
Nem mármore, nem áureos monumentos De reis hão de durar mais que esta rima, E sempre hás de brilhar nestes acentos Do que na pedra, pois o tempo a lima.
Pode a estátua na guerra ser tombada E a cantaria o vil motim destrua; Nem fogo ou Marte apagará com a espada Vivo registro da memória tua.
Há de seguir teu passo sobranceiro Vencendo a Morte e as legiões do olvido, E os pósteros, no juízo derradeiro,
Hão de a este louvor prestar ouvido. Pois até a sentença que levantes, Vives aqui e no lábio dos amantes.
Ultimamente tenho compreendido o significado da tranquilidade, dias após dia me mantenho longe da multidão. Limpei minha cabana e a preparei para a visita de um monge, que chegou de longínquas montanhas para visitar-me. Descendo veio dos picos ocultos pelas nuvens, para ver-me na minha casa de teto de palha. Sentados no pasto compartilhamos a resina do pinheiro, queimando incenso lemos os sutras do Tao. Ao terminar o dia, acendemos nossa lamparina os sinos do templo anunciavam o começo da noite. Repentinamente, adverti que a tranquilidade é realmente Felicidade e senti que minha vida é feita de um farto tempo livre
**** O dia hoje é a tranquilidade. E só assim foi possível aproximar-me do poema de Wang Wei. Por isso, antes não havia comentado. A tranquilidade se faz do ócio, que abre a porta para sentirmos o acolhimento de nosso abrigo. Dessa maneira é que o abrigo pode ser, então, amado. E o que se ama não permanece fechado. Abre-se a quem chega. Abre-se à visita, à pessoa que se ama.
A pessoa que me visita também virá acolher-me, já que de tão longe me vem fazer a visita. O exterior se encontra com a intimidade de meu abrigo: ama-se o exterior, porque se ama o interior e vice-versa. Mas o que oferecer à visita tão importante que vem chegando dos altos picos de uma montanha para se instalar numa casa de teto de palha? Ofereço meu abrigo, minha casa, onde eu habito - espaço que amo e que é feito de Tranquilidade, Felicidade e Ócio. (Jefferson Bessa)
Videira, mãe da uva e do vinho que tudo apaziguas,       possa a teia de tuas gavinhas tortuosas florescer, exuberante, no chão fino e coroar       a estela da tumba do teano Anacreonte, para que ele, festeiro e ébrio do vinho a que é tão [dado,       tangendo sua lira amante de rapazes noite afora, sob a terra, tenha acima da cabeça       os galhos com o esplêndido racimo maduro, e que possa umedecê-lo sempre o sereno da noite       que sua boca de ancião tão doce respirava.
Tradução de José Paulo Paes Sobre Simônides de Ceos: clique aqui Sobre Anacreonte: clique aqui