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sexta-feira, 19 de março de 2010

Não indagues: poema de Horácio


Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber,
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
melhor é suportar
tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
corta a longa esperança,
que é breve nosso prazo de existência.
Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos

segunda-feira, 15 de março de 2010

Um poema-prosa de Arnaldo Antunes


Caso queira ampliar, clique sobre a figura

quinta-feira, 11 de março de 2010

A mesa ao lado: poema de Konstantinos Kaváfis


Terá, quando muito, vinte e dois anos.
E no entanto estou certo de que, há quase tantos
anos passados, esse mesmo corpo eu desfrutei.

Não é, de modo algum, uma ilusão erótica.
E somente há pouco foi que entrei no cassino;
nem tive tempo de beber demais.
O mesmo corpo eu desfrutei.
Se não me lembro onde - não quer dizer que seja [esquecimento.

Ah, agora sim, que se sentou ali, na mesa ao lado,
reconheço cada movimento seu - e, para além das roupas,
eu os revejo, nus, os membros tão amados.

tradução José Paulo Paes

sábado, 6 de março de 2010

Foi para ti que criei as rosas: poema de Eugénio de Andrade



Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.


Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tão cedo passa tudo quanto passa - um poema de Ricardo Reis




Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
.............Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
.............E cala. O mais é nada.

*detalhe de um desenho feito por Almada Negreiros

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Rio Abaixo: soneto de Olavo Bilac



Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pedro Kilkerry: trecho de um poema

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Bacanal: poema de Manuel Bandeira




Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
......................Evoé Baco!


Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo...
......................Evoé Momo!


Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
......................Evoé Vênus!


Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
......................Evoé Baco!


O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
.....................Evoé Momo!


A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
.....................Evoé Vênus!


Do livro Carnaval

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VIDA TODA LINGUAGEM: um poema de Mário Faustino




Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
.....................................como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
.....................................amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
....................................../ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
....................................língua
..............................................eterna.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Abaixo o além: poema de Paulo Leminski


....de dia
céu com nuvens
....ou céu sem

....de noite
não tendo nuvens
....estrela
sempre tem

....quem me dera
um céu vazio
....azul isento
de sentimento
....e de cio.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Exercício nº17: um poema de Zemaria Pinto

de cinco mil sementes repartidas
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido

miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas

da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras

pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais

domingo, 17 de janeiro de 2010

O sonho de um curioso: um poema de Baudelaire ao fotógrafo Félix Nadar

Conheces tu, como eu, a dor saborosa?
E que te faz dizer: "Oh! homem singular!"
— Morrer eu ia. Havia, em minha alma amorosa,
Misto de êxtase e horror, um mal particular;

Desespero e esperança, indiferença ociosa.
Quanto mais a ampulheta eu via a se esvaziar,
Mais a tortura me era atroz e deliciosa;
Meu coração fugia ao mundo familiar.

Eu era como a criança à espera do espetáculo
Odiando o pano como se odeia um obstáculo...
Mas a fria verdade enfim se revelou:

Eu morrera sem susto, e a terrível aurora
Me envolvia. - Mas como? O que então se passou?
O pano já caíra e eu não me fora embora.

Tradução Ivan Junqueira

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Mystica Visio - poema de Augusto dos Anjos


Vinha passando pelo meu caminho
Um vulto estranhamente iluminado...
Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado
E desde então, não andei mais sozinho!

Abraçou-me, beijou-me com um carinho
Que a um ser divino não seria dado...
E eu me elevava, sendo assim beijado
Muito acima do humano borborinho!

Falou-me de ilusões e de luares,
Da tribo alegre que povoa os ares...
- Assombrava-me aquela claridade!

Mas através daquelas falsas luzes
Pude rever enfim todas as cruzes
Que têm pesado sobre a Humanidade!

Pau d'Arco, 1905 (O Comércio, 15/09/1905)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Amanhecer: poema de Joaquim Cardozo



A luz nasce no Oriente, os pássaros despertam ...
Amanhancer! Amanhecer!
As cinzas da noite já se afastam
Promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã

Amanhecer! Amanhecer!
Agora se libertam os horizontes
E cada vez mais se chegam e se aproximam
Da noite escura que vai fugindo
Que se flutuando e vai se perdendo;
A noite - que depois voltará.

A noite se dissolve nas marcas do papel
Desenhada e claras ...
Ou cavalga como manchas brancas
Para fugir mais depressa,
Ou se retarda nas trevas
Que ainda se vão arrastando longamente
Amanhecer! Amanhecer!

Muito em breve termina o amanhecer
Embora, nessa página ainda continue .

Amanhecer! Amanhecer!
É grito agudo de quem espera
Chegar ao fim da noite.


Do livro O Interior da matéria.




Terminada a digitação do poema de Joaquim Cardozo para o blog, apenas tive uma grande satisfação em poder digitá-lo. É como se eu o sentisse meu. Mas esta sensação é ter, por um um momento, o poema de Joaquim ao lado e bem próximo - rente a mim. É um amanhecer como o poema amanhece, amanhecer junto ao poeta pernambucano que ao meu lado anuncia uma luz que nasce no Oriente.


E desta maneira vou ouvindo o canto de Joaquim, que canta o nascimento do amanhecer numa descrição tão simples e rara que se tem a presença de um eterno amanhecer em papel.


Mas e a brevidade desse instante? Como ele ser eterno? Mas afirmo por aquilo que o poema se faz uma eternidade própria do Amanhecer. Ele tem a força do amanhecer. É o amanhecer. Reli-o várias vezes. Em todas as vezes este instante surgiu como um poema que inicia sempre, ou ainda, como um poema que amanhece sempre.


Há uma força grande e simples. E o que move o poema está na forma e na vida dele mesmo.


Digitar um poema se tornou  amanhecer.


(Jefferson Bessa)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

minha identidade se perde em tua id: um poema de Rogel Samuel


minha identidade se perde em sua id
e me perdi ali, que dissolvido
estou no ser amado em seu destino.
que se me vejo no reflexo de seus versos
já dividido sou nos seus espelhos
nem busco estar no todo de suas partes
mas no dorso, em procurando
a casa inteira dei-me conta
que só de números me inscrevo
e recebo identidade e assim percorro
os seus ombros, os seus pelos, o lenho exposto
sobre os anelados dos cabelos
e a linda curvatura do pescoço.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Música da Morte: um poema de Cruz e Souza


A música da Morte, a nebulosa,
Estranha, imensa música sombria,
Passa a tremer pela minh'alma e fria
Gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onde nervosa e atroz, onda nervosa,
Letes sinistro e torvo da agonia,
Recresce a lancinante sinfonia,
Sobe, numa volúpia dolorosa...

Sobre, recresce, tumultuando e amarga,
Tremenda, absurda, imponderada e larga,
De pavores e trevas alucina...

E aluciando e em trevas delirando,
Como um Ópio letal, vertiginando,
Os meus nervos, letárgica, fascina...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um Poema de Marina Tzvietáieva

Mão esquerda contra a direita.
Tua alma e minha alma - rentes.

Fusão, beatitude que abrasa.
Direita e esquerda - duas asas.

Roda tufão, o abismo fez-se
Da asa esquerda à asa direita.

(Tradução de Haroldo de Campos)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Canção: poema de Rosa Leveroni

Mil auroras acendeu
o ardente grito da chama.
Dez mil estrelas nos deu
o pranto sutil do orvalho.
Punha o perfume carmim
na alma desta rosa branca
e uma cerva pela fonte
buscava o espelho de prata.
Percebi uma canção
e não sei quem a cantava:
entre suspiros e ramos,
como de longe, chegava,
dizendo bem docemente:
Ai da triste enamorada!...

tradução João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Um poema de Rogel Samuel

transforma-se o amador em terrorista
e sua inês fálica na pista
em seus braços onde levará?
interdita por preservativos
sua beatriz de amor armada
quando ama mata o amado
punhal pelúcia escondida
eles se encontram na vida
com amor com ódio com cida
maquilagem fementida
salto alto escorregadia via
no vão da escada se masturbam vivos
gameta estrela circunstância pia
nos cines pornôs e hotéis baratos
eles se ajoelham escondidos.
suas crianças desde que perdidas
tão perigosas assaltantes nuas
à noite transadas pelas ruas
por milicianos que a querem vivas
contaminadas nas suas mágicas rotas
de polícias especializadas
no desejo na espera e nessa dor
erotizadas dos primeiros gozos
postais sextantes dessa corja aziaga
de escória e de glórias clandestinas
guirlandas estupradas nesses montes de lixo
de restos de hospitais a flor da morte
(dia virá em que os amantes
serão caçados a bala)

domingo, 29 de novembro de 2009

poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa



A partir do poema Minha letra é outra, surgiu um poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa.


Rogel Samuel escreveu:



para Jefferson Bessa


seu poema está imerso
nessas ondas do fundo
que confundem são gavetas
são marcas dágua
são dunas de um outro mundo
são gravações agravadas
onde o poema dorme, gravado
mas solto, engavetado
mas aéreo, eu disse
que essa sua nova fase
de sua poesia vai ser gravada
nas ondas desse mar
desse colorido mar
nas ondas do fundo da memória
desses computadores-leitores
a cores
ou leitores em preto e branco e agora
em ondas vermelhas pretas e azuis
concentradas
concêntricas
fecundas
postadas
gravadas
água
água e areia
água
tinta de cor de água
água e tinta de água e cor

***

Jefferson Bessa escreveu:


nossas águas-palavras (para Rogel Samuel)


palavra úmida
em palavra água
gravada em seiva
em leitura água-viva.

palavra-ondina
amistosa fluvial.
é nossa face que vibra
por entre a tela líquida.

letras postadas
móveis nos corpos
na confluência de ondas
escritas, magnéticas.

é tinta de olhos
pela entre-onda
muito atenta e diluída
que ondula o poema.