quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
A orquestra invisível de Joaquim Cardozo
Num liso papel assim tão próximo
Com a mão percorro a escuridão.
Vou tateando levemente os seus contrastes
Vou descobrindo formas e objetos,
Ou medindo os elementos escondidos
Na ordem sem sentido e tenebrosa.
A escuridão se quebra em teclas negras
Que se encadeiam, que se dispersam. . .
Surgem teclados de instrumentos raros
Cujo som perfeito não se sabe bem.
É um som apenas? É um canto claro?
De uma sinfonia ou de uma sonata?
Noturno de Chopin em sol maior?
Do outro lado há tímbales, tambores,
O branco aparece puro e consagrado,
Na sua alvura imaculada;
Há longos fagotes, há clarinetes,
Há flautas e oboés: escondidos
No escuro cantam violinos, violoncelos;
E a luz branca brilha eternamente
Nessa orquestra invisível e nihilsonora.
O som, o cântico, a música da esquecida orquestra
Estão no fim, estão no branco-luz constante
[e claro.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Mais uma vez o deslize vertical de Minor White – Jefferson Bessa
Este breve texto se refere ao post anterior em que se expõe a fotografia “Surf Vertical” de Minor White na qual o fotógrafo quer o olhar vertical das ondas. No entanto, frente ao mar - sempre horizontal - não bastaria apenas girar a máquina na posição vertical, porque, se assim fosse, as ondas continuariam com o indesejado efeito – nenhuma mudança do olhar horizontal ao voltar-se para as ondas. A máquina, por si só, não basta para o que pensou Minor White. Ele pensou nas ondas verticais. De que modo olhar e deslizar sobras ondas de modo vertical? O olhar queria ser ampliado para tal posição. Depois da investigação do artista, as ondas verticais se tornam o desafio desta fotografia. Então, do olhar horizontal do artista temos o transporte do olhar e do corpo do artista para alcançar a verticalidade: ele se coloca sobrevoando as ondas na linha vertical que se propôs. Para tanto – ele como artista que é - não lançou mão de apertar somente o botão da máquina, mas de pensar o que pode criar a arte fotográfica para “surfar” verticalmente.
Jefferson Bessa
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Heroísmos - Cesário Verde
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
Eu temo o largo mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Dúvidas apócrifas de Marianne Moore - João Cabral de Melo Neto
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso,
e sempre impudor?
A coisa de que se falar
Até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo
Impuramente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?
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domingo, 15 de fevereiro de 2009
POESIA - Marianne Moore
Também não gosto.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a
[ gente acaba descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.
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