quarta-feira, 11 de março de 2009

Do poema "Veludoso Coro" de Rogel Samuel - Jefferson Bessa



Veludoso coro
Desta ameixeira
Quando pomos d’ouro
Cobrem a cumeeira
Sobre todos nós
Sua eletricidade
Melodioso foro
De felicidade.


No poema “Veludoso coro” de Rogel Samuel, algo está sobre nós: uma ameixeira. Submetemo-nos a ela para nos abrir a uma harmoniosa melodia, pois é sob ela que podemos deixar surgir uma vida em plenitude. O teto formado por ameixas nos cobre para além de uma submissão egoísta de inferioridade. Pelo contrário, na grande simplicidade de nos colocar sob a ameixeira a que nos convida o poeta está o que nos abre a uma energia suave e harmônica.

Tal energia exala do poema e dos frutos dourados que reluzem a felicidade: esta é a eletricidade sonora que desce aos homens. Ouvimos o canto da felicidade quando o poeta nos leva à ameixeira. Ela, que nos cobre, possui uma música de textura veludosa que possui o sentido de um canto sinestésico. É que pelo cruzamento sensorial simultâneo da visão, do tato e da audição temos o corpo aberto aos frutos que re-unem todos homens e o mundo.

Pela forte visualidade e movimento que o poema desperta, somos cobertos pelo poema que, como a ameixeira, sinaliza uma música táctil e visual. Sonoridade que levanta a felicidade para nos encobrir de uma claridade presente no tecido musical macio, feliz e simples da ameixeira.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Espaço Lírico - Cassiano Ricardo


Não amo o espaço que o meu corpo ocupa
Num jardim público, num estribo de bonde.
Mas o espaço que mora em mim, luz interior.
Um espaço que é meu como uma flor

Que me nasceu por dentro, entre paredes.
Nutrido à custa de secretas sedes.
Que é a forma? Não o simples adorno.
Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço

Dentro do meu perfil, do meu contorno.
Que haja em mim um chão vivo em cada passo
(mesmo nas horas mais obscuras) para

Que eu possa amar a todas as criaturas.
Morte: retorno ao incriado. Espaço:
Virgindade do tempo em campo verde.


*Pintura: João Werner - Espaço Interior

sábado, 7 de março de 2009

Ciclista - Iberê Camargo


Ciclista
oil on canvas
200 X 236 cm, 1988
Private collection
New York

domingo, 1 de março de 2009

O que Joaquim Cardozo faz ver – Jefferson Bessa


A obra de Joaquim Cardozo, poeta recifense (1897-1978), encontra-se gratuitamente na internet (o link está ao lado na sessão VISITAS deste blog). O poema A orquestra invisível, postado anteriormente neste blog, está contido no livro O interior da matéria – editado em 1975. Tal poema possui a força de quebrar a escuridão até abrir o poema ou o gesto de escrever a uma claridade justa que pertence ao próprio poema.

É desse contraste que Joaquim Cardozo surge como um poeta que faz de sua criação um caminho para fazer nascer ao que se propõe – uma orquestra. Mas isso é possível, porque um poema tem sua verdade, ele nos faz ver o invisível e o inaudível. Eu vejo, nós vemos. Digo que seria uma orquestra visível-invisível / audível-inaudível. Esse é um poema que tem a força de construir a sua orquestra, mostrando a verdade de criação dada ao poeta, que é capaz de retirar o véu do que em um momento pode estar encoberto – o momento da escrita.

Entre os sons e as cores, entre a orquestra e os contrastes de visibilidade e de luz, não há nenhum conflito. Ao contrário, tudo o que está entre a claridade e a escuridão no poema é o trabalho do poeta-maestro que conduz o que está invisível por fazer raiar em claridade o que surge como obra. E assim ele percorre a folha que da escuridão se ilumina em uma grande orquestra. Assim os instrumentos surgem no papel agrupados, dispostos ou dispersos: é a dinâmica, o crescimento gradual do poema para que tudo o que ali surge acabe na luz e o poeta diz: “Estão no fim, estão no branco-luz constante e claro”. O poema então se realiza em luz de “alvura imaculada”. O poeta é aquele que descobre o escondido para manter escondido em claridade. Joaquim Cardozo é o poeta que vai “tateando levemente os seus contrastes” e vai “descobrindo formas e objetos”.
Jefferson Bessa

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A orquestra invisível de Joaquim Cardozo


Num liso papel assim tão próximo
Com a mão percorro a escuridão.
Vou tateando levemente os seus contrastes
Vou descobrindo formas e objetos,
Ou medindo os elementos escondidos
Na ordem sem sentido e tenebrosa.
A escuridão se quebra em teclas negras
Que se encadeiam, que se dispersam. . .
Surgem teclados de instrumentos raros
Cujo som perfeito não se sabe bem.
É um som apenas? É um canto claro?
De uma sinfonia ou de uma sonata?
Noturno de Chopin em sol maior?
Do outro lado há tímbales, tambores,
O branco aparece puro e consagrado,
Na sua alvura imaculada;
Há longos fagotes, há clarinetes,
Há flautas e oboés: escondidos
No escuro cantam violinos, violoncelos;
E a luz branca brilha eternamente
Nessa orquestra invisível e nihilsonora.
O som, o cântico, a música da esquecida orquestra
Estão no fim, estão no branco-luz constante

[e claro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Mais uma vez o deslize vertical de Minor White – Jefferson Bessa

Este breve texto se refere ao post anterior em que se expõe a fotografia “Surf Vertical” de Minor White na qual o fotógrafo quer o olhar vertical das ondas. No entanto, frente ao mar - sempre horizontal - não bastaria apenas girar a máquina na posição vertical, porque, se assim fosse, as ondas continuariam com o indesejado efeito – nenhuma mudança do olhar horizontal ao voltar-se para as ondas. A máquina, por si só, não basta para o que pensou Minor White. Ele pensou nas ondas verticais. De que modo olhar e deslizar sobras ondas de modo vertical? O olhar queria ser ampliado para tal posição. Depois da investigação do artista, as ondas verticais se tornam o desafio desta fotografia. Então, do olhar horizontal do artista temos o transporte do olhar e do corpo do artista para alcançar a verticalidade: ele se coloca sobrevoando as ondas na linha vertical que se propôs. Para tanto – ele como artista que é - não lançou mão de apertar somente o botão da máquina, mas de pensar o que pode criar a arte fotográfica para “surfar” verticalmente.
Jefferson Bessa

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Surf Vertical - Minor White

Minor White
Surf Vertical, San Mateo County, California
1947