quinta-feira, 19 de março de 2009

Heidegger

A poesia não sobrevoa e nem se eleva sobre a terra a fim de abandoná-la e pairar sobre ela. É a poesia que traz o homem para a terra, para ela, e assim o traz para um habitar. (...) A poesia constrói a essência do habitar. Ditar poeticamente e habitar não apenas não se excluem. É mais do que isso. Ditar poeticamente e habitar se pertencem mutuamente no modo em que um exige o outro. (...) A poesia é a capacidade fundamental do modo humano de habitar.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Wallace Stevens – Da poesia moderna



O poema da mente no ato de achar
O que bastará. Nem sempre teve
Que achar: a cena estava pronta; repetia o que
estava no roteiro.
........................................................Então o teatro mudou
Para outra coisa. Seu passado era um souvenir.

Tinha que estar vivo, aprender a fala do lugar.
Tinha que enfrentar os homens da época e encontrar
As mulheres da época. Tinha que pensar sobre a guerra
E tinha que achar o que bastará. Tinha
Que construir um novo palco. Tinha que estar nesse palco
E, como um ator insaciável, lenta e
Meditativamente falar palavras que no ouvido,
No delicadíssimo ouvido da mente, repitam
Exatamente aquilo que quer ouvir, ao som
Do qual uma audiência escuta,
Não à peça, mas a si própria, expressa
Numa emoção como a de duas pessoas, como a de duas
Emoções a se tornar uma. O ator é
Um metafísico no escuro, tangendo
Um instrumento, tangendo um instrumento de arame que faz
Sons passando por súbitas justezas, contendo
Inteiramente a mente, abaixo da qual não consegue descer,
Além da qual não tem vontade de subir.
.......................................................Tem que ser
O ato de achar uma satisfação, e pode

Ser a de um homem patinando, uma mulher dançando, uma mulher dançando, uma mulher se penteando. O poema do ato da mente.

sábado, 14 de março de 2009

Barulho - Ferreira Gullar


Todo poema é feito de ar
apenas

            a mão do poeta
            não rasga a madeira
            não fere
                         o metal
                         a pedra
            não tinge de azul
            os dedos
            quando escreve manhã
            ou brisa
            ou blusa
                          de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
              tudo
              o que há nele
              é barulho
                          quando rumoreja

                          ao sopro da leitura.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Do poema "Veludoso Coro" de Rogel Samuel - Jefferson Bessa



Veludoso coro
Desta ameixeira
Quando pomos d’ouro
Cobrem a cumeeira
Sobre todos nós
Sua eletricidade
Melodioso foro
De felicidade.


No poema “Veludoso coro” de Rogel Samuel, algo está sobre nós: uma ameixeira. Submetemo-nos a ela para nos abrir a uma harmoniosa melodia, pois é sob ela que podemos deixar surgir uma vida em plenitude. O teto formado por ameixas nos cobre para além de uma submissão egoísta de inferioridade. Pelo contrário, na grande simplicidade de nos colocar sob a ameixeira a que nos convida o poeta está o que nos abre a uma energia suave e harmônica.

Tal energia exala do poema e dos frutos dourados que reluzem a felicidade: esta é a eletricidade sonora que desce aos homens. Ouvimos o canto da felicidade quando o poeta nos leva à ameixeira. Ela, que nos cobre, possui uma música de textura veludosa que possui o sentido de um canto sinestésico. É que pelo cruzamento sensorial simultâneo da visão, do tato e da audição temos o corpo aberto aos frutos que re-unem todos homens e o mundo.

Pela forte visualidade e movimento que o poema desperta, somos cobertos pelo poema que, como a ameixeira, sinaliza uma música táctil e visual. Sonoridade que levanta a felicidade para nos encobrir de uma claridade presente no tecido musical macio, feliz e simples da ameixeira.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Espaço Lírico - Cassiano Ricardo


Não amo o espaço que o meu corpo ocupa
Num jardim público, num estribo de bonde.
Mas o espaço que mora em mim, luz interior.
Um espaço que é meu como uma flor

Que me nasceu por dentro, entre paredes.
Nutrido à custa de secretas sedes.
Que é a forma? Não o simples adorno.
Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço

Dentro do meu perfil, do meu contorno.
Que haja em mim um chão vivo em cada passo
(mesmo nas horas mais obscuras) para

Que eu possa amar a todas as criaturas.
Morte: retorno ao incriado. Espaço:
Virgindade do tempo em campo verde.


*Pintura: João Werner - Espaço Interior

sábado, 7 de março de 2009

Ciclista - Iberê Camargo


Ciclista
oil on canvas
200 X 236 cm, 1988
Private collection
New York

domingo, 1 de março de 2009

O que Joaquim Cardozo faz ver – Jefferson Bessa


A obra de Joaquim Cardozo, poeta recifense (1897-1978), encontra-se gratuitamente na internet (o link está ao lado na sessão VISITAS deste blog). O poema A orquestra invisível, postado anteriormente neste blog, está contido no livro O interior da matéria – editado em 1975. Tal poema possui a força de quebrar a escuridão até abrir o poema ou o gesto de escrever a uma claridade justa que pertence ao próprio poema.

É desse contraste que Joaquim Cardozo surge como um poeta que faz de sua criação um caminho para fazer nascer ao que se propõe – uma orquestra. Mas isso é possível, porque um poema tem sua verdade, ele nos faz ver o invisível e o inaudível. Eu vejo, nós vemos. Digo que seria uma orquestra visível-invisível / audível-inaudível. Esse é um poema que tem a força de construir a sua orquestra, mostrando a verdade de criação dada ao poeta, que é capaz de retirar o véu do que em um momento pode estar encoberto – o momento da escrita.

Entre os sons e as cores, entre a orquestra e os contrastes de visibilidade e de luz, não há nenhum conflito. Ao contrário, tudo o que está entre a claridade e a escuridão no poema é o trabalho do poeta-maestro que conduz o que está invisível por fazer raiar em claridade o que surge como obra. E assim ele percorre a folha que da escuridão se ilumina em uma grande orquestra. Assim os instrumentos surgem no papel agrupados, dispostos ou dispersos: é a dinâmica, o crescimento gradual do poema para que tudo o que ali surge acabe na luz e o poeta diz: “Estão no fim, estão no branco-luz constante e claro”. O poema então se realiza em luz de “alvura imaculada”. O poeta é aquele que descobre o escondido para manter escondido em claridade. Joaquim Cardozo é o poeta que vai “tateando levemente os seus contrastes” e vai “descobrindo formas e objetos”.
Jefferson Bessa