segunda-feira, 30 de março de 2009

À TERRA PROVISÓRIA – Bruno Tolentino


Adeus, cimos e vales e veredas,
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas de sol na luz de seda.

Adeus, troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus, colinas
que iam subindo como labaredas

de cobalto no ar... Adeus, beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza

também é feita de deixar de ser,
e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à luz do provisório amanhecer.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Quem tu foste, Walt Whitman?


Enquanto eu lia o livro, a ilustre biografia,
Então é isto (eu disse) que o autor considera ser a vida de um homem?
E assim, alguém, quando eu estiver morto ou ausente, escreverá minha vida?
(Como se qualquer homem soubesse realmente algo sobre a minha vida,
quando até eu mesmo sempre penso saber pouco ou nada sobre minha vida real,
apenas algumas dicas, umas poucas dicas pálidas e difusas e despistes
que procuro para meu uso próprio na trilha aqui de fora.)
Walt Whitman - Folhas de Relva


Quem tu foste, Walt Whitman? De que modo considerar a tua vida? Para isso não há respostas: tu mesmo pouco ou nada soubeste sobre tua vida real. Estamos fora da pretensão de que uma narração biográfica seja fiel ou real para conhecermos tua vida. Selecionar algumas miudezas de fatos restringiria e empobreceria a vivência do poeta. O retalho biográfico não dá conta da dimensão da vida, que só é vivida por quem vive.
O que se julga vida real não se conhece. Não se determina a vida de um artista por intermédio de um compêndio de fatos ou traços de personalidade. Seria falho, portanto, escrever a vida por registros biográficos, pois da vida (de si e do outro) temos somente “dicas pálidas e difusas”. Não se pode decidir quem somos por notas de definição: os fatos da vida social e individual são insuficientes para determinarmos o Homem. Impossível também definir por um conceito do que é Vida, pois qualquer conceito a reduziria; como acontece também com a definição biológica, cultural ou religiosa da Vida. Qualquer fixação sobre Ela é disparate. Ele foi isso, Eu fui isso: assim diz o pretenso que pensa ser quem é ou o que é realmente.
A construção possível poderia ser pensada da seguinte forma: Eu sou a Vida. A Vida sou Eu. Ou ainda: Whitman foi a Vida; a Vida foi Whitman – sabendo de pouca coisa. A ligação entre uma coisa e outra é como uma seta que vai e volta ao mesmo encontro; mas sempre atento para que não haja desvio para o que está além de nós. Mas, longe de ser uma definição, o que se diz aqui deixa a Vida como o que nós vivemos sem saber.
Outra: como não se escreve a vida alheia, também não se escreve sobre a própria vida. Assim nem mesmo uma autobiografia seria válida. Não se sabe realmente sobre a vida real nem de si nem do outro. O que o poeta procurou, ainda que em traços “pálidos”, foi para uso próprio. Próprio e que ninguém poderá viver ou conhecer - se ele mesmo pouco soube. Estranho é ter conhecimento de biografias sobre Whitman depois desse poema. Desrespeito maior seria ler uma delas. Ninguém sabe dos dias que pertencem somente ao poeta.
(Jefferson Bessa)

terça-feira, 24 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

Antologias - Jorge Tufic







Poetas e girassóis
estão sendo moídos,


E o pó de seus dedos
clareia os moinhos.






imagem: Nuno de Souza Mendes

quinta-feira, 19 de março de 2009

Heidegger

A poesia não sobrevoa e nem se eleva sobre a terra a fim de abandoná-la e pairar sobre ela. É a poesia que traz o homem para a terra, para ela, e assim o traz para um habitar. (...) A poesia constrói a essência do habitar. Ditar poeticamente e habitar não apenas não se excluem. É mais do que isso. Ditar poeticamente e habitar se pertencem mutuamente no modo em que um exige o outro. (...) A poesia é a capacidade fundamental do modo humano de habitar.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Wallace Stevens – Da poesia moderna



O poema da mente no ato de achar
O que bastará. Nem sempre teve
Que achar: a cena estava pronta; repetia o que
estava no roteiro.
........................................................Então o teatro mudou
Para outra coisa. Seu passado era um souvenir.

Tinha que estar vivo, aprender a fala do lugar.
Tinha que enfrentar os homens da época e encontrar
As mulheres da época. Tinha que pensar sobre a guerra
E tinha que achar o que bastará. Tinha
Que construir um novo palco. Tinha que estar nesse palco
E, como um ator insaciável, lenta e
Meditativamente falar palavras que no ouvido,
No delicadíssimo ouvido da mente, repitam
Exatamente aquilo que quer ouvir, ao som
Do qual uma audiência escuta,
Não à peça, mas a si própria, expressa
Numa emoção como a de duas pessoas, como a de duas
Emoções a se tornar uma. O ator é
Um metafísico no escuro, tangendo
Um instrumento, tangendo um instrumento de arame que faz
Sons passando por súbitas justezas, contendo
Inteiramente a mente, abaixo da qual não consegue descer,
Além da qual não tem vontade de subir.
.......................................................Tem que ser
O ato de achar uma satisfação, e pode

Ser a de um homem patinando, uma mulher dançando, uma mulher dançando, uma mulher se penteando. O poema do ato da mente.

sábado, 14 de março de 2009

Barulho - Ferreira Gullar


Todo poema é feito de ar
apenas

            a mão do poeta
            não rasga a madeira
            não fere
                         o metal
                         a pedra
            não tinge de azul
            os dedos
            quando escreve manhã
            ou brisa
            ou blusa
                          de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
              tudo
              o que há nele
              é barulho
                          quando rumoreja

                          ao sopro da leitura.