Não sei o que é poesia,
onde começa ou acaba.
Não sei se é pluma de Deus
ou se invenção do Diabo.
Não sei quando essa tinta
irriga seu sonho e seu caule.
Não sei se viga do corpo
ou se pilastra da alma.
Não sei o que é poesia.
Não sei o momento exato
em que cavalgo a vertigem,
em que sucumbo ao seu rapto.
Não se é um anjo torto
ou se remansosa ideia.
Só sei quando o verso chega,
mesa pronta para a ceia.
Do livro “As Verdes Léguas”
segunda-feira, 13 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
O cabelo e o mar: um poema de Maria Azenha
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para voltar ao princípio do mundo - poema de Maria Azenha
sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor
..........
sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola
para voltar ao princípio do mundo
..........
..........
com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento
...........
era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte
...........
um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar
...........
e disse: tece-me
...........
e o mar inclinou-se para dentro
para tecer
............
o poema
..........
Para surgir um poema é necessário se despir de ações que embaçam o modo mais simples de tecer um poema-vida. Despir-se de tais ações é cortar os cabelos, pois estes por si mesmos não tecem o poema. Os fios de cabelo fazem esquecer do que propriamente um poema se faz, do que uma vida se faz. Para esse pensamento que se esquece na flor; para esse pensamento que volta o seu coração para uma corola; para esse pensamento que morde o vento, aprisionando-se a um vestido que se recusa a sentir o vento, preciso é levantar-se e cortar o excedente dessas ações.
Para surgir um poema é necessário se despir de ações que embaçam o modo mais simples de tecer um poema-vida. Despir-se de tais ações é cortar os cabelos, pois estes por si mesmos não tecem o poema. Os fios de cabelo fazem esquecer do que propriamente um poema se faz, do que uma vida se faz. Para esse pensamento que se esquece na flor; para esse pensamento que volta o seu coração para uma corola; para esse pensamento que morde o vento, aprisionando-se a um vestido que se recusa a sentir o vento, preciso é levantar-se e cortar o excedente dessas ações.
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Libertando-se do cabelo é que o feminino encontra a fertilidade do que pode gerar o poema: o mar. Entregar ao mar esses fios é deixar o poema tecer, dizendo ao oceano: “tece-me”. Confiar no mar a atitude de ser com ele o poema revela a mulher que se liberta dos fios que a prendiam para doar ao mundo os fios que se juntam ao mar. União que a tecerá como verdadeira mulher, porque essa é a ação mais simples “para voltar ao princípio do mundo”. (Jefferson Bessa)
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quarta-feira, 8 de abril de 2009
T. S. ELIOT: UM TRECHO DE ENSAIO CRÍTICO
Se vos queixais de que um poeta é obscuro, e que aparentemente ignora o leitor, ou que fala apenas para um número limitado de iniciados de que não fazeis parte – lembrai-vos de que o que o poeta pretendia fazer talvez fosse exprimir por palavras aquilo que não poderia ser posto de nenhuma outra forma, e portanto numa linguagem que pode valer o trabalho de a aprender. Se o leitor se queixa de que certo poeta é demasiadamente retórico, e que se nos dirige como se se dirigisse a uma reunião pública, tente pôr-se à escuta daqueles momentos em que ele não fala para si, mas em que apenas consente que o ouçam. (um trecho do ensaio crítico “As três vozes da poesia” de T. S. Eliot)
sábado, 4 de abril de 2009
Frida Kahlo: Quando a autobiografia é a obra
Pintura na qual Frida Kahlo deixou
uma legenda autobiográfica.
Seus quadros deixam fortes traços autobiográficos ou “autobiopictóricos”. Penso que, se quisermos conhecer a vida de Frida Kahlo, podemos dispensar uma biografia da artista, pois seus quadros dizem a todo instante que foram feitos por ela, ou ainda, pela vida dela na obra. Kahlo avança e põe sua face não como auto-retrato como comumente fazem os pintores. Seu rosto ali diz: sou o que vivo, o que amo, o que odeio e o que sofro, e pinto a mim mesma. Mas estas sensações estão presentes não na expressão do rosto - que poderia estar triste ou alegre. A presença está nos elementos contidos nas obras, dentre alguns: Diego Rivera, os papagaios, os macacos, as posições políticas, os acidentes físicos e o seu rosto.
Nas pinturas de Frida Kahlo, expor o rosto é algo a mais: é toda a sua trajetória ali, enquanto na obra ela mesma se pinta. Narra sua vida, que é a vida de sua pintura. Não é uma obra que é vida do artista enquanto pinta coisas, mas sua obra é vida enquanto pinta a si mesma - para além de qualquer descrição realista de uma autobiografia ordinária. Expor o rosto como ela fez não se reduz a mostrar simples estados emocionais, mas ela mesma como um ser visível sem segredos. Não há em sua face nenhuma esfinge; simplesmente é sua realidade. Por isso responde, mais tarde, a André Breton quando este classificou a obra da pintora como surrealista: "pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade". (Jefferson Bessa)
Auto-retrato com macacos e papagaios. (1942)
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segunda-feira, 30 de março de 2009
À TERRA PROVISÓRIA – Bruno Tolentino

Adeus, cimos e vales e veredas,
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas de sol na luz de seda.
Adeus, troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus, colinas
que iam subindo como labaredas
de cobalto no ar... Adeus, beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza
também é feita de deixar de ser,
e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à luz do provisório amanhecer.
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas de sol na luz de seda.
Adeus, troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus, colinas
que iam subindo como labaredas
de cobalto no ar... Adeus, beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza
também é feita de deixar de ser,
e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à luz do provisório amanhecer.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Quem tu foste, Walt Whitman?

Enquanto eu lia o livro, a ilustre biografia,
Então é isto (eu disse) que o autor considera ser a vida de um homem?
E assim, alguém, quando eu estiver morto ou ausente, escreverá minha vida?
(Como se qualquer homem soubesse realmente algo sobre a minha vida,
quando até eu mesmo sempre penso saber pouco ou nada sobre minha vida real,
apenas algumas dicas, umas poucas dicas pálidas e difusas e despistes
que procuro para meu uso próprio na trilha aqui de fora.)
Então é isto (eu disse) que o autor considera ser a vida de um homem?
E assim, alguém, quando eu estiver morto ou ausente, escreverá minha vida?
(Como se qualquer homem soubesse realmente algo sobre a minha vida,
quando até eu mesmo sempre penso saber pouco ou nada sobre minha vida real,
apenas algumas dicas, umas poucas dicas pálidas e difusas e despistes
que procuro para meu uso próprio na trilha aqui de fora.)
Walt Whitman - Folhas de Relva
Quem tu foste, Walt Whitman? De que modo considerar a tua vida? Para isso não há respostas: tu mesmo pouco ou nada soubeste sobre tua vida real. Estamos fora da pretensão de que uma narração biográfica seja fiel ou real para conhecermos tua vida. Selecionar algumas miudezas de fatos restringiria e empobreceria a vivência do poeta. O retalho biográfico não dá conta da dimensão da vida, que só é vivida por quem vive.
O que se julga vida real não se conhece. Não se determina a vida de um artista por intermédio de um compêndio de fatos ou traços de personalidade. Seria falho, portanto, escrever a vida por registros biográficos, pois da vida (de si e do outro) temos somente “dicas pálidas e difusas”. Não se pode decidir quem somos por notas de definição: os fatos da vida social e individual são insuficientes para determinarmos o Homem. Impossível também definir por um conceito do que é Vida, pois qualquer conceito a reduziria; como acontece também com a definição biológica, cultural ou religiosa da Vida. Qualquer fixação sobre Ela é disparate. Ele foi isso, Eu fui isso: assim diz o pretenso que pensa ser quem é ou o que é realmente.
A construção possível poderia ser pensada da seguinte forma: Eu sou a Vida. A Vida sou Eu. Ou ainda: Whitman foi a Vida; a Vida foi Whitman – sabendo de pouca coisa. A ligação entre uma coisa e outra é como uma seta que vai e volta ao mesmo encontro; mas sempre atento para que não haja desvio para o que está além de nós. Mas, longe de ser uma definição, o que se diz aqui deixa a Vida como o que nós vivemos sem saber.
Outra: como não se escreve a vida alheia, também não se escreve sobre a própria vida. Assim nem mesmo uma autobiografia seria válida. Não se sabe realmente sobre a vida real nem de si nem do outro. O que o poeta procurou, ainda que em traços “pálidos”, foi para uso próprio. Próprio e que ninguém poderá viver ou conhecer - se ele mesmo pouco soube. Estranho é ter conhecimento de biografias sobre Whitman depois desse poema. Desrespeito maior seria ler uma delas. Ninguém sabe dos dias que pertencem somente ao poeta.
(Jefferson Bessa)
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terça-feira, 24 de março de 2009
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