domingo, 19 de abril de 2009

Instabilidade - Simônides de Ceos (c. 556 - c. 468 a.C.)


....
..............Homem mortal,
........não queiras predizer
........o que o Amanhã trará,
........nem, vendo alguém feliz,
o tempo em que há de assim continuar.
........É rápida a mudança:
tão rápido não é o voo
....da libélula de asas céleres.


*Nota: Estobeu ilustra a variabilidade da sorte humana com este excerto dos Trenos do Poeta.

Treno: é um canto lamentoso, elegia.

(trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

GESTOS - Pedro de Bois

Aos horrores concedo o entrevisto
choro da criança desacostumada
ao novo.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Dois artistas: O poeta Vladimir Maiakovski em duas fotografias de Alexander Rodchenko


Alexander Rodchenko
The poet Vladimir Mayakovsky
1924




Alexander Rodchenko

The poet Vladimir Mayakovsky

1924

segunda-feira, 13 de abril de 2009

UM POEMA DE FRANCISCO CARVALHO

Não sei o que é poesia,
onde começa ou acaba.
Não sei se é pluma de Deus
ou se invenção do Diabo.

Não sei quando essa tinta
irriga seu sonho e seu caule.
Não sei se viga do corpo
ou se pilastra da alma.

Não sei o que é poesia.
Não sei o momento exato
em que cavalgo a vertigem,
em que sucumbo ao seu rapto.

Não se é um anjo torto
ou se remansosa ideia.
Só sei quando o verso chega,
mesa pronta para a ceia.


Do livro “As Verdes Léguas”

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O cabelo e o mar: um poema de Maria Azenha

Wladyslan Slewinski (Woman Brushing her Hair, 1897)
..
para voltar ao princípio do mundo - poema de Maria Azenha

sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor
..........
sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola
para voltar ao princípio do mundo
..........
com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento
...........
era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte
...........
um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar
...........
e disse: tece-me
...........
e o mar inclinou-se para dentro
para tecer
............
o poema
..........
Para surgir um poema é necessário se despir de ações que embaçam o modo mais simples de tecer um poema-vida. Despir-se de tais ações é cortar os cabelos, pois estes por si mesmos não tecem o poema. Os fios de cabelo fazem esquecer do que propriamente um poema se faz, do que uma vida se faz. Para esse pensamento que se esquece na flor; para esse pensamento que volta o seu coração para uma corola; para esse pensamento que morde o vento, aprisionando-se a um vestido que se recusa a sentir o vento, preciso é levantar-se e cortar o excedente dessas ações.
...
Libertando-se do cabelo é que o feminino encontra a fertilidade do que pode gerar o poema: o mar. Entregar ao mar esses fios é deixar o poema tecer, dizendo ao oceano: “tece-me”. Confiar no mar a atitude de ser com ele o poema revela a mulher que se liberta dos fios que a prendiam para doar ao mundo os fios que se juntam ao mar. União que a tecerá como verdadeira mulher, porque essa é a ação mais simples “para voltar ao princípio do mundo”. (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

T. S. ELIOT: UM TRECHO DE ENSAIO CRÍTICO

Se vos queixais de que um poeta é obscuro, e que aparentemente ignora o leitor, ou que fala apenas para um número limitado de iniciados de que não fazeis parte – lembrai-vos de que o que o poeta pretendia fazer talvez fosse exprimir por palavras aquilo que não poderia ser posto de nenhuma outra forma, e portanto numa linguagem que pode valer o trabalho de a aprender. Se o leitor se queixa de que certo poeta é demasiadamente retórico, e que se nos dirige como se se dirigisse a uma reunião pública, tente pôr-se à escuta daqueles momentos em que ele não fala para si, mas em que apenas consente que o ouçam. (um trecho do ensaio crítico “As três vozes da poesia” de T. S. Eliot)

sábado, 4 de abril de 2009

Frida Kahlo: Quando a autobiografia é a obra

Auto-retrato com cabelo solto (1947)
Pintura na qual Frida Kahlo deixou
uma legenda autobiográfica.


Seus quadros deixam fortes traços autobiográficos ou “autobiopictóricos”. Penso que, se quisermos conhecer a vida de Frida Kahlo, podemos dispensar uma biografia da artista, pois seus quadros dizem a todo instante que foram feitos por ela, ou ainda, pela vida dela na obra. Kahlo avança e põe sua face não como auto-retrato como comumente fazem os pintores. Seu rosto ali diz: sou o que vivo, o que amo, o que odeio e o que sofro, e pinto a mim mesma. Mas estas sensações estão presentes não na expressão do rosto - que poderia estar triste ou alegre. A presença está nos elementos contidos nas obras, dentre alguns: Diego Rivera, os papagaios, os macacos, as posições políticas, os acidentes físicos e o seu rosto.


Nas pinturas de Frida Kahlo, expor o rosto é algo a mais: é toda a sua trajetória ali, enquanto na obra ela mesma se pinta. Narra sua vida, que é a vida de sua pintura. Não é uma obra que é vida do artista enquanto pinta coisas, mas sua obra é vida enquanto pinta a si mesma - para além de qualquer descrição realista de uma autobiografia ordinária. Expor o rosto como ela fez não se reduz a mostrar simples estados emocionais, mas ela mesma como um ser visível sem segredos. Não há em sua face nenhuma esfinge; simplesmente é sua realidade. Por isso responde, mais tarde, a André Breton quando este classificou a obra da pintora como surrealista: "pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade". (Jefferson Bessa)

Auto-retrato com macacos e papagaios. (1942)