domingo, 10 de maio de 2009

O poeta - Teixeira de Pascoaes


Ninguém contempla as coisas admirado.
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
E se olho a terra, a flor, o céu doirado,
Que infinda comoção me faz sonhar!


É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte,
Terra viva a sangrar, como um Calvário
E branco espectro, ao luar, a minha fonte!


É tudo luz e voz, tudo me fala:
Ouço lamúrias de almas no arvoredo
Quando a tarde tão lívida se cala
Porque adivinha a noite e lhe tem medo


Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada coisa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!


É bem certo que tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas na tua solidão
E crepúsculos negros de tristeza!


As coisas que me cercam, silenciosas,
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!


Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Vento à noite - um poema de Dámaso Alonso



O vento é um cão sem dono,
que lambe a noite imensa.
A noite não tem sono.
E o homem, entre sonhos, pensa.
.
E o homem sonha, dormindo,
que o vento é um cão sem dono
que uiva a seus pés estendido
para lamber-lhe o sonho
.
E ainda não chegou a hora.
.
A noite não tem sono:
alerta, sentinela!

Tradução Jefferson Bessa

domingo, 3 de maio de 2009

A Poesia Está Muito Acima de Jorge de Lima


Quero edificar o templo, o grande templo, quero
[materiais.
Quero fazer o altar para os holocaustos e os incensos.
E queimarei os perfumes inúteis nas narinas de Deus,
nos cabelos dos arcanjos, no hálito de todos os eleitos.
Quero oitenta mil braços para cavar montes e derrubar

[madeiras,
e uns trezentos mil para colher água pura.
Quero um para adivinhar onde tem ouro, onde fica

[o sol.
Buscai-me um ladrão para para roubar a lua.
Vinde escultor fazer um querubim com dez côncavos

[de asas.
segurando um cálice descomunal e uma palma

[de bronze.
E sobre os capitéis haveis de colocar um peixe-v
oador
voando para não sei.
Chamai Salomão para varrer o templo com sua

[sabedoria
e com suas mil mulheres, com suas éguas e com seu

[cajado.
E depois venha o fogo do céu queimar as oferendas.
E tudo caia com os rostos na terra,
porque a poesia está muito alta
acima de vós, mundo muito pequeno!


Do livro Tempo e Eternidade.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Op-Art : duas obras de Victor Vasarely (1906-1997)

Victor Vasarely - So-Lo
Victor Vasarely - Ond-LZ


domingo, 26 de abril de 2009

A epifania do SERMÃO DA EPIFANIA de Padre Antônio Vieira


Diz Antonio Vieira:

“Pois esta é terra nova e esses são os céus novos que Deus tinha prometido, que havia de criar, não porque não estivessem já criados desde o princípio do mundo, mas porque era este Novo Mundo, tão oculto e ignorado dentro do mesmo mundo, que quando de repente se descobriu e apareceu, foi como se então começara a ser e Deus o criara de novo”. Sermão da Epifania.
......
Como se compreende a epifania, Antonio? A epifania é sua, orador; é a Epifania que se revela a partir do que constrói ao lado de todas as criações de Deus. Não mais criador versus criatura, mas criador ao lado de um criador. Se Deus disse que novas terras e céus seriam criados, você criou epifanicamente a partir do que Deus deixou por criar. E Deus, por criar, deixou a sua leitura. Essas terras e esses céus vivem em você, no seu rosto hermeneuta, que traz ao Evangelho o seu alto voo que se segue ao lado do voo de Deus: os voos da criação. Redescobrir o que sempre fora descoberto e recriar o que já fora criado: esta é a empreitada para qual se voltaram seus olhos. Enfim, você não deixou o Evangelho falar pelo pregador, mas fez a dilatação recriadora das palavras do Evangelho! (Jefferson Bessa)

sábado, 25 de abril de 2009

Três fotografias (Nu) de Edward Weston

Nude, 1925

Torso of Neil, 1925


Nude, 1936

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A BALADA DO CONDE PROSCRITO QUE REGRESSA- GOETHE

Não há apenas um tipo de balada. Há as baladas de forma fixa e as de aspecto narrativo. As de forma fixa se distinguem por serem compostas especialmente para a dança e o canto, tendo ritmo característico e refrão vocal. Caracterizam-se da seguinte maneira as formas francesas da balada: 3 oitavas e uma quadra (às vezes uma quintilha no lugar da quadra); versos octossílabos; 3 rimas cruzadas, ou ainda, variáveis e a repetição de um mesmo conceito ou idéia ao fim de cada estrofe (paralelismo).
As baladas, sob o aspecto narrativo, são antigos poemas medievais, cujo assunto se prende à vida cavaleiresca. São narrações versificadas de lendas populares, de pequena extensão e anônimas. Modernamente, passaram a designar poemas narrativos em verso de acontecimentos fantasiosos ou lendários. Atualmente, os modernos lançam mão dessa forma com grande liberdade formal.

Abaixo A Balada do Conde proscrito que regressa do poeta alemão Wolfgang von Goethe:

“ – Vem cá, bom velho, nesta sala entraremos!
Com meu irmão aqui nos fecharemos,
E ninguém mais nos ficará ouvindo,
A mãe está a rezar, e o pai sabemos
Que anda no mato os lobos perseguindo.
Diz-nos um conto e di-lo muitas vezes,
P’ra que depois possamos repeti-lo.
Aguardamos um bardo há muitos meses,
Há muito já que ansiamos por ouvi-lo”

- “P’la noite horrível, pelo horror da guerra,
Assim que as joias e o dinheiro enterra,
O Conde abala de seus altos paços,
P’la porta falsa, que a fugir descerra.
Mas o que é que ele oculta nos seus braços;
O que esconde no manto, de fugidia?
Leva uma donzela adormecida...”
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.


“ – Como a terra é grande! Eis que alvorece:
Em toda a parte, abrigo se lhe oferece,
E nas aldeias dão-lhe de beber...
Caminhando e pedindo, em anos cresce,
Suas barbas não cessam de crescer;
E nos seus braços a menina bela,
No manto envolta, agasalhando asilo,
Cresce também, sob propícia estrela.”
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.

“ – O tempo foi correndo alvoroçado...
Já desbotava o manto esfarrapado,
Que envolver a donzela não podia.
O pai contempla-a; pai afortunado,
Que em si não cabe, doido de alegria!
Que formosura tem! Aquele ar tão nobre,
Da sua geração quebra sigilo:
Com ela torna rico o pai tão pobre!”
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.

- “Passa a cavalo um príncipe brilhante:
Ela estende a mãozinha suplicante
Que ele, sem dar a esmola requerida,
Logo aperta, clamando em voz de amante:
Esta mão será minha vida toda!
E o pai diz: Desta joia o rosto amado,
Principesco diadema há de cobri-lo,
Aqui t’a entrego neste verde prado.”
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.

Na igreja logo um padre os abençoa,
Parte a noiva feliz; só a mágoa
De abandonar seu pai, a triste ideia;
E o velho põe-se a vaguear à-toa.
Com ais pagando a f’licidade alheia.
Ah! Que desejo imenso eu não sentia
De ver a filha e os netos, e, ao senti-lo,
Abençoava-os de longe, noite e dia!
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.
E o velho bardo abençoou os netos.

Batem à porta. É o pai! Eles, inquietos,
Tentam ‘sconder o velho, desvairados.
- “ Cala, doido, esses contos indiscretos!
Prendei-os os arqueiros meus, de ferro armados!
Na enxovia metei esse atrevido!
A mãe que estava longe, ouvindo aquilo,
Corre a seu esposo faz terno pedido,
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.

O velho, com seus olhos sobranceiros,
Fica de pé. Retiram-se os arqueiros.
Ruge e aumenta do príncipe o furor:
- “D’amor malditos sonhos traiçoeiros,
Vede que frutos deu a baixa flor!
Sangue nobre diziam os antigos,
Quem o não tem não pode consegui-lo:
A mendiga gerou filhos mendigos!”
Para as crianças é um desgosto ouvi-lo.

- “Se o pai, se o esposo, agora destes paços
Vos expulsa, partindo santos laços,
A vosso avô e pai, vinde meus filhos!
Velho e pobre, arrastando os membros lassos,
Levar-vos posso a sendas d’áureos brilhos!
O meu castelo vieste tu roubá-lo,
E o pão, se o quis, bem longe fui pedi-lo!”
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.

- “ O justo velho, e aos seus afeiçoados
breve há de restituir os bens roubados!
Meus tesouros, brilhai à luz do dia
(Tal diz o velho, d’olhos abrandados)!
A minha voz o amor vos anuncia!
Calma-te filho! Vê além, acesa,
Beningna estrela sobre o azul tranquilo:
Filhos príncipes tens, duma princesa!”
Para as crianças é um gosto ouvi-lo.”

(Balada do Conde proscrito que regressa, de Goethe. – Tradução de Eugênio de Castro.)