domingo, 17 de maio de 2009
Há muito tempo vejo nos ares - Rogel Samuel
Há muito tempo vejo nos ares
um surto sons perfumes luminosidades
perto de todos e das coisas.
Há muito tempo surto. Me iludo.
Há muito tempo invoco os desconhecidos deuses.
Estarei só? Os deuses me voam no espaço.
Há muito tempo não estou só.
Refiro-me a esses deuses, que imagino. Nesta sala.
(rogel samuel, 02.05.09)
Do blog: http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/
quinta-feira, 14 de maio de 2009
A tarde sobe - Joaquim Cardozo

Ao rés-da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e [doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.
Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.
Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.
A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.
A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.
A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.
...
Do livro Interior da Matéria contido nas Obras Completas. A postagem desse poema de Joaquim Cardozo comemora o lançamento de suas Obras Completas pela Nova Aguilar.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Goethe – Aos Jovens Poetas

Abaixo um trecho de Aos Jovens Poetas de Goethe:
...
(...) Felizmente a nossa poesia encontra-se tão elevada no aspecto técnico, e o mérito de um conteúdo valoroso é tão claro à luz do dia, que vemos surgir manifestações admiravelmente satisfatórias. A situação pode ficar cada vez melhor, e ninguém sabe aonde vai parar. Apenas é preciso que cada um conheça a si mesmo, que saiba julgar a si mesmo, porque aqui não há nenhum parâmetro alheio que possa ajudar.
Digamos em poucas palavras de que isso depende. O jovem poeta deve expressar agora o que está vivo, o que está em ação, numa forma ou noutra. Ele deve eliminar com rigor todo espírito adverso, todo o antagonismo, tudo o que fala contra, e tudo que possa ser negativo: pois disso não se produz nada.
Não sou capaz de aconselhar com seriedade suficiente a meus jovens amigos que eles devem observar a si mesmos. Eles ganham sempre mais em substância poética graças a uma certa facilidade da própria vida. Ninguém pode dá-la para nós; talvez possam obscurecê-la, mas não estragá-la. Toda vaidade, ou seja, toda presunção sem fundamento, torna-se pior se for tomada como tema.
Declarar-se livre é uma grande arrogância; pois se revela ao mesmo tempo o desejo de mandar em si mesmo e quem permite isso? Aos meus amigos, os jovens poetas, digo o seguinte sobre o assunto: agora vocês ainda não têm propriamente norma, e devem dá-la a si mesmos. Perguntem-se a cada poema se ele contém uma vivência, e se tal vivência os faz progredir.
Vocês não progrediram se continuam chorando uma amada perdida pela distância, infidelidade ou morte. Nada disso tem valor, ainda mais se sacrificam assim habilidade e talento.
Uma pessoa resiste atendo-se à vida que continua, e se testa nas ocasiões propícias, pois é então que provamos estar mesmo vivos, e, numa consideração posterior, se estávamos vivos em certo momento.
Tradução de Pedro Süssekind
Digamos em poucas palavras de que isso depende. O jovem poeta deve expressar agora o que está vivo, o que está em ação, numa forma ou noutra. Ele deve eliminar com rigor todo espírito adverso, todo o antagonismo, tudo o que fala contra, e tudo que possa ser negativo: pois disso não se produz nada.
Não sou capaz de aconselhar com seriedade suficiente a meus jovens amigos que eles devem observar a si mesmos. Eles ganham sempre mais em substância poética graças a uma certa facilidade da própria vida. Ninguém pode dá-la para nós; talvez possam obscurecê-la, mas não estragá-la. Toda vaidade, ou seja, toda presunção sem fundamento, torna-se pior se for tomada como tema.
Declarar-se livre é uma grande arrogância; pois se revela ao mesmo tempo o desejo de mandar em si mesmo e quem permite isso? Aos meus amigos, os jovens poetas, digo o seguinte sobre o assunto: agora vocês ainda não têm propriamente norma, e devem dá-la a si mesmos. Perguntem-se a cada poema se ele contém uma vivência, e se tal vivência os faz progredir.
Vocês não progrediram se continuam chorando uma amada perdida pela distância, infidelidade ou morte. Nada disso tem valor, ainda mais se sacrificam assim habilidade e talento.
Uma pessoa resiste atendo-se à vida que continua, e se testa nas ocasiões propícias, pois é então que provamos estar mesmo vivos, e, numa consideração posterior, se estávamos vivos em certo momento.
Tradução de Pedro Süssekind
domingo, 10 de maio de 2009
O poeta - Teixeira de Pascoaes

Ninguém contempla as coisas admirado.
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
E se olho a terra, a flor, o céu doirado,
Que infinda comoção me faz sonhar!
É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte,
Terra viva a sangrar, como um Calvário
E branco espectro, ao luar, a minha fonte!
É tudo luz e voz, tudo me fala:
Ouço lamúrias de almas no arvoredo
Quando a tarde tão lívida se cala
Porque adivinha a noite e lhe tem medo
Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada coisa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!
É bem certo que tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas na tua solidão
E crepúsculos negros de tristeza!
As coisas que me cercam, silenciosas,
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!
Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Vento à noite - um poema de Dámaso Alonso

O vento é um cão sem dono,
que lambe a noite imensa.
A noite não tem sono.
E o homem, entre sonhos, pensa.
.
E o homem sonha, dormindo,
que o vento é um cão sem dono
que o vento é um cão sem dono
que uiva a seus pés estendido
para lamber-lhe o sonho
para lamber-lhe o sonho
.
E ainda não chegou a hora.
.
A noite não tem sono:
alerta, sentinela!
alerta, sentinela!
Tradução Jefferson Bessa
domingo, 3 de maio de 2009
A Poesia Está Muito Acima de Jorge de Lima
Quero edificar o templo, o grande templo, quero
[materiais.
Quero fazer o altar para os holocaustos e os incensos.
E queimarei os perfumes inúteis nas narinas de Deus,
nos cabelos dos arcanjos, no hálito de todos os eleitos.
Quero oitenta mil braços para cavar montes e derrubar
[madeiras,
e uns trezentos mil para colher água pura.
Quero um para adivinhar onde tem ouro, onde fica
[o sol.
Buscai-me um ladrão para para roubar a lua.
Vinde escultor fazer um querubim com dez côncavos
[de asas.
segurando um cálice descomunal e uma palma
[de bronze.
E sobre os capitéis haveis de colocar um peixe-voador
voando para não sei.
Chamai Salomão para varrer o templo com sua
[sabedoria
e com suas mil mulheres, com suas éguas e com seu
[cajado.
E depois venha o fogo do céu queimar as oferendas.
E tudo caia com os rostos na terra,
porque a poesia está muito alta
acima de vós, mundo muito pequeno!
Do livro Tempo e Eternidade.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
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