sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tao Te Ching – Lao Tsé (poema 47)


Sem sair de casa,

Conhece-se o mundo.

Sem olhar pela janela,

Vê-se o Tao do Céu.

Quanto mais longe se vai,

Menos se sabe.
..

Por isso o Sábio não precisa viajar

E, no entanto, sabe tudo.

Não precisa ver

E, no entanto, sabe tudo.

Não precisa fazer nada

Para fazer coisas.

(tradução Richard Wilhelm)

No Wikipédia há um verbete introdutório para o "sentido" de Tao: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tao

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quatro beijos: Munch, Magritte, Brancusi e Picasso

Edward Munch - Kiss (uma das variações de Kiss)

Os amantes - René Magritte

O beijo - Constantin Brancusi ( 1910)

O Beijo - Pablo Picasso (1931)

sábado, 23 de maio de 2009

"Quando exprimir é errar": Bernardo Soares / Fernando Pessoa – Livro do Desassossego (trecho 349)

A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir. Fernando Pessoa – Bernardo Soares


“Exprimir é sempre errar”. Exprimir como verdade confessional da alma é errar. Sabe-se que essa expressão da alma como verdade provém, sobretudo, de um pensamento ligado a uma tradição cristã, que interioriza a alma. Idéia essa que perpassou e ainda perpassa muitos pensamentos.
No entanto, detenho-me ao trecho de Bernardo. “Exprimir é sempre errar” – frase que dá à consciência (numa posição anterior a todo íntimo absoluto) o meio para livrar a alma dos segredos. Ou melhor, dizer os segredos sim, mas como uma mentira que sempre está antes da verdade intimista da alma, pois esta sempre que expressa indica um segredo que quem o disse nunca o teve. Se há na confissão a necessidade da alma ser exterior, isto só é possível como erro – nunca se têm segredos senão como erro.
Bernardo não destrói a alma ou a confissão ou a verdade ou a mentira. Ao contrário ele as vive, mas para além do que poderia ser uma oposição. Nele o erro não se opõe ao certo, nem a verdade à mentira. Pode-se dizer com ele: a verdade de uma confissão já é mentir ou a mentira de uma confissão já é a verdade. Assim acontece a exterioridade da expressão.
“Exprimir é sempre errar”, porque a consciência – a do artista – não elimina nada. Faz, ao contrário, da confissão um modo dizer a verdade mentindo. É a expressão confessional que aponta o erro com o qual a arte se faz criação.
Na obra de Pessoa podemos encontrar comumente esse tema. Assim é a carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro. Impressiona a presença do “exprimir é sempre errar” nessa carta. Pessoa ali não exprime o seu íntimo e muito menos confessa o íntimo da heteronímia – tal carta é um dos exercícios de criação do poeta. E muitos estudiosos se baseiam nela para compreender a verdade de quem foi Pessoa! Esquecem que exprimir é errar e que antes de sua expressão está o acerto de seu erro. Mentir, então, é arte, é estilo, é criação.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aceitação de Francisco Moura Campos




Não sei escrever olhando o papel
Só sei escrever olhando o céu.
Por isso
A maior parte dos meus versos foram escritos fora do

......................................[meu caderno de poemas.
E não sei, hoje, onde estarão.

domingo, 17 de maio de 2009

Há muito tempo vejo nos ares - Rogel Samuel


Há muito tempo vejo nos ares
um surto sons perfumes luminosidades
perto de todos e das coisas.

Há muito tempo surto. Me iludo.

Há muito tempo invoco os desconhecidos deuses.

Estarei só? Os deuses me voam no espaço.

Há muito tempo não estou só.
Refiro-me a esses deuses, que imagino. Nesta sala.

(rogel samuel, 02.05.09)

Do blog: http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A tarde sobe - Joaquim Cardozo



Ao rés-da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e [doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.
A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.
...
Do livro Interior da Matéria contido nas Obras Completas. A postagem desse poema de Joaquim Cardozo comemora o lançamento de suas Obras Completas pela Nova Aguilar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Goethe – Aos Jovens Poetas


Abaixo um trecho de Aos Jovens Poetas de Goethe:
...
(...) Felizmente a nossa poesia encontra-se tão elevada no aspecto técnico, e o mérito de um conteúdo valoroso é tão claro à luz do dia, que vemos surgir manifestações admiravelmente satisfatórias. A situação pode ficar cada vez melhor, e ninguém sabe aonde vai parar. Apenas é preciso que cada um conheça a si mesmo, que saiba julgar a si mesmo, porque aqui não há nenhum parâmetro alheio que possa ajudar.
Digamos em poucas palavras de que isso depende. O jovem poeta deve expressar agora o que está vivo, o que está em ação, numa forma ou noutra. Ele deve eliminar com rigor todo espírito adverso, todo o antagonismo, tudo o que fala contra, e tudo que possa ser negativo: pois disso não se produz nada.
Não sou capaz de aconselhar com seriedade suficiente a meus jovens amigos que eles devem observar a si mesmos. Eles ganham sempre mais em substância poética graças a uma certa facilidade da própria vida. Ninguém pode dá-la para nós; talvez possam obscurecê-la, mas não estragá-la. Toda vaidade, ou seja, toda presunção sem fundamento, torna-se pior se for tomada como tema.
Declarar-se livre é uma grande arrogância; pois se revela ao mesmo tempo o desejo de mandar em si mesmo e quem permite isso? Aos meus amigos, os jovens poetas, digo o seguinte sobre o assunto: agora vocês ainda não têm propriamente norma, e devem dá-la a si mesmos. Perguntem-se a cada poema se ele contém uma vivência, e se tal vivência os faz progredir.
Vocês não progrediram se continuam chorando uma amada perdida pela distância, infidelidade ou morte. Nada disso tem valor, ainda mais se sacrificam assim habilidade e talento.
Uma pessoa resiste atendo-se à vida que continua, e se testa nas ocasiões propícias, pois é então que provamos estar mesmo vivos, e, numa consideração posterior, se estávamos vivos em certo momento.



Tradução de Pedro Süssekind