sexta-feira, 5 de junho de 2009

Formas de abençoar- Alberto da Cunha Melo

..
Fique aqui mesmo, morra antes
de mim, mas não vá para o mundo.
Repito: não vá para o mundo,
que o mundo tem gente, meu filho.

Por mais calado que você
seja, será crucificado.
Por mais sozinho que você
seja, será crucificado.

Há uma mentira por aí
chamada infância, você tem?
Mesmo sem a ter, vai pagar
essa viagem que não fez.

Grande, muito grande é a força
desta noite que vem de longe.
Somos treva, a vida é apenas
puro lampejo do carvão.

No início, todos o perdoam,
esperando que você cresça,
esperando que você cresça
para nunca mais perdoá-lo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

De Safo - um poema de Everardo Norões

...
De Safo

em nenhum telescópio
encontro
as plêiades de safo
nem noites de verão
junto ao touro
beirando zênite
sete irmãs
em nenhum relógio
descubro hora
noite estação degredo
de transeunte carne
dentro de mim só
o som sagrado
do segredo

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ao vento de outono – Joan Vinyoli



Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de uma vez a casca
do fruto que não madura.


Tradução João Cabral de Melo Neto.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tao Te Ching – Lao Tsé (poema 47)


Sem sair de casa,

Conhece-se o mundo.

Sem olhar pela janela,

Vê-se o Tao do Céu.

Quanto mais longe se vai,

Menos se sabe.
..

Por isso o Sábio não precisa viajar

E, no entanto, sabe tudo.

Não precisa ver

E, no entanto, sabe tudo.

Não precisa fazer nada

Para fazer coisas.

(tradução Richard Wilhelm)

No Wikipédia há um verbete introdutório para o "sentido" de Tao: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tao

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quatro beijos: Munch, Magritte, Brancusi e Picasso

Edward Munch - Kiss (uma das variações de Kiss)

Os amantes - René Magritte

O beijo - Constantin Brancusi ( 1910)

O Beijo - Pablo Picasso (1931)

sábado, 23 de maio de 2009

"Quando exprimir é errar": Bernardo Soares / Fernando Pessoa – Livro do Desassossego (trecho 349)

A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir. Fernando Pessoa – Bernardo Soares


“Exprimir é sempre errar”. Exprimir como verdade confessional da alma é errar. Sabe-se que essa expressão da alma como verdade provém, sobretudo, de um pensamento ligado a uma tradição cristã, que interioriza a alma. Idéia essa que perpassou e ainda perpassa muitos pensamentos.
No entanto, detenho-me ao trecho de Bernardo. “Exprimir é sempre errar” – frase que dá à consciência (numa posição anterior a todo íntimo absoluto) o meio para livrar a alma dos segredos. Ou melhor, dizer os segredos sim, mas como uma mentira que sempre está antes da verdade intimista da alma, pois esta sempre que expressa indica um segredo que quem o disse nunca o teve. Se há na confissão a necessidade da alma ser exterior, isto só é possível como erro – nunca se têm segredos senão como erro.
Bernardo não destrói a alma ou a confissão ou a verdade ou a mentira. Ao contrário ele as vive, mas para além do que poderia ser uma oposição. Nele o erro não se opõe ao certo, nem a verdade à mentira. Pode-se dizer com ele: a verdade de uma confissão já é mentir ou a mentira de uma confissão já é a verdade. Assim acontece a exterioridade da expressão.
“Exprimir é sempre errar”, porque a consciência – a do artista – não elimina nada. Faz, ao contrário, da confissão um modo dizer a verdade mentindo. É a expressão confessional que aponta o erro com o qual a arte se faz criação.
Na obra de Pessoa podemos encontrar comumente esse tema. Assim é a carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro. Impressiona a presença do “exprimir é sempre errar” nessa carta. Pessoa ali não exprime o seu íntimo e muito menos confessa o íntimo da heteronímia – tal carta é um dos exercícios de criação do poeta. E muitos estudiosos se baseiam nela para compreender a verdade de quem foi Pessoa! Esquecem que exprimir é errar e que antes de sua expressão está o acerto de seu erro. Mentir, então, é arte, é estilo, é criação.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aceitação de Francisco Moura Campos




Não sei escrever olhando o papel
Só sei escrever olhando o céu.
Por isso
A maior parte dos meus versos foram escritos fora do

......................................[meu caderno de poemas.
E não sei, hoje, onde estarão.