sábado, 20 de junho de 2009

A meditação de Gilberto Gil


Meditação – Gilberto Gil

Dentro de si mesmo
Mesmo que lá fora
Fora de si mesmo
Mesmo que distante
E assim por diante
De si mesmo, ad infinitum


Tudo de si mesmo
Mesmo que pra nada
Nada pra si mesmo
Mesmo porque tudo
Sempre acaba sendo
O que era de se esperar

Álbum: Refazenda (1975)

Envolver-se ao infinito é deixar que tudo aconteça no desenrolar desprendido do incomensurável. Meditação que não se quer concluir na composição, porque esta apenas evoca nossa audição para compreendermos suas palavras como o silêncio da atenção perceptiva em direção ao movimento do mundo. Longe ou perto tudo está na mesma trilha da vida a partir do fluxo único e simultâneo entre o interior e o exterior.
Composição feita por “tudo de si mesmo”, que não se propõe a nada além do “nada pra si mesmo”. Tudo, então, ad infinitum, é esse fazer que não é nada e tudo destas palavras. Por isso, no mesmo momento em que a canção surge, passa.
Uma meditação que não aparta o dentro e o fora. Que vê uma continuidade sem fim entre o que há “dentro de si mesmo” ou o que há “fora de si mesmo”. Tem-se uma reunião das oposições que torna qualquer esforço um mesmo momento do que há de infinito no fazer que é o não-fazer. Meditação é um canto que sempre esteve à espera dele mesmo. A espera do que chega no próprio do seu instante. E nós calmamente o esperamos. Uma ação que é a não-ação desta composição de Gilberto Gil que se fez um canto na espera da espera que não poderia ser, pois, outra coisa senão esse texto mesmo – assim surgiu e se esvai. (Jefferson Bessa)

terça-feira, 16 de junho de 2009

O galo – Luís Amado Carballo



Abre as portas para o dia
com a chave do teu cantar
que já na fonte da Lua
está lavada a manhã.

Solta teu grito de festa
na paisagem desde o vale
que o incerto grão das estrelas
cairá tardio no mar.

O campo cheio de frio
procura um pouco de sol,
acende-lhe uma fogueira
com a luz da tua voz.



Tradução Fábio Aristimunho Vargas
Quadro O Galo: Marco Bastos

sábado, 13 de junho de 2009

Op-art: duas obras de Bridget Riley

Ao lado de Victor Vasarely, Bridget Riley é um dos grande nomes da Optical-Art. Quadros de movimentos incessantes, de figuras geométricas excessivamente repetidas que interagem e saltam aos olhos como figuras móveis. A sobreposição e a disposição de círculos, de quadrados, de linhas ou de triângulos exploram o que só é possível experimentar através dos sentidos - no caso o sentido da visão. Não me agrada dizer que esses quadros, assim como os de Vasarely, criam um efeito de ilusão de ótica. Se não há movimento no quadro, meus sentidos estariam sendo iludidos por ver esse movimento que não existe no quadro? O quadro é movimento. Penso que meus sentidos criam coisas que sem eles não poderiam existir: esse quadros de Bridget, por exemplo. Quadros que conhecem as possibilidades de nossos sentidos e criam uma sensação que só poderia ser apresentada através dos sentidos, portanto não é ilusão.
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Bridget Riley - Blaze 1 (1962)
Emulsion on Hardboard 43x43
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Bridget Riley - Arrest 1 (1965 )
Emulsion on Canvas 70x68

terça-feira, 9 de junho de 2009

Paul Cézanne: "o pintor deve dedicar‑se inteiramente ao estudo da natureza"

Auto-retrato de Cézanne

Aix, 26 de maio de 1904
Mas insisto sempre no seguinte: o pintor deve dedicar‑se inteiramente ao estudo da natureza e se esforçar para produzir quadros que sejam lições. As conversas sobre arte são quase inúteis. O trabalho que leva à realização de um progresso no nosso ofício é uma compensação suficiente por não sermos compreendidos pelos imbecis.
O literato exprime‑se com abstrações, ao passo que o pintor concreto o faz por meio do desenho e da cor, suas sensações, suas percepções. Não somos nem escrupulosos demais, nem sinceros demais, nem submissos demais à natureza; mas somos mais ou menos senhores do nosso modelo e sobretudo dos nossos meios de expressão. Penetrar o que se tem diante de si e perseverar em se exprimir o mais logicamente possível.



Paul Cézanne. Carta a Émile Bernard. Correspondência

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Formas de abençoar- Alberto da Cunha Melo

..
Fique aqui mesmo, morra antes
de mim, mas não vá para o mundo.
Repito: não vá para o mundo,
que o mundo tem gente, meu filho.

Por mais calado que você
seja, será crucificado.
Por mais sozinho que você
seja, será crucificado.

Há uma mentira por aí
chamada infância, você tem?
Mesmo sem a ter, vai pagar
essa viagem que não fez.

Grande, muito grande é a força
desta noite que vem de longe.
Somos treva, a vida é apenas
puro lampejo do carvão.

No início, todos o perdoam,
esperando que você cresça,
esperando que você cresça
para nunca mais perdoá-lo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

De Safo - um poema de Everardo Norões

...
De Safo

em nenhum telescópio
encontro
as plêiades de safo
nem noites de verão
junto ao touro
beirando zênite
sete irmãs
em nenhum relógio
descubro hora
noite estação degredo
de transeunte carne
dentro de mim só
o som sagrado
do segredo

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ao vento de outono – Joan Vinyoli



Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de uma vez a casca
do fruto que não madura.


Tradução João Cabral de Melo Neto.