terça-feira, 30 de junho de 2009

Dois poemas de Antonio Botto

Na última carta
Chamavas-me decadente;
E eu achei graça,
Fez-me rir
A tua carta
.
Quiseste insultar-me,
E afinal,
Conseguiste ser gentil.
.
Os homens- Ou os povos;
Saturados
De tudo compreenderem,
Decaem
Quando preferem
Ao gosto austero de criar,
O estéril
E fino deleite
De contemplar o que está feito.
Do livro Dandysmo

***

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

De As Canções

sábado, 27 de junho de 2009

Sair - Antonio Cicero


SAIR


Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.


De A cidade e os livros.


Largar e largar. Largar tudo: os conceitos, os espaços, os valores que podem nos acobertar, nos esconder do mundo. Deixar, então, para trás todo o peso da alma, do espírito. Mas para isso se tem à frente uma porta. A porta: matéria pela qual nos abrimos ou fechamos – abrir a porta e sair tem o gesto de deixar o mundo nos trazer o que nele há de gratuito. Sair pela porta é viver calmamente tanto a dor quanto a beleza de tudo o que nos rodeia.
Mas a chave que se usa para abrir tal porta não revelará nenhum segredo que poderíamos pensar ter lá fora, porque além da porta existe o mistério da gratuidade do mundo. Por isso nada será esclarecido quando pela porta sair. Não é como a porta do céu divino que se abrirá para conhecermos Deus e toda a Sua criação. O Divino aqui, nesse sentido, “não existe nem faz falta”.
Em meio à noite, podemos olhar – “sobre todas as coisas” existem coisas que não dizem nada, porque no seu silêncio eterno elas não se explicam. Olha o poeta sabendo simplesmente que a luz voltará na próxima aurora e que tudo vive o silêncio do mistério que não se explica. Esta é a porta já aberta do poema que larga os interiores para largar o exterior no que este é. (Jefferson Bessa)

terça-feira, 23 de junho de 2009

fragmentos (20) de Diamante D'água: um poema-diamante



escrevi milhares de folhas numeradas
com significações de luz

dei-lhes o nome de diamantes



..
Assumir a significação é tarefa lúcida como é a do texto de Diamante D’água. Luz semeada na escrita das folhas como a luz da significação que dá a forma exata e única ao poema. Esse é o brilho com que um poeta aperfeiçoa o objeto de seu ofício. Fragmentos inesperados e encontrados na terra pelo poeta, dando início à lapidação da escritura. Incessantes fragmentos os quais, a cada vez que atinge o poeta, se tornam imprescindíveis aos versos que inevitavelmente surgirão .
A iluminação das palavras é transpor às páginas o sentido próprio de uma poética: nomear suas páginas. Trabalho que necessita do esmero de doar preciosidade num fazer repleto da luz que elabora o polimento das palavras e dos versos na beleza própria de um poema-diamante. (Jefferson Bessa)
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Poema retirado do blog "fragmentos do deserto" de Diamante D'água: http://cartasdodeserto.blogspot.com/

sábado, 20 de junho de 2009

A meditação de Gilberto Gil


Meditação – Gilberto Gil

Dentro de si mesmo
Mesmo que lá fora
Fora de si mesmo
Mesmo que distante
E assim por diante
De si mesmo, ad infinitum


Tudo de si mesmo
Mesmo que pra nada
Nada pra si mesmo
Mesmo porque tudo
Sempre acaba sendo
O que era de se esperar

Álbum: Refazenda (1975)

Envolver-se ao infinito é deixar que tudo aconteça no desenrolar desprendido do incomensurável. Meditação que não se quer concluir na composição, porque esta apenas evoca nossa audição para compreendermos suas palavras como o silêncio da atenção perceptiva em direção ao movimento do mundo. Longe ou perto tudo está na mesma trilha da vida a partir do fluxo único e simultâneo entre o interior e o exterior.
Composição feita por “tudo de si mesmo”, que não se propõe a nada além do “nada pra si mesmo”. Tudo, então, ad infinitum, é esse fazer que não é nada e tudo destas palavras. Por isso, no mesmo momento em que a canção surge, passa.
Uma meditação que não aparta o dentro e o fora. Que vê uma continuidade sem fim entre o que há “dentro de si mesmo” ou o que há “fora de si mesmo”. Tem-se uma reunião das oposições que torna qualquer esforço um mesmo momento do que há de infinito no fazer que é o não-fazer. Meditação é um canto que sempre esteve à espera dele mesmo. A espera do que chega no próprio do seu instante. E nós calmamente o esperamos. Uma ação que é a não-ação desta composição de Gilberto Gil que se fez um canto na espera da espera que não poderia ser, pois, outra coisa senão esse texto mesmo – assim surgiu e se esvai. (Jefferson Bessa)

terça-feira, 16 de junho de 2009

O galo – Luís Amado Carballo



Abre as portas para o dia
com a chave do teu cantar
que já na fonte da Lua
está lavada a manhã.

Solta teu grito de festa
na paisagem desde o vale
que o incerto grão das estrelas
cairá tardio no mar.

O campo cheio de frio
procura um pouco de sol,
acende-lhe uma fogueira
com a luz da tua voz.



Tradução Fábio Aristimunho Vargas
Quadro O Galo: Marco Bastos

sábado, 13 de junho de 2009

Op-art: duas obras de Bridget Riley

Ao lado de Victor Vasarely, Bridget Riley é um dos grande nomes da Optical-Art. Quadros de movimentos incessantes, de figuras geométricas excessivamente repetidas que interagem e saltam aos olhos como figuras móveis. A sobreposição e a disposição de círculos, de quadrados, de linhas ou de triângulos exploram o que só é possível experimentar através dos sentidos - no caso o sentido da visão. Não me agrada dizer que esses quadros, assim como os de Vasarely, criam um efeito de ilusão de ótica. Se não há movimento no quadro, meus sentidos estariam sendo iludidos por ver esse movimento que não existe no quadro? O quadro é movimento. Penso que meus sentidos criam coisas que sem eles não poderiam existir: esse quadros de Bridget, por exemplo. Quadros que conhecem as possibilidades de nossos sentidos e criam uma sensação que só poderia ser apresentada através dos sentidos, portanto não é ilusão.
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Bridget Riley - Blaze 1 (1962)
Emulsion on Hardboard 43x43
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Bridget Riley - Arrest 1 (1965 )
Emulsion on Canvas 70x68

terça-feira, 9 de junho de 2009

Paul Cézanne: "o pintor deve dedicar‑se inteiramente ao estudo da natureza"

Auto-retrato de Cézanne

Aix, 26 de maio de 1904
Mas insisto sempre no seguinte: o pintor deve dedicar‑se inteiramente ao estudo da natureza e se esforçar para produzir quadros que sejam lições. As conversas sobre arte são quase inúteis. O trabalho que leva à realização de um progresso no nosso ofício é uma compensação suficiente por não sermos compreendidos pelos imbecis.
O literato exprime‑se com abstrações, ao passo que o pintor concreto o faz por meio do desenho e da cor, suas sensações, suas percepções. Não somos nem escrupulosos demais, nem sinceros demais, nem submissos demais à natureza; mas somos mais ou menos senhores do nosso modelo e sobretudo dos nossos meios de expressão. Penetrar o que se tem diante de si e perseverar em se exprimir o mais logicamente possível.



Paul Cézanne. Carta a Émile Bernard. Correspondência