sábado, 11 de julho de 2009

A interrogação em Mar de Rogel Samuel


Mar



onde está, onde
onde está no horizonte
onde está o destino
por onde se vai nesta barca
por onde navegar assim
neste mar de incertezas
neste caminho sem pista
se por que vagueamos em claros
na grande muralha de atalhos
perdidos labirintos
pássaros de bicos frios
flores de asas mortas
e em embrulhadas falas
mulheres e homens nas tramas
de suas rotas?


Poema retirado do blog de Rogel Samuel

O texto por inteiro é uma interrogação. Esta, então, por si só já traz a aventura do poema de Rogel Samuel. Mas qual será a resposta? Para o poema não há resposta, já que a pergunta tem a força de ser ela mesma. O mar traz - mais do que a incerteza – o movimento dos difíceis atalhos nos quais vamos embrulhando nossas falas, nossos versos. Vamos tramando alguns passos que encontram pelo meio do caminho objetos aparentemente mortos. Mas poderíamos insistir na interrogação do poema que é a sua vida seguindo a busca sem encontrar a resposta. Por meio disso não se define nada, pois o que há de mais forte é saber que o poema impele a vida tateando, navegando por rotas que sempre terão em si a interrogação. (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A escrita contínua de Clarice Lispector em Água Viva



O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto, canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? minha experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que projeta sombra. E é trombeta que anuncia. O halo é o it.

Do livro Água Viva.


É um trecho do livro Água Viva. O livro do início (que não tem) ao fim (que não tem) é essa continuidade da escrita.
Mas o livro não começa, não há fim?
Não, não há nem começo nem fim.
Assim, Clarice "continua" a última frase (que não será a última) do livro com uma frase que dará continuidade eterna ao livro: "O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. (...) O que te escrevo continua e estou enfeitiçada".
Estar "enfeitiçada" é deixar a corrente da vida ser esse fluxo interminável da escrita. O que transcende as frases é sentir a continuidade desse movimento circular e luminoso de um "isto" que não para nunca - o halo das coisas. É uma correnteza viva que não se denomina, mas que flui em instantes vertiginosos pela linha circular que envolve a escrita indecifrável. O halo que se capta é o "it": algo que se eleva da escritura - algo que exala da palavra - o que não se conhece por inteiro. É "isto" que está sobre, que transcende, que está ao redor das coisas. Mas não é o pensamento do sobrevoo da ciência que, segundo Merleau-Ponty, pretende alcançar o objeto de maneira geral, de modo que, como algo prévio, se descubra todos os lados do objeto. Diferentemente, esse halo de Clarice está acima como o que não se pode conhecer por completo, porque o mais valioso está suspenso - ao redor das coisas. Junto ao '"isto" está a continuação perene da escrita que não esclarece ao que se refere. A pintura doa tal experiência - ela diz. A escrita exala sua luminosidade, pois tem ao seu redor esse halo, esse isto - pronome demonstrativo que somente nos indica, nos aponta, mas não nos diz por completo o que a coisa é. (Jefferson Bessa)

domingo, 5 de julho de 2009

Ezra Pound – um trecho de Abc da Literatura


Se alguém quiser saber alguma coisa sobre poesia, deverá fazer uma das duas coisas ou ambas. I. É, OLHAR para ela ou escutá-la. E, quem sabe, até mesmo pensar sobre ela.
E se precisar de conselhos, deve dirigir-se a alguém que ENTENDA alguma coisa a respeito dela.
Se vocês quisessem saber alguma coisa sobre automóveis, iriam procurar alguém que tivesse construído e guiado um carro, ou alguém que apenas ouviu falar de automóveis? E, entre dois homens que construíram automóveis, vocês procurariam o que fez um bom carro ou o que fez um calhambeque.
Vocês iriam ver o carro ou se contentariam com a sua descrição?
No caso da poesia, há ou parece haver uma porção de coisas a olhar. E parece haver muito poucas descrições autênticas que tenham utilidade.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Pulso de Arnaldo Antunes

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa...

Peste bubônica
Câncer, pneumonia
Raiva, rubéola
Tuberculose e anemia
Rancor, cisticircose
Caxumba, difteria
Encefalite, faringite
Gripe e leucemia...

E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa

Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo
Esquizofrenia
Úlcera, trombose
Coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes
Asma, cleptomania...

E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim...

Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Câimba, lepra, afasia...

O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Assim...

Para quem quiser assistir ao vídeo:


terça-feira, 30 de junho de 2009

Dois poemas de Antonio Botto

Na última carta
Chamavas-me decadente;
E eu achei graça,
Fez-me rir
A tua carta
.
Quiseste insultar-me,
E afinal,
Conseguiste ser gentil.
.
Os homens- Ou os povos;
Saturados
De tudo compreenderem,
Decaem
Quando preferem
Ao gosto austero de criar,
O estéril
E fino deleite
De contemplar o que está feito.
Do livro Dandysmo

***

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

De As Canções

sábado, 27 de junho de 2009

Sair - Antonio Cicero


SAIR


Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.


De A cidade e os livros.


Largar e largar. Largar tudo: os conceitos, os espaços, os valores que podem nos acobertar, nos esconder do mundo. Deixar, então, para trás todo o peso da alma, do espírito. Mas para isso se tem à frente uma porta. A porta: matéria pela qual nos abrimos ou fechamos – abrir a porta e sair tem o gesto de deixar o mundo nos trazer o que nele há de gratuito. Sair pela porta é viver calmamente tanto a dor quanto a beleza de tudo o que nos rodeia.
Mas a chave que se usa para abrir tal porta não revelará nenhum segredo que poderíamos pensar ter lá fora, porque além da porta existe o mistério da gratuidade do mundo. Por isso nada será esclarecido quando pela porta sair. Não é como a porta do céu divino que se abrirá para conhecermos Deus e toda a Sua criação. O Divino aqui, nesse sentido, “não existe nem faz falta”.
Em meio à noite, podemos olhar – “sobre todas as coisas” existem coisas que não dizem nada, porque no seu silêncio eterno elas não se explicam. Olha o poeta sabendo simplesmente que a luz voltará na próxima aurora e que tudo vive o silêncio do mistério que não se explica. Esta é a porta já aberta do poema que larga os interiores para largar o exterior no que este é. (Jefferson Bessa)

terça-feira, 23 de junho de 2009

fragmentos (20) de Diamante D'água: um poema-diamante



escrevi milhares de folhas numeradas
com significações de luz

dei-lhes o nome de diamantes



..
Assumir a significação é tarefa lúcida como é a do texto de Diamante D’água. Luz semeada na escrita das folhas como a luz da significação que dá a forma exata e única ao poema. Esse é o brilho com que um poeta aperfeiçoa o objeto de seu ofício. Fragmentos inesperados e encontrados na terra pelo poeta, dando início à lapidação da escritura. Incessantes fragmentos os quais, a cada vez que atinge o poeta, se tornam imprescindíveis aos versos que inevitavelmente surgirão .
A iluminação das palavras é transpor às páginas o sentido próprio de uma poética: nomear suas páginas. Trabalho que necessita do esmero de doar preciosidade num fazer repleto da luz que elabora o polimento das palavras e dos versos na beleza própria de um poema-diamante. (Jefferson Bessa)
..
Poema retirado do blog "fragmentos do deserto" de Diamante D'água: http://cartasdodeserto.blogspot.com/