quarta-feira, 22 de julho de 2009

Escrúpulo: um poema do argentino Oliverio Girondo



Me parece que vivo
que estou entre os ruídos
que vejo estas paredes
que são minhas as mãos,
mas talvez eu me engane
e paredes e mãos
só são recordações
de uma vida passada.

Disse só “me parece”
Eu não garanto nada.
*tradução Jefferson Bessa

domingo, 19 de julho de 2009

5 poemas concretistas adaptados ao audiovisual: José Lino Grunewald, Ronald de Azeredo, Augusto de Campos, E. M. de Melo e Castro, Décio Pignatari.

Cinco poemas concretistas adaptados para o audiovisual. Direção: Christian Caselli. Na sequência do filme, os poemas são os seguintes:

1. Cinco de José Lino Grunewald, 1964.
2. Velocidade de Ronald Azeredo, 1957.
3. Cidade de Augusto de Campos, 1963.
4. Pêndulo de E.M. de Melo e Castro, 1961/62
5. O Organismo de Décio Pignatari, 1960.

Veja aqui:

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"Se não fossem as algas, que saberíamos da alegria?" um poema de Maria Azenha



faz tempo as algas tinham braços
e reflectiam as asas da água em flores marinhas
inebriadas em redor pelo fósforo dos peixes
que direccionavam faróis para as gemas das ilhas,
faz tempo cruzavam a eternidade
a poesia e a língua dos corais em ritmo e harmonia
e vinham dar à praia na cinza prateada da areia
fundeadas por âncoras e cílios de auroras

faz tempo os amantes vinham partindo e chegando
em rosas da tarde em dulcíssimos navios na nave do dia
e recolhiam a luz do silêncio imortal entre esta e a outra vida.

faz tempo os humanos percorriam as pálpebras do céu
entre folhas de sol e abrigos de mel
e eram estrelas
e ampliavam uma nova língua,

se não fossem as algas, que saberíamos da alegria?

maria azenha 2009-06-23
* Retirado do blog Bosque Azul de Maria Azenha

terça-feira, 14 de julho de 2009

Um poema de Mário de Andrade


O bonde abre a viagem.
No banco ninguém,
Estou só, 'stou sem.

Depois sobe um homem,
No banco sentou,
Companheiro vou.

O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.

(De Lira Paulistana)

sábado, 11 de julho de 2009

A interrogação em Mar de Rogel Samuel


Mar



onde está, onde
onde está no horizonte
onde está o destino
por onde se vai nesta barca
por onde navegar assim
neste mar de incertezas
neste caminho sem pista
se por que vagueamos em claros
na grande muralha de atalhos
perdidos labirintos
pássaros de bicos frios
flores de asas mortas
e em embrulhadas falas
mulheres e homens nas tramas
de suas rotas?


Poema retirado do blog de Rogel Samuel

O texto por inteiro é uma interrogação. Esta, então, por si só já traz a aventura do poema de Rogel Samuel. Mas qual será a resposta? Para o poema não há resposta, já que a pergunta tem a força de ser ela mesma. O mar traz - mais do que a incerteza – o movimento dos difíceis atalhos nos quais vamos embrulhando nossas falas, nossos versos. Vamos tramando alguns passos que encontram pelo meio do caminho objetos aparentemente mortos. Mas poderíamos insistir na interrogação do poema que é a sua vida seguindo a busca sem encontrar a resposta. Por meio disso não se define nada, pois o que há de mais forte é saber que o poema impele a vida tateando, navegando por rotas que sempre terão em si a interrogação. (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A escrita contínua de Clarice Lispector em Água Viva



O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto, canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? minha experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que projeta sombra. E é trombeta que anuncia. O halo é o it.

Do livro Água Viva.


É um trecho do livro Água Viva. O livro do início (que não tem) ao fim (que não tem) é essa continuidade da escrita.
Mas o livro não começa, não há fim?
Não, não há nem começo nem fim.
Assim, Clarice "continua" a última frase (que não será a última) do livro com uma frase que dará continuidade eterna ao livro: "O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. (...) O que te escrevo continua e estou enfeitiçada".
Estar "enfeitiçada" é deixar a corrente da vida ser esse fluxo interminável da escrita. O que transcende as frases é sentir a continuidade desse movimento circular e luminoso de um "isto" que não para nunca - o halo das coisas. É uma correnteza viva que não se denomina, mas que flui em instantes vertiginosos pela linha circular que envolve a escrita indecifrável. O halo que se capta é o "it": algo que se eleva da escritura - algo que exala da palavra - o que não se conhece por inteiro. É "isto" que está sobre, que transcende, que está ao redor das coisas. Mas não é o pensamento do sobrevoo da ciência que, segundo Merleau-Ponty, pretende alcançar o objeto de maneira geral, de modo que, como algo prévio, se descubra todos os lados do objeto. Diferentemente, esse halo de Clarice está acima como o que não se pode conhecer por completo, porque o mais valioso está suspenso - ao redor das coisas. Junto ao '"isto" está a continuação perene da escrita que não esclarece ao que se refere. A pintura doa tal experiência - ela diz. A escrita exala sua luminosidade, pois tem ao seu redor esse halo, esse isto - pronome demonstrativo que somente nos indica, nos aponta, mas não nos diz por completo o que a coisa é. (Jefferson Bessa)

domingo, 5 de julho de 2009

Ezra Pound – um trecho de Abc da Literatura


Se alguém quiser saber alguma coisa sobre poesia, deverá fazer uma das duas coisas ou ambas. I. É, OLHAR para ela ou escutá-la. E, quem sabe, até mesmo pensar sobre ela.
E se precisar de conselhos, deve dirigir-se a alguém que ENTENDA alguma coisa a respeito dela.
Se vocês quisessem saber alguma coisa sobre automóveis, iriam procurar alguém que tivesse construído e guiado um carro, ou alguém que apenas ouviu falar de automóveis? E, entre dois homens que construíram automóveis, vocês procurariam o que fez um bom carro ou o que fez um calhambeque.
Vocês iriam ver o carro ou se contentariam com a sua descrição?
No caso da poesia, há ou parece haver uma porção de coisas a olhar. E parece haver muito poucas descrições autênticas que tenham utilidade.