sexta-feira, 31 de julho de 2009

Dois poemas de Emily Dickinson


Deus é de fato um Deus ciumento
Não suporta notar
Que entre nós dois e não com Ele
Preferimos brincar.


***
É um Médico o Céu?
Dizem que traz a cura -
mas nunca a Medicina
Pode ser póstuma -
É um Fiscal o Céu?
Falam do que devemos -
Mas eu nesses negócios
não sou Partícipe -

tradução José Lira

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Opaco: um poema de Carlos Drummond de Andrade


Noite. Certo
muitos são os astros.
Mas o edifício
barra-me a vista.

Quis interpretá-lo.
Valeu? Hoje
barra-me (há luar) a vista.

Nada escrito no céu,
sei.
Mas queria vê-lo.
O edifício barra-me
a vista.

Zumbido
de besouro. Motor
arfando. O edifício barra-me
a vista.

Assim ao luar é mais humilde.
Por ele é que sei do luar.
Não, não me barra
A vista. A vista se barra
a si mesma.


Do livro Claro Enigma

sábado, 25 de julho de 2009

Éden de Hélio Oiticica: ser “dentro” da obra

Foto retirada da instalação Éden. Fonte: desconhecida
Exposta no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica
na rua Luís de Camões, 68, Rio de Janeiro - RJ
*
Penetrar na obra revela o sentido literal do convite que nos faz re-descobrir as sensações do corpo. Mas para isso é preciso tirar os sapatos - tirá-los literalmente. É, sobretudo, pelos pés que vamos sentir a obra de Hélio. Por isso, nada de contemplação nem de apenas olhar a obra à distância. É preciso o corpo por inteiro. Éden (um dos Penetráveis) de Hélio Oiticica proporciona ao espectador as sensações mais elementares entre o humano e a terra, explorando todos os sentidos.
Corpo móvel que faz a obra ser obra através desse passeio penetrável que nos abre a muitas sensações. É com a obra Éden que entramos ao paraíso que perdemos. Mas precisamos penetrar novamente no paraíso e resgatar essas sensações: um éden onde possamos compreender o corpo. Em pleno movimento vamos penetrando nas coisas pela via do corpo que sente até nos perdermos nas sensações e nos espaços labirínticos de muitos espaços penetráveis aos quais somos convidados.
Pelos pés é que se pode sentir o mundo em sua aspereza, maciez, dureza – das dores ao prazer. Aos pés da terra estamos quando nela penetramos descalços. Desamarrando os cadarços, retirando os sapatos, as meias - ruindo o Éden que nos encobriu de sentir as sensações que vem das coisas da terra: das pedras, da palha, da água, da areia, das cores, das formas...Entrar sentir sair...


Entrar sentir sair
Ao Sol do Éden Oiticica
Abrir os pés
Ao chão do corpo

Ao Éden aberto
Ao caminho simples
Dos dedos que desquer
Velhos sapatos

Ruindo homens
Longinquamente
Em cadarços apertados
Gastos de sola

Descalços no chão
Ao mundo desnudado
Ao solo das faces
Nos pés que somos
(Jefferson Bessa)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Escrúpulo: um poema do argentino Oliverio Girondo



Me parece que vivo
que estou entre os ruídos
que vejo estas paredes
que são minhas as mãos,
mas talvez eu me engane
e paredes e mãos
só são recordações
de uma vida passada.

Disse só “me parece”
Eu não garanto nada.
*tradução Jefferson Bessa

domingo, 19 de julho de 2009

5 poemas concretistas adaptados ao audiovisual: José Lino Grunewald, Ronald de Azeredo, Augusto de Campos, E. M. de Melo e Castro, Décio Pignatari.

Cinco poemas concretistas adaptados para o audiovisual. Direção: Christian Caselli. Na sequência do filme, os poemas são os seguintes:

1. Cinco de José Lino Grunewald, 1964.
2. Velocidade de Ronald Azeredo, 1957.
3. Cidade de Augusto de Campos, 1963.
4. Pêndulo de E.M. de Melo e Castro, 1961/62
5. O Organismo de Décio Pignatari, 1960.

Veja aqui:

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"Se não fossem as algas, que saberíamos da alegria?" um poema de Maria Azenha



faz tempo as algas tinham braços
e reflectiam as asas da água em flores marinhas
inebriadas em redor pelo fósforo dos peixes
que direccionavam faróis para as gemas das ilhas,
faz tempo cruzavam a eternidade
a poesia e a língua dos corais em ritmo e harmonia
e vinham dar à praia na cinza prateada da areia
fundeadas por âncoras e cílios de auroras

faz tempo os amantes vinham partindo e chegando
em rosas da tarde em dulcíssimos navios na nave do dia
e recolhiam a luz do silêncio imortal entre esta e a outra vida.

faz tempo os humanos percorriam as pálpebras do céu
entre folhas de sol e abrigos de mel
e eram estrelas
e ampliavam uma nova língua,

se não fossem as algas, que saberíamos da alegria?

maria azenha 2009-06-23
* Retirado do blog Bosque Azul de Maria Azenha

terça-feira, 14 de julho de 2009

Um poema de Mário de Andrade


O bonde abre a viagem.
No banco ninguém,
Estou só, 'stou sem.

Depois sobe um homem,
No banco sentou,
Companheiro vou.

O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.

(De Lira Paulistana)