terça-feira, 18 de agosto de 2009

Um poema de Camilo Pessanha

Um poema de Camilo Pessanha

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
-O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,-
Estranha sombra em movimentos vãos.

sábado, 15 de agosto de 2009

Poemas e Fragmentos de Safo de Lesbos



Agora estes versos vou cantar, lindamente,
Para encantar as amigas

***

a Lua já se pôs, as Plêiades também; é meia-
noite; a hora passa e eu,
deitada estou, sozinha

***

as estrelas, em torno da Lua formosa,
escondem de novo seu rosto brilhante
quando em plenitude ela volta a luzir

[prateada]

[sobre a terra inteira]


tradução: Joaquim Brasil Fontes

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Na sombra: um poema de Dámaso Alonso



Sim: tu me procuras.

Às vezes à noite te sinto ao meu lado
quando me vigias
quando me queres apalpar,
e minha alma se agita junto ao terror e ao sonho,
como um couro de cabrito, preso a uma estaca,
que sentisse a onda sigilosa do tigre
e o inútil golpe que não ardeu a carne,
e que se extinguiu no ar escuro.

Sim: tu me procuras.

Tu me observas, escuto teu ofegar ardente,
teu movimento de besta que se fere por entre os galhos,
sinto na sombra
teu imenso corpo branco, sem olhos, que retorna
igual a um iceberg que sem rumor se transforma em
água salobra.

Sim: tu me procuras
Torpemente, furiosamente cheio de amor me procuras.

Não me digas que não. Não, não me digas
que sou náufrago solitário
como esses que de repente veem a escuridão
aberta pela brasa de luz de um grande navio,
e o coração triunfa de gozo e de esperança.

Mas com grande fôlego
passa, roça devagar e se afasta na noite
indiferente e surdo.

Diz-me, diz que me procuras.
Tenho medo de ser náufrago solitário
medo de que me ignores
como ao náufrago ignoram os ventos que o batem,
as nebulosas derradeiras, que, sem ver, o contemplam.

Tradução: Jefferson Bessa

domingo, 9 de agosto de 2009

Três vezes o Mal Secreto : Raimundo Correia, Waly Salomão e Jards Macalé, Gal Costa

Podemos encontrar um diálogo fecundo entre os clássicos versos de Raimundo Correia e os versos de Waly Salomão. Para além de qualquer surpresa ou espanto, temos aqui o encontro entre um poeta parnasiano e um poeta e um músico/compositor conhecidos como "marginais". A leitura que cria é a mesma que faz o poeta criar a si mesmo. Esse poema foi cantado por Gal Costa no álbum -FA-TAL - de 1971.

MAL SECRETO(Raimundo Correia)

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!,

MAL SECRETO
(Waly Salomão; música: Jards Macalé)

Não choro
Meu segredo é que sou rapaz esforçado
Fico parado, calado, quieto
Não corro, não choro, não converso
Massacro meu medo
Mascaro minha dor
Já sei sofrer
Não preciso de gente que me oriente
Se você me pergunta “como vai”?
Respondo sempre igual “tudo legal”
Mas quando você vai embora
Movo meu rosto do espelho
Minha alma chora
Vejo o Rio de Janeiro
Comovo, não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho
Não fico parado, não fico calado, não fico quieto
Corro, choro, converso
E tudo mais jogo num verso
Intitulado Mal Secreto

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Quatro fotografias de Sebastião Salgado

Anete - Filha de sem-terra
Sergipe, anos 90
San Juan, Chimborazo
Equador, 1979


Angola -abr./1975
durante a segunda guerra pela libertação de Angola


Gourma-Rharous
Mali, 1985


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Janeiro: um poema de Ruy Espinheira Filho

.
Janeiro descia com as chuvas e inventava besouros
e borboletas e pássaros e girinos e
caminhávamos descalços no barro
e lá estavam as lavadeiras com suas coxas
..................................morenas e fortes como a água
e que todas as noites me assombravam
calidamente.

...
Janeiro soprava um vento de primeiro instante de tudo
E o que respirávamos se chamava manhã
.......................................................................e foi
o que eu quis te ofertar porque eras tão bela.

.
Mas isso aconteceu depois. Depois
como agora.
.................................E é para sempre
para nunca mais
.................................este exílio.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O império das luzes ( L'Empire des Lumières ): um quadro de René Magritte

L'Empire des Lumières, de René Magritte (1954)

Do cruzamento da luz noturna à claridade do céu diurno. Simultaneidade que harmoniza o que se tornou para muitos uma oposição. Observo que nem há um crepúsculo, mas o dia e a noite concomitantemente brilhando com suas luzes particulares. A árvore que se eleva à imagem da casa deixa clara a penetração desse império das luzes: da penetração entre a luz da noite e do dia.