domingo, 27 de setembro de 2009

Rilke – um trecho das "Cartas a um jovem poeta"


Por isso, que fique registrado aqui, desde logo, um pedido meu: leia o mínimo possível textos críticos e estéticos – ou são considerações parciais, petrificadas, que se tornaram destituídas de sentido em sua rigidez sem vida, ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a contrária. Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cantos dos Imigrantes - Alberto da Cunha Melo

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

sábado, 19 de setembro de 2009

As musas num trecho de Teogonia de Hesíodo

pintura de Baldassare Peruzzi
(...)
Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.
Se com angústia no ânimo recém-ferido
alguém aflito mirra o coração e se o cantor
servo das musas hineia a glória dos antigos
e os venturosos Deuses que têm o Olimpo,
logo esquece os pesares e de nenhuma aflição
se lembra, já os desviaram os dons das Deusas.
Alegrai, filhas de Zeus, dai ardente canto,
gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,
os que nasceram da Terra e do Céu constelado,
os da Noite trevosa, os que o salgado Mar criou.
Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,
os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,
os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.
Os deles nascidos deuses doadores de bens
como dividiram a opulência e repartiram as honras,
e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.
Dizei-me isto, ó Musas que tendes o palácio olímpio,
dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.
Tradução: J.A.A.Torrano

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Duas fotografias de Alvin Langdon Coburn

Alvin Langdon Coburn
The Bridge at Ipswichc.
1904
(photogravure)
Alvin Langdon Coburn
Broadway at Night
1909

domingo, 13 de setembro de 2009

Um trecho de Temor e Tremor de Kierkegaard


Era uma vez um homem que tinha ouvido tudo, na sua infância, a formosa história de Abraão que, posto à prova por Deus, vencida a tentação sem perder a fé, recebia, contra toda a expectativa, o seu filho pela segunda vez. Na maturidade, releu a narrativa e desta vez com acrescida admiração, porque a vida havia separado aquilo que a infância, com piedosa simplicidade, unira. À medida que ia envelhecendo, o pensamento retomava mais por miúdo a história e com redobrada paixão; todavia, compreendia-a cada vez menos. Acabou por esquecer tudo o mais fixando na alma um só desejo: ver Abraão; e um só pesar, o não ter sido testemunha do acontecimento. Não aspirava contemplar os belos países do Oriente, nem as maravilhas da Terra prometida, nem o piedoso par cuja velhice fora banida por Deus, nem a figura venerável do patriarca farto de dias, nem a exuberante juventude de Isaac, oferecido, como um presente, pelo Eterno: o mesmo pudera suceder em qualquer estéril páramo; não via aí qualquer objecção. Quisera ter participado na viagem dos três dias, quando Abraão, montado no seu burro, seguia com a tristeza em frente e Isaac ao lado. Quisera estar presente no instante em que Abraão, ao erguer os olhos, viu ao longe a montanha de Morija, no instante em que despediu os burros e trepou a encosta, sozinho com o filho - porque estava preocupado não por engenhosos artifícios da imaginação, mas pelos temores do pensamento.


Kierkegaard. Temor e Tremor. Tradução Maria José Marinho

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Poemas e Fragmentos de Safo de Lesbos

eu tenho uma linda menina; com douradas flores
ela se parece; minha Kleís, meu bem-querer –
nem pelo reino da Lídia inteiro, nem pela adorada
[Lesbos] eu a trocaria

***

não penso que haverá jamais, em tempo algum,
sob a luz do sol, moça que a ti se compare,
no brilho da poesia

***

adormecendo
no seio de uma eterna amiga

***

tu me lançaste no esquecimento
[ ]
ou existe outro homem
que a mim tu preferes?


tradução: Joaquim Brasil Fontes

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Poesia Pura: um poema de José Carlos Capinam



Se esta é a busca da noite enquanto noite,
A busca intensa que nada perturba,
Nego a sensibilidade, pois ela acrescenta.
Nego a compreensão, pois ela já tem noções
E pode perturbar a flor pelo conhecer do homem.
Hoje não relaciono, não comprometo.
Quero a coisa em seu íntimo mais grave
Quero a coisa, essencialmente a coisa,
A coisa metafísica, para provar a impossibilidade.