sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Quatro momentos do DHAMMAPADA

26: O insensato se entrega à negligência
o sábio
aprecia a atenção
como sua riqueza.


71 *: Uma ação má, quando terminada,
não se faz doce como o leite coagulado
Segue o bobo,
queimando sem chama
como um fogo
escondido em cinzas.


80: Os aguadeiros guiam a água.
Flecheiros amoldam a ponta da seta.
Carpinteiros amoldam a madeira.
O sábio controla a si-próprio.

81: Como uma laje de pedra
não se move ao vento,
assim o sábio não é movido
pelo elogio,
pelo vitupério.

tradução: Thanissaro Bhikkhu e Rogel Samuel (português)

Quem quiser ler mais visite o blog Dhammapada

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A morte, a vida: um fragmento de Novalis (fragmentos II - 1768)

A morte é o princípio da vida. A morte é, a vida é. A vida é revigorada pela morte. (Novalis)

Este fragmento acima é assinado por Novalis. A morte e a vida são - diz o poeta alemão. Mas ambas são de maneira que se relacionam. A morte está para a vida assim como esta está para aquela. Certamente a vida e morte não estão como oposição, ou seja, a morte como negação - como a privação da vida.
A morte - que poderia ser o fim - é o princípio da vida. Por outro lado, a vida - que poderia ser débil pelo seu fim breve e fatal - é revigorada pela morte, uma vez que esta traz o vigor do sentido da vida.
Por isso, nesse contexto do fragmento de Novalis, a vida é. A morte é. No entanto, são como um espelho voltado um para o outro. Porque simplesmente a vida é a morte e a morte é a vida. Elas são a partir do momento em que olham uma para outra e, dessa maneira, se conjugam entre si mesmas. Aponta assim para um caminho diverso da ideia de VIDA e de MORTE. (Jefferson Bessa)

domingo, 4 de outubro de 2009

O sonho de uma sombra - um poema de Píndaro


A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.


Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

tradução: Péricles Eugênio


Ser o sonho de uma sombra. Píndaro nesses versos respira o destino que está nas mãos dos deuses, sendo a sorte humana lançada nas mãos deles. Mas volto: ser o sonho de uma sombra. Ser o que uma sombra sonha é ser o efêmero. É mais: é ser a afemeridade do efêmero. Não é ser a sombra - é muito mais denso ou ainda muito mais efêmero - é ser o sonho dela, ou melhor, é ser o transitório do que em si não tem luz, portanto nem mesmo se vê e nem escolhe [ é o ser homem]. A efemeridade está muito antes do que se imagina. É estar envolto à pergunta sem resposta: "quem somos? quem não somos?".

Mas Píndaro fala também dos deuses; estes podem lançar luz ou escuridão ao sonho da sombra, pois nós só sabemos do que pode vir - que apenas sabemos ser incerto. A sorte é o porvir que não se sabe. Para nós quem poderiam ser os deuses? Para ele parece ser o próprio destino - a própria sorte que não se desvenda jamais. Suportar o destino é viver os deuses. É estar por um fio, é saber que tudo pode acabar em um só momento - em um segundo. (Jefferson Bessa)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Salexistência: um poema de Tenório Telles

Salário

Sal

salga meus sonhos
meus olhos

Sal

que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência

A vida por um salário
salexistência
O sal da terra
salga-nos os ossos.

(De Primeiros fragmentos)

domingo, 27 de setembro de 2009

Rilke – um trecho das "Cartas a um jovem poeta"


Por isso, que fique registrado aqui, desde logo, um pedido meu: leia o mínimo possível textos críticos e estéticos – ou são considerações parciais, petrificadas, que se tornaram destituídas de sentido em sua rigidez sem vida, ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a contrária. Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cantos dos Imigrantes - Alberto da Cunha Melo

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

sábado, 19 de setembro de 2009

As musas num trecho de Teogonia de Hesíodo

pintura de Baldassare Peruzzi
(...)
Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.
Se com angústia no ânimo recém-ferido
alguém aflito mirra o coração e se o cantor
servo das musas hineia a glória dos antigos
e os venturosos Deuses que têm o Olimpo,
logo esquece os pesares e de nenhuma aflição
se lembra, já os desviaram os dons das Deusas.
Alegrai, filhas de Zeus, dai ardente canto,
gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,
os que nasceram da Terra e do Céu constelado,
os da Noite trevosa, os que o salgado Mar criou.
Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,
os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,
os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.
Os deles nascidos deuses doadores de bens
como dividiram a opulência e repartiram as honras,
e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.
Dizei-me isto, ó Musas que tendes o palácio olímpio,
dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.
Tradução: J.A.A.Torrano