Love 2 é o novo cd da dupla francesa Air (Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin). Mas como não encontrei nenhum vídeo do recente álbum, vou postar um clipe de uma música mais antiga (de 1999). Este clipe é dirgido por Mike Mills e tem um clima de nouvelle vague. É um clipe-documentário que exibe dentre algumas coisas: momentos de viagem, de preparação e de apresentação da dupla e sua banda. O nome da música: Le soleil est près de moi.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Soneto da paz: um poema de Joaquim Cardozo
Este soneto é natureza morta,
Traço na alvura, sombra de uma flor,
Sinal de paz que inscrevo em cada porta,
Gesto, medida de comum valor.
É letra e clave, é módulo que importa
Na redução da voz, do som. Calor
Do que vivido foi e inda comporta
Palpitação de implícito lavor.
Moeda que correu por muitas mãos,
Brinquedo que ficou perdido a um canto
Num lago de esquecidas esperanças.
Mas nos seus versos fecho os sonhos vãos
E em notas claras digo, exalto e canto:
– Paz! Paz! Brincai, adormecei, crianças!
CARDOZO, Joaquim. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. p. 203
Traço na alvura, sombra de uma flor,
Sinal de paz que inscrevo em cada porta,
Gesto, medida de comum valor.
É letra e clave, é módulo que importa
Na redução da voz, do som. Calor
Do que vivido foi e inda comporta
Palpitação de implícito lavor.
Moeda que correu por muitas mãos,
Brinquedo que ficou perdido a um canto
Num lago de esquecidas esperanças.
Mas nos seus versos fecho os sonhos vãos
E em notas claras digo, exalto e canto:
– Paz! Paz! Brincai, adormecei, crianças!
CARDOZO, Joaquim. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. p. 203
O canto de paz de Joaquim Cardozo materializado, estampado na natureza. A paz de Joaquim chega no seu momento e espalha-se por todas as portas - é o sinal do poema que nos doa a paz, porque, enquanto sinal, o poema existe e ninguém poderá negar que ele mesmo é a paz; existe sendo a paz como um traço, como uma sombra, como uma pintura.
Dessa maneira é que corre este soneto, convidando muitas portas a ficarem abertas para este canto que é paz: brinquedo esquecido, mas que Joaquim, em notas claras, faz ressurgir para que com ela brinquemos feito crianças! (Jefferson Bessa)
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Quatro momentos do DHAMMAPADA
26: O insensato se entrega à negligência
o sábio
aprecia a atenção
como sua riqueza.
71 *: Uma ação má, quando terminada,
não se faz doce como o leite coagulado
Segue o bobo,
queimando sem chama
como um fogo
escondido em cinzas.
80: Os aguadeiros guiam a água.
Flecheiros amoldam a ponta da seta.
Carpinteiros amoldam a madeira.
O sábio controla a si-próprio.
81: Como uma laje de pedra
não se move ao vento,
assim o sábio não é movido
pelo elogio,
pelo vitupério.
o sábio
aprecia a atenção
como sua riqueza.
71 *: Uma ação má, quando terminada,
não se faz doce como o leite coagulado
Segue o bobo,
queimando sem chama
como um fogo
escondido em cinzas.
80: Os aguadeiros guiam a água.
Flecheiros amoldam a ponta da seta.
Carpinteiros amoldam a madeira.
O sábio controla a si-próprio.
81: Como uma laje de pedra
não se move ao vento,
assim o sábio não é movido
pelo elogio,
pelo vitupério.
tradução: Thanissaro Bhikkhu e Rogel Samuel (português)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
A morte, a vida: um fragmento de Novalis (fragmentos II - 1768)
A morte é o princípio da vida. A morte é, a vida é. A vida é revigorada pela morte. (Novalis)
Este fragmento acima é assinado por Novalis. A morte e a vida são - diz o poeta alemão. Mas ambas são de maneira que se relacionam. A morte está para a vida assim como esta está para aquela. Certamente a vida e morte não estão como oposição, ou seja, a morte como negação - como a privação da vida.
A morte - que poderia ser o fim - é o princípio da vida. Por outro lado, a vida - que poderia ser débil pelo seu fim breve e fatal - é revigorada pela morte, uma vez que esta traz o vigor do sentido da vida.
Por isso, nesse contexto do fragmento de Novalis, a vida é. A morte é. No entanto, são como um espelho voltado um para o outro. Porque simplesmente a vida é a morte e a morte é a vida. Elas são a partir do momento em que olham uma para outra e, dessa maneira, se conjugam entre si mesmas. Aponta assim para um caminho diverso da ideia de VIDA e de MORTE. (Jefferson Bessa)
domingo, 4 de outubro de 2009
O sonho de uma sombra - um poema de Píndaro

A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.
Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.
tradução: Péricles Eugênio
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.
Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.
tradução: Péricles Eugênio
Ser o sonho de uma sombra. Píndaro nesses versos respira o destino que está nas mãos dos deuses, sendo a sorte humana lançada nas mãos deles. Mas volto: ser o sonho de uma sombra. Ser o que uma sombra sonha é ser o efêmero. É mais: é ser a afemeridade do efêmero. Não é ser a sombra - é muito mais denso ou ainda muito mais efêmero - é ser o sonho dela, ou melhor, é ser o transitório do que em si não tem luz, portanto nem mesmo se vê e nem escolhe [ é o ser homem]. A efemeridade está muito antes do que se imagina. É estar envolto à pergunta sem resposta: "quem somos? quem não somos?".
Mas Píndaro fala também dos deuses; estes podem lançar luz ou escuridão ao sonho da sombra, pois nós só sabemos do que pode vir - que apenas sabemos ser incerto. A sorte é o porvir que não se sabe. Para nós quem poderiam ser os deuses? Para ele parece ser o próprio destino - a própria sorte que não se desvenda jamais. Suportar o destino é viver os deuses. É estar por um fio, é saber que tudo pode acabar em um só momento - em um segundo. (Jefferson Bessa)
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Salexistência: um poema de Tenório Telles
Salário
Sal
salga meus sonhos
meus olhos
Sal
que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência
A vida por um salário
salexistência
O sal da terra
salga-nos os ossos.
(De Primeiros fragmentos)
Sal
salga meus sonhos
meus olhos
Sal
que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência
A vida por um salário
salexistência
O sal da terra
salga-nos os ossos.
(De Primeiros fragmentos)
domingo, 27 de setembro de 2009
Rilke – um trecho das "Cartas a um jovem poeta"
Por isso, que fique registrado aqui, desde logo, um pedido meu: leia o mínimo possível textos críticos e estéticos – ou são considerações parciais, petrificadas, que se tornaram destituídas de sentido em sua rigidez sem vida, ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a contrária. Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar.
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