sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Louvação do Barro: um poema de Mariano Manent

Cantarei o barro, porque nele esteve a vida
e este sangue que ferve em nosso corpo.
Meus olhos de barro pressentem o repouso
e o clarão imortal de uma outra vida.

Cantarei o barro porque foi amassada
a nossa carne do barro inconsistente
e na argila curtida e inanimada
o sopro de Deus entrou como a semente.

tradução: João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três imagens: Caravaggio

Amor Victorious
São João Batista como criança

A inspiração de S. Mateus (1602)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Três imagens: homenagem a Hélio Oiticica

Uma foto da instalação Éden. Fonte: desconhecida



Caetano Veloso vestindo Parangolé



Esta postagem lamenta o estrago feito ao acervo do artista plástico Hélio Oiticica. O estrago causado por um incêndio deixou grande parte de sua obra destruída.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A vingança da porta: um poema de Alberto de Oliveira

Era um hábito antigo que ele tinha:
entrar dando com a porta nos batentes
— "Que te fez esta porta?" a mulher vinha
e interrogava... Ele, cerrando os dentes:

— "Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha
calmava-se; feliz, os inocentes
olhos revê da filha e a cabecinha
lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Uma vez, ao tornar à casa, quando
erguia a aldrava, o coração lhe fala
— "Entra mais devagar..." Pára, hesitando...

Nisso nos gonzos range a velha porta,
ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
a mulher como doida e a filha morta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Air - Le soleil est près de moi

Love 2 é o novo cd da dupla francesa Air (Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin). Mas como não encontrei nenhum vídeo do recente álbum, vou postar um clipe de uma música mais antiga (de 1999). Este clipe é dirgido por Mike Mills e tem um clima de nouvelle vague. É um clipe-documentário que exibe dentre algumas coisas: momentos de viagem, de preparação e de apresentação da dupla e sua banda. O nome da música: Le soleil est près de moi.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Soneto da paz: um poema de Joaquim Cardozo

Este soneto é natureza morta,
Traço na alvura, sombra de uma flor,
Sinal de paz que inscrevo em cada porta,
Gesto, medida de comum valor.


É letra e clave, é módulo que importa
Na redução da voz, do som. Calor
Do que vivido foi e inda comporta
Palpitação de implícito lavor.


Moeda que correu por muitas mãos,
Brinquedo que ficou perdido a um canto
Num lago de esquecidas esperanças.


Mas nos seus versos fecho os sonhos vãos
E em notas claras digo, exalto e canto:
– Paz! Paz! Brincai, adormecei, crianças!


CARDOZO, Joaquim. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. p. 203


O canto de paz de Joaquim Cardozo materializado, estampado na natureza. A paz de Joaquim chega no seu momento e espalha-se por todas as portas - é o sinal do poema que nos doa a paz, porque, enquanto sinal, o poema existe e ninguém poderá negar que ele mesmo é a paz; existe sendo a paz como um traço, como uma sombra, como uma pintura.
Dessa maneira é que corre este soneto, convidando muitas portas a ficarem abertas para este canto que é paz: brinquedo esquecido, mas que Joaquim, em notas claras, faz ressurgir para que com ela brinquemos feito crianças! (Jefferson Bessa)