domingo, 29 de novembro de 2009

poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa



A partir do poema Minha letra é outra, surgiu um poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa.


Rogel Samuel escreveu:



para Jefferson Bessa


seu poema está imerso
nessas ondas do fundo
que confundem são gavetas
são marcas dágua
são dunas de um outro mundo
são gravações agravadas
onde o poema dorme, gravado
mas solto, engavetado
mas aéreo, eu disse
que essa sua nova fase
de sua poesia vai ser gravada
nas ondas desse mar
desse colorido mar
nas ondas do fundo da memória
desses computadores-leitores
a cores
ou leitores em preto e branco e agora
em ondas vermelhas pretas e azuis
concentradas
concêntricas
fecundas
postadas
gravadas
água
água e areia
água
tinta de cor de água
água e tinta de água e cor

***

Jefferson Bessa escreveu:


nossas águas-palavras (para Rogel Samuel)


palavra úmida
em palavra água
gravada em seiva
em leitura água-viva.

palavra-ondina
amistosa fluvial.
é nossa face que vibra
por entre a tela líquida.

letras postadas
móveis nos corpos
na confluência de ondas
escritas, magnéticas.

é tinta de olhos
pela entre-onda
muito atenta e diluída
que ondula o poema.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Da inconstância dos bens do mundo: um poema do poeta Gregório de Mattos

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

domingo, 22 de novembro de 2009

Um trecho do poema Os cegos de Cassiano Ricardo


Se ainda houver lâmpada
para nosso nervo óptico,
que importa olhar a vida
por um olho exótico?

Ou ficamos assim,
de olhos ocos, à espera
de grande primavera?
ou de algum outro fim?

Temos os olhos ocos
como os das estátuas.
Temos os olhos loucos...
Que fazer agora?

Pedir à terra, ao menos,
que um dia nos coloque,
nas órbitas vazias,
duas rosas frias?

(...)

Temos os olhos ocos
e o espelho em que se esconde
nossa triste figura
já não nos responde.

O mal não é estar cego
por não ver as coisas.
Não é ter olhos ocos
porque comemos, loucos,

uns aos olhos dos outros.
É o de quem vê as coisas
sem saber que está cego.
É o de quem está morto

sem saber que morreu.
É o de quem carrega
o seu próprio enterro,
sem saber que é o seu.

É o de quem vê tudo,
as cores, as figuras,
mas tem, dentro de si,
uma estrela cega.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cansaço: poema de Oliverio Girondo

Cansado.
Sim!
Cansado
de um usar um só baço,
dois lábios,
vinte dedos,
não sei quantas palavras,
não sei quantas recordações,
grisalhas,
fragmentadas.

Cansado,
muito cansado
deste frio esqueleto,
tão pudico,
tão casto,
que quando se desnuda
não saberei se é ele mesmo
que usei enquanto vivia.

Cansado.
Sim!
Cansado
por precisar de antenas,
de um olho em cada omoplata
e de uma cauda autêntica,
alegre,
desatada,
e não desta cauda hipócrita,
degenerada,
pequena.

Cansado,
sobretudo,
de estar sempre comigo,
de me encontrar a cada dia,
quando termina o sono,
ali, onde me encontro,
com o mesmo nariz
e com as mesmas pernas;
como se não desejasse
esperar a baixa maré com uma cútis de praia
oferecer, sob o orvalho, os seios de magnólia,
acariciar a terra como um ventre de lagarta
e viver, uns meses, dentro de uma pedra.

tradução: Jefferson Bessa

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Fotografia: Imogen Cunningham

Untitled
1928

Aloe
c. 1926

Magnolia Blossom
1925

domingo, 8 de novembro de 2009

O livro Falo: a poesia de Paulo Augusto

Falo de Paulo Augusto é o canto FÁLICO da VOZ do poeta. Mas o FALO se torna também um “EU FALO” – e ambos são a CORAGEM do poeta de cantar a homossexualidade. Mas esta voz libertária, erótica e visceral se espalha e atravessa o país identificando as injustiças com ele (enquanto gay) e com os outros (enquanto coletividade). Dessa maneira é que o livro exibe Ele e o Nordeste (sobretudo) na arena das perseguições da tirania e da violência na sociedade. Entretanto, o livro tem a força de libertar-se dessas amarras, pois se impõe como aguerrido. A força e a alegria do poeta vibram, porque tudo ainda está para ser feito, nada está acabado. Tudo é vivido intensamente, tudo é vivido como um porvir.
O corpo que é amor, delicadeza e erotismo é o mesmo corpo que grita e guerrilha. Momentos como os dos seguintes versos mostram que os ataques e perseguições acontecem porque sabe que é maravilhoso,/ ser fresco/ como um dia de Domingo/ ensolarado e pendurado/ no varal. É o poeta na simplicidade de saber que ser o que é vale a vida.
Versos soltos, livres que explodem numa energia própria de quem quer amar e para tanto está pronto para lutar. Diz: “João, pense no que diz como se morresse”. E dialoga diretamente com os Homens, com a América e com o Mundo Todo.
O livro está disponível no blog Livros Online de Rogel Samuel; para lê-lo clique aqui.
Jefferson Bessa

Dois poemas do livro FALO de Paulo Augusto:

SYSTEM-ATTICA

Porque sou fresco,
hábil, lépido,
a gerontocracia sente medo,
se arrepia como um rato.
Cospe leis, editos, atos.
Se agasalha, modorrenta, rouca,
recua na cadeira de balanço
botando graxa
na dobradiça das pernas.
A tosse, a vista cansada,
a velha despótica me espreita.

Quando exibo meu porte,
meu corte,
me chama de trans
viado me cobra pedágio - a doida
quer me ver casado,
parindo mão-de-obra
para eternizá-la.
Para destruí-la, esterilizo-me.
Minha praxis.
Por puro capricho
me amedronta, me persegue, me degrada.
Nego, renego, faço ouvido mouco.
Se me encontra pela rua
madrugada
quer violentar-me,
ver meus documentos,
me revista e se delicia
apalpando minhas partes,
pensa em coito.
Nego, renego, abomino.
E ficamos eternamente
nessa cachorrada.

Quer me tributar,
me chupar – foder-me
porque sabe que é maravilhoso,
ser fresco
como um dia de Domingo
ensolarado e pendurado
no varal.

POEMA PARA AS MÃOS DE ANTÔNIO

Essa mão que me segura
pelo pescoço,
me sacode e me revista,
essa mão eu amo.

Toda vez que vai ao coldre
leva um beijo meu.

Se atira pedras
e arrebenta vidros,
assusta gente, cidades,
eu gozo - ela é minha.

Nas sombras de minhas colchas
desliza atrevida
em partes que eu não permito.

Silencia, vibra, fala
- abarca tudo que vê,
ambiciosa e chula.

Se peço que pare,
avança - adoro!
Louca, impura, grossa,
entra aonde não deve,
cava, coça, atira e treme,
goza - banha-se
no meu torpor,
vive para acarinhar
meu rosto
e me bater
se grito
quando quer me amar.