quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Um poema de Rogel Samuel

transforma-se o amador em terrorista
e sua inês fálica na pista
em seus braços onde levará?
interdita por preservativos
sua beatriz de amor armada
quando ama mata o amado
punhal pelúcia escondida
eles se encontram na vida
com amor com ódio com cida
maquilagem fementida
salto alto escorregadia via
no vão da escada se masturbam vivos
gameta estrela circunstância pia
nos cines pornôs e hotéis baratos
eles se ajoelham escondidos.
suas crianças desde que perdidas
tão perigosas assaltantes nuas
à noite transadas pelas ruas
por milicianos que a querem vivas
contaminadas nas suas mágicas rotas
de polícias especializadas
no desejo na espera e nessa dor
erotizadas dos primeiros gozos
postais sextantes dessa corja aziaga
de escória e de glórias clandestinas
guirlandas estupradas nesses montes de lixo
de restos de hospitais a flor da morte
(dia virá em que os amantes
serão caçados a bala)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Quereres: Caetano Veloso

Quem quiser assistir ao vídeo ao vivo, clique aqui. Caetano e Chico cantam juntos.

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão.

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês.

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói.

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és.

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor.

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus.

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

T. S. Eliot: Um trecho de ensaio crítico


O que defendo é que o primeiro esforço de um poeta deverá ser no sentido de alcançar clareza para si próprio, de se assegurar de que o poema é o resultado certo do processo que se realizou. A mais falhada forma de obscuridade é a do poeta que não conseguiu expressar-se perante ele próprio; a mais falsa é a que se encontra quando o poeta tenta convencer-se de que tem alguma coisa para dizer, e não tem.

De As três vozes da poesia.

domingo, 29 de novembro de 2009

poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa



A partir do poema Minha letra é outra, surgiu um poema-resposta entre Rogel Samuel e Jefferson Bessa.


Rogel Samuel escreveu:



para Jefferson Bessa


seu poema está imerso
nessas ondas do fundo
que confundem são gavetas
são marcas dágua
são dunas de um outro mundo
são gravações agravadas
onde o poema dorme, gravado
mas solto, engavetado
mas aéreo, eu disse
que essa sua nova fase
de sua poesia vai ser gravada
nas ondas desse mar
desse colorido mar
nas ondas do fundo da memória
desses computadores-leitores
a cores
ou leitores em preto e branco e agora
em ondas vermelhas pretas e azuis
concentradas
concêntricas
fecundas
postadas
gravadas
água
água e areia
água
tinta de cor de água
água e tinta de água e cor

***

Jefferson Bessa escreveu:


nossas águas-palavras (para Rogel Samuel)


palavra úmida
em palavra água
gravada em seiva
em leitura água-viva.

palavra-ondina
amistosa fluvial.
é nossa face que vibra
por entre a tela líquida.

letras postadas
móveis nos corpos
na confluência de ondas
escritas, magnéticas.

é tinta de olhos
pela entre-onda
muito atenta e diluída
que ondula o poema.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Da inconstância dos bens do mundo: um poema do poeta Gregório de Mattos

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

domingo, 22 de novembro de 2009

Um trecho do poema Os cegos de Cassiano Ricardo


Se ainda houver lâmpada
para nosso nervo óptico,
que importa olhar a vida
por um olho exótico?

Ou ficamos assim,
de olhos ocos, à espera
de grande primavera?
ou de algum outro fim?

Temos os olhos ocos
como os das estátuas.
Temos os olhos loucos...
Que fazer agora?

Pedir à terra, ao menos,
que um dia nos coloque,
nas órbitas vazias,
duas rosas frias?

(...)

Temos os olhos ocos
e o espelho em que se esconde
nossa triste figura
já não nos responde.

O mal não é estar cego
por não ver as coisas.
Não é ter olhos ocos
porque comemos, loucos,

uns aos olhos dos outros.
É o de quem vê as coisas
sem saber que está cego.
É o de quem está morto

sem saber que morreu.
É o de quem carrega
o seu próprio enterro,
sem saber que é o seu.

É o de quem vê tudo,
as cores, as figuras,
mas tem, dentro de si,
uma estrela cega.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cansaço: poema de Oliverio Girondo

Cansado.
Sim!
Cansado
de um usar um só baço,
dois lábios,
vinte dedos,
não sei quantas palavras,
não sei quantas recordações,
grisalhas,
fragmentadas.

Cansado,
muito cansado
deste frio esqueleto,
tão pudico,
tão casto,
que quando se desnuda
não saberei se é ele mesmo
que usei enquanto vivia.

Cansado.
Sim!
Cansado
por precisar de antenas,
de um olho em cada omoplata
e de uma cauda autêntica,
alegre,
desatada,
e não desta cauda hipócrita,
degenerada,
pequena.

Cansado,
sobretudo,
de estar sempre comigo,
de me encontrar a cada dia,
quando termina o sono,
ali, onde me encontro,
com o mesmo nariz
e com as mesmas pernas;
como se não desejasse
esperar a baixa maré com uma cútis de praia
oferecer, sob o orvalho, os seios de magnólia,
acariciar a terra como um ventre de lagarta
e viver, uns meses, dentro de uma pedra.

tradução: Jefferson Bessa