domingo, 20 de dezembro de 2009

O idealismo mágico de Novalis: um fragmento


O uso ativo dos órgãos nada mais é que pensamento mágico, taumatúrgico, ou uso arbitrário do mundo dos corpos; de fato, a vontade outra coisa não é senão magia, enérgica capacidade do pensamento.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um Poema de Marina Tzvietáieva

Mão esquerda contra a direita.
Tua alma e minha alma - rentes.

Fusão, beatitude que abrasa.
Direita e esquerda - duas asas.

Roda tufão, o abismo fez-se
Da asa esquerda à asa direita.

(Tradução de Haroldo de Campos)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Canção: poema de Rosa Leveroni

Mil auroras acendeu
o ardente grito da chama.
Dez mil estrelas nos deu
o pranto sutil do orvalho.
Punha o perfume carmim
na alma desta rosa branca
e uma cerva pela fonte
buscava o espelho de prata.
Percebi uma canção
e não sei quem a cantava:
entre suspiros e ramos,
como de longe, chegava,
dizendo bem docemente:
Ai da triste enamorada!...

tradução João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Um poema de Rogel Samuel

transforma-se o amador em terrorista
e sua inês fálica na pista
em seus braços onde levará?
interdita por preservativos
sua beatriz de amor armada
quando ama mata o amado
punhal pelúcia escondida
eles se encontram na vida
com amor com ódio com cida
maquilagem fementida
salto alto escorregadia via
no vão da escada se masturbam vivos
gameta estrela circunstância pia
nos cines pornôs e hotéis baratos
eles se ajoelham escondidos.
suas crianças desde que perdidas
tão perigosas assaltantes nuas
à noite transadas pelas ruas
por milicianos que a querem vivas
contaminadas nas suas mágicas rotas
de polícias especializadas
no desejo na espera e nessa dor
erotizadas dos primeiros gozos
postais sextantes dessa corja aziaga
de escória e de glórias clandestinas
guirlandas estupradas nesses montes de lixo
de restos de hospitais a flor da morte
(dia virá em que os amantes
serão caçados a bala)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Quereres: Caetano Veloso

Quem quiser assistir ao vídeo ao vivo, clique aqui. Caetano e Chico cantam juntos.

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão.

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês.

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói.

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és.

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor.

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus.

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

T. S. Eliot: Um trecho de ensaio crítico


O que defendo é que o primeiro esforço de um poeta deverá ser no sentido de alcançar clareza para si próprio, de se assegurar de que o poema é o resultado certo do processo que se realizou. A mais falhada forma de obscuridade é a do poeta que não conseguiu expressar-se perante ele próprio; a mais falsa é a que se encontra quando o poeta tenta convencer-se de que tem alguma coisa para dizer, e não tem.

De As três vozes da poesia.