
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Guimarães Rosa - uma passagem de Grande Sertão: Veredas

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco — é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso — por estúrdio que me vejam — é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela — já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças — eu digo. Pois não é o ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Mystica Visio - poema de Augusto dos Anjos

Vinha passando pelo meu caminho
Um vulto estranhamente iluminado...
Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado
E desde então, não andei mais sozinho!
Um vulto estranhamente iluminado...
Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado
E desde então, não andei mais sozinho!
Abraçou-me, beijou-me com um carinho
Que a um ser divino não seria dado...
E eu me elevava, sendo assim beijado
Muito acima do humano borborinho!
Falou-me de ilusões e de luares,
Da tribo alegre que povoa os ares...
- Assombrava-me aquela claridade!
Mas através daquelas falsas luzes
Pude rever enfim todas as cruzes
Que têm pesado sobre a Humanidade!
Pau d'Arco, 1905 (O Comércio, 15/09/1905)
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Amanhecer: poema de Joaquim Cardozo

A luz nasce no Oriente, os pássaros despertam ...
Amanhancer! Amanhecer!
As cinzas da noite já se afastam
Promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã
Amanhancer! Amanhecer!
As cinzas da noite já se afastam
Promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã
Amanhecer! Amanhecer!
Agora se libertam os horizontes
E cada vez mais se chegam e se aproximam
Da noite escura que vai fugindo
Que se flutuando e vai se perdendo;
A noite - que depois voltará.
A noite se dissolve nas marcas do papel
Desenhada e claras ...
Ou cavalga como manchas brancas
Para fugir mais depressa,
Ou se retarda nas trevas
Que ainda se vão arrastando longamente
Amanhecer! Amanhecer!
Muito em breve termina o amanhecer
Embora, nessa página ainda continue .
Amanhecer! Amanhecer!
É grito agudo de quem espera
Chegar ao fim da noite.
Do livro O Interior da matéria.
Terminada a digitação do poema de Joaquim Cardozo para o blog, apenas tive uma grande satisfação em poder digitá-lo. É como se eu o sentisse meu. Mas esta sensação é ter, por um um momento, o poema de Joaquim ao lado e bem próximo - rente a mim. É um amanhecer como o poema amanhece, amanhecer junto ao poeta pernambucano que ao meu lado anuncia uma luz que nasce no Oriente.
E desta maneira vou ouvindo o canto de Joaquim, que canta o nascimento do amanhecer numa descrição tão simples e rara que se tem a presença de um eterno amanhecer em papel.
Mas e a brevidade desse instante? Como ele ser eterno? Mas afirmo por aquilo que o poema se faz uma eternidade própria do Amanhecer. Ele tem a força do amanhecer. É o amanhecer. Reli-o várias vezes. Em todas as vezes este instante surgiu como um poema que inicia sempre, ou ainda, como um poema que amanhece sempre.
Há uma força grande e simples. E o que move o poema está na forma e na vida dele mesmo.
Digitar um poema se tornou amanhecer.
(Jefferson Bessa)
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domingo, 3 de janeiro de 2010
Maus livros: um fragmento de Nietzsche
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
minha identidade se perde em tua id: um poema de Rogel Samuel
minha identidade se perde em sua id
e me perdi ali, que dissolvido
estou no ser amado em seu destino.
que se me vejo no reflexo de seus versos
já dividido sou nos seus espelhos
nem busco estar no todo de suas partes
mas no dorso, em procurando
a casa inteira dei-me conta
que só de números me inscrevo
e recebo identidade e assim percorro
os seus ombros, os seus pelos, o lenho exposto
sobre os anelados dos cabelos
e a linda curvatura do pescoço.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Música da Morte: um poema de Cruz e Souza
A música da Morte, a nebulosa,
Estranha, imensa música sombria,
Passa a tremer pela minh'alma e fria
Gela, fica a tremer, maravilhosa...
Onde nervosa e atroz, onda nervosa,
Letes sinistro e torvo da agonia,
Recresce a lancinante sinfonia,
Sobe, numa volúpia dolorosa...
Sobre, recresce, tumultuando e amarga,
Tremenda, absurda, imponderada e larga,
De pavores e trevas alucina...
E aluciando e em trevas delirando,
Como um Ópio letal, vertiginando,
Os meus nervos, letárgica, fascina...
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