
domingo, 24 de janeiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Exercício nº17: um poema de Zemaria Pinto
de cinco mil sementes repartidas
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido
miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas
da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras
pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido
miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas
da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras
pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais
domingo, 17 de janeiro de 2010
O sonho de um curioso: um poema de Baudelaire ao fotógrafo Félix Nadar
Conheces tu, como eu, a dor saborosa?
E que te faz dizer: "Oh! homem singular!"
— Morrer eu ia. Havia, em minha alma amorosa,
Misto de êxtase e horror, um mal particular;
Desespero e esperança, indiferença ociosa.
Quanto mais a ampulheta eu via a se esvaziar,
Mais a tortura me era atroz e deliciosa;
Meu coração fugia ao mundo familiar.
Eu era como a criança à espera do espetáculo
Odiando o pano como se odeia um obstáculo...
Mas a fria verdade enfim se revelou:
Eu morrera sem susto, e a terrível aurora
Me envolvia. - Mas como? O que então se passou?
O pano já caíra e eu não me fora embora.
Tradução Ivan Junqueira
E que te faz dizer: "Oh! homem singular!"
— Morrer eu ia. Havia, em minha alma amorosa,
Misto de êxtase e horror, um mal particular;
Desespero e esperança, indiferença ociosa.
Quanto mais a ampulheta eu via a se esvaziar,
Mais a tortura me era atroz e deliciosa;
Meu coração fugia ao mundo familiar.
Eu era como a criança à espera do espetáculo
Odiando o pano como se odeia um obstáculo...
Mas a fria verdade enfim se revelou:
Eu morrera sem susto, e a terrível aurora
Me envolvia. - Mas como? O que então se passou?
O pano já caíra e eu não me fora embora.
Tradução Ivan Junqueira
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Guimarães Rosa - uma passagem de Grande Sertão: Veredas

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco — é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso — por estúrdio que me vejam — é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela — já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças — eu digo. Pois não é o ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Mystica Visio - poema de Augusto dos Anjos

Vinha passando pelo meu caminho
Um vulto estranhamente iluminado...
Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado
E desde então, não andei mais sozinho!
Um vulto estranhamente iluminado...
Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado
E desde então, não andei mais sozinho!
Abraçou-me, beijou-me com um carinho
Que a um ser divino não seria dado...
E eu me elevava, sendo assim beijado
Muito acima do humano borborinho!
Falou-me de ilusões e de luares,
Da tribo alegre que povoa os ares...
- Assombrava-me aquela claridade!
Mas através daquelas falsas luzes
Pude rever enfim todas as cruzes
Que têm pesado sobre a Humanidade!
Pau d'Arco, 1905 (O Comércio, 15/09/1905)
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Amanhecer: poema de Joaquim Cardozo

A luz nasce no Oriente, os pássaros despertam ...
Amanhancer! Amanhecer!
As cinzas da noite já se afastam
Promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã
Amanhancer! Amanhecer!
As cinzas da noite já se afastam
Promovem e decantam o amanhecer.
Noturna treva ainda fica nos recantos
Mas, pouco a pouco, vai esmaecendo;
Se ouve o primeiro canto da manhã
Amanhecer! Amanhecer!
Agora se libertam os horizontes
E cada vez mais se chegam e se aproximam
Da noite escura que vai fugindo
Que se flutuando e vai se perdendo;
A noite - que depois voltará.
A noite se dissolve nas marcas do papel
Desenhada e claras ...
Ou cavalga como manchas brancas
Para fugir mais depressa,
Ou se retarda nas trevas
Que ainda se vão arrastando longamente
Amanhecer! Amanhecer!
Muito em breve termina o amanhecer
Embora, nessa página ainda continue .
Amanhecer! Amanhecer!
É grito agudo de quem espera
Chegar ao fim da noite.
Do livro O Interior da matéria.
Terminada a digitação do poema de Joaquim Cardozo para o blog, apenas tive uma grande satisfação em poder digitá-lo. É como se eu o sentisse meu. Mas esta sensação é ter, por um um momento, o poema de Joaquim ao lado e bem próximo - rente a mim. É um amanhecer como o poema amanhece, amanhecer junto ao poeta pernambucano que ao meu lado anuncia uma luz que nasce no Oriente.
E desta maneira vou ouvindo o canto de Joaquim, que canta o nascimento do amanhecer numa descrição tão simples e rara que se tem a presença de um eterno amanhecer em papel.
Mas e a brevidade desse instante? Como ele ser eterno? Mas afirmo por aquilo que o poema se faz uma eternidade própria do Amanhecer. Ele tem a força do amanhecer. É o amanhecer. Reli-o várias vezes. Em todas as vezes este instante surgiu como um poema que inicia sempre, ou ainda, como um poema que amanhece sempre.
Há uma força grande e simples. E o que move o poema está na forma e na vida dele mesmo.
Digitar um poema se tornou amanhecer.
(Jefferson Bessa)
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