quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Monsieur Teste: Paul Valéry



Existem personagens que sentem que seus sentidos os separam do real, do ser. Esse sentido, neles, contamina seus outros sentidos.
O que vejo me cega. O que ouço me ensurdece. Aquilo que conheço me torna ignorante. Ignoro, em tudo e por tudo, que sei. Esta iluminação à minha frente é uma venda e recobre uma noite ou uma luz mais... Mais o quê? Nesse ponto, o círculo se fecha, com essa estranha reviravolta: o conhecimento, como uma nuvem sobre o ser; o mundo brilhante, como cegueira e opacidade.
Retirai todas as coisas para que eu veja.

trecho do livro Mousieur Teste
tradução: Cristina Murachco

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Bacanal: poema de Manuel Bandeira




Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
......................Evoé Baco!


Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo...
......................Evoé Momo!


Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
......................Evoé Vênus!


Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
......................Evoé Baco!


O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
.....................Evoé Momo!


A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
.....................Evoé Vênus!


Do livro Carnaval

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VIDA TODA LINGUAGEM: um poema de Mário Faustino




Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
.....................................como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
.....................................amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
....................................../ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
....................................língua
..............................................eterna.

2 "dos epigramas venezianos" de Goethe


Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.
***
Não te queres deitar nua ao meu lado, bem-amada;
Por vergonha te escondes de mim em tuas vestes.
Diz-me, o que cobiço? A tua roupa ou o teu corpo?
Vergonha: uma roupa que os amantes jogam fora.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Máscaras Africanas



Máscara referente à tribo Baule (Costa do Marfim)
Modelo de máscara para molde em bronze

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Milagres do povo: Caetano Veloso

Quem é ateu e viu milagres como eu

Sabe que os deuses sem Deus

Não cessam de brotar, nem cansam de esperar

E o coração que é soberano e que é senhor

Não cabe na escravidão, não cabe no seu não

Não cabe em si de tanto sim

É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história


Ojuobá ia lá e via Ojuobahia

Xangô manda chamar

Obatalá guia

Mamãe Oxum chora lágrimalegria

Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia

Ojuobá ia lá e via

Ojuobahia

Obá


É no xaréu que brilha a prata luz do céu

E o povo negro entendeu que o grande vencedor

Se ergue além da dor

Tudo chegou sobrevivente num navio

Quem descobriu o Brasil?

Foi o negro que viu a crueldade bem de frente

E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um trecho de Martin Heidegger



Estamos sempre no perigo de sobrecarregar um poema com excesso de pensamento e assim impedir que o poético nos toque. Um perigo ainda maior - hoje dificilmente assumido - é o de pensar de menos, de resistir ao pensamento de que a experiência em sentido próprio da linguagem só pode ser uma experiência de pensamento, de que a grandeza poética de toda poesia vibra num pensamento. (...) Como há séculos nos alimentamos do preconceito de que o pensamento é coisa da ratio, ou seja, do cálculo em sentido amplo, falar sobre a vizinhança entre de pensamento e poesia parece sempre muito suspeito.

O pensamento não é nenhum meio para o conhecimento. O pensamento abre sulcos no agro do ser.