quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Rio Abaixo: soneto de Olavo Bilac



Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pedro Kilkerry: trecho de um poema

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Monsieur Teste: Paul Valéry



Existem personagens que sentem que seus sentidos os separam do real, do ser. Esse sentido, neles, contamina seus outros sentidos.
O que vejo me cega. O que ouço me ensurdece. Aquilo que conheço me torna ignorante. Ignoro, em tudo e por tudo, que sei. Esta iluminação à minha frente é uma venda e recobre uma noite ou uma luz mais... Mais o quê? Nesse ponto, o círculo se fecha, com essa estranha reviravolta: o conhecimento, como uma nuvem sobre o ser; o mundo brilhante, como cegueira e opacidade.
Retirai todas as coisas para que eu veja.

trecho do livro Mousieur Teste
tradução: Cristina Murachco

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Bacanal: poema de Manuel Bandeira




Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
......................Evoé Baco!


Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo...
......................Evoé Momo!


Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
......................Evoé Vênus!


Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
......................Evoé Baco!


O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!...
.....................Evoé Momo!


A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
.....................Evoé Vênus!


Do livro Carnaval

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VIDA TODA LINGUAGEM: um poema de Mário Faustino




Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
.....................................como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
.....................................amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
....................................../ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
....................................língua
..............................................eterna.

2 "dos epigramas venezianos" de Goethe


Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.
***
Não te queres deitar nua ao meu lado, bem-amada;
Por vergonha te escondes de mim em tuas vestes.
Diz-me, o que cobiço? A tua roupa ou o teu corpo?
Vergonha: uma roupa que os amantes jogam fora.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Máscaras Africanas



Máscara referente à tribo Baule (Costa do Marfim)
Modelo de máscara para molde em bronze