quinta-feira, 11 de março de 2010

A mesa ao lado: poema de Konstantinos Kaváfis


Terá, quando muito, vinte e dois anos.
E no entanto estou certo de que, há quase tantos
anos passados, esse mesmo corpo eu desfrutei.

Não é, de modo algum, uma ilusão erótica.
E somente há pouco foi que entrei no cassino;
nem tive tempo de beber demais.
O mesmo corpo eu desfrutei.
Se não me lembro onde - não quer dizer que seja [esquecimento.

Ah, agora sim, que se sentou ali, na mesa ao lado,
reconheço cada movimento seu - e, para além das roupas,
eu os revejo, nus, os membros tão amados.

tradução José Paulo Paes

sábado, 6 de março de 2010

Foi para ti que criei as rosas: poema de Eugénio de Andrade



Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.


Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tão cedo passa tudo quanto passa - um poema de Ricardo Reis




Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
.............Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
.............E cala. O mais é nada.

*detalhe de um desenho feito por Almada Negreiros

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A dança e a pintura: Edgar Degas

Edgar Degas - Blue Dancers


Degas - Dancers in blue

Degas- Dancers

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Rio Abaixo: soneto de Olavo Bilac



Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pedro Kilkerry: trecho de um poema

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Monsieur Teste: Paul Valéry



Existem personagens que sentem que seus sentidos os separam do real, do ser. Esse sentido, neles, contamina seus outros sentidos.
O que vejo me cega. O que ouço me ensurdece. Aquilo que conheço me torna ignorante. Ignoro, em tudo e por tudo, que sei. Esta iluminação à minha frente é uma venda e recobre uma noite ou uma luz mais... Mais o quê? Nesse ponto, o círculo se fecha, com essa estranha reviravolta: o conhecimento, como uma nuvem sobre o ser; o mundo brilhante, como cegueira e opacidade.
Retirai todas as coisas para que eu veja.

trecho do livro Mousieur Teste
tradução: Cristina Murachco