terça-feira, 6 de abril de 2010

O sonho da argila: um poema de Thiago de Mello



O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro - e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
- permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto - em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.

Do livro Narciso Cego

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Pião: poema de Geir Campos


Quem te ensinou, pião, a simples arte
de girar e fazer do giro a vida,
vertical sobre o bico - único ponto
de teu corpo, no chão, a suportar-te?
Essa a tua verdade essencial:
como um homem cercado de mentiras,
buscas talvez em torno uma saída
que não achas; e assim debalde giras
num equilíbrio falso, que afinal
se rompe... e ao chão te entregas, todo, tonto.

Do livro Rosa dos Rumos.

quarta-feira, 31 de março de 2010

três fotografias de Paul Strand

Untitled
1915


White Fence
1916


Leaves II
1929



quinta-feira, 25 de março de 2010

A fruta: um poema de Antonio Miranda

A FRUTA


É a fruta madura
intumescente,
ejaculando
iridescente,
disseminando.

Fruta cortada,
ferida,
exalando provocações
irrecusáveis.

A fruta no prato,
o corpo na cama,
é o pranto que acalma,
é a natureza natimorta
que exorta
e clama.

Fruta colhida,
tolhida,
prostrada,
possuída,
aguardando a consumação.

É a fruta na mão.

segunda-feira, 22 de março de 2010

É quando estás de joelhos: poema de David Mourão-Ferreira


É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pelos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.

sábado, 20 de março de 2010

Poema de Rogel Samuel - Profissão: poeta


Depois eu gostaria de assumir como minha profissão: [poeta.
Quem é você?
Um poeta.
Que faz?
Escrevo versos.
Você vive disso?
Sim, vivo.
Quero dizer: você paga as suas contas com seus versos?
Ninguém tem que pagar para ser.
E por aí vai a questão.
Que é ser poeta? Como se define o ser?

Retirado do blog de Rogel Samuel

sexta-feira, 19 de março de 2010

Não indagues: poema de Horácio


Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber,
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
melhor é suportar
tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
corta a longa esperança,
que é breve nosso prazo de existência.
Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos