segunda-feira, 19 de abril de 2010

“The Embankment”: um poema de T.E. Hulme



Outrora, na delicadeza dos violinos descobri o êxtase,
No relâmpago dourado de tacões sobre o pavimento duro.
Agora vejo
Que o calor é a própria essência da poesia.
Ó, Deus, torna pequeno
O velho cobertor do céu, devorado de estrelas,
Para que nele possa envolver-me e jazer em conforto.

***

Once, in finesse of fiddles found I ecstasy,
In the flash of gold heels on the hard pavement.
Now see I
That warmth’s the very stuff of poesy.
Oh, God, make small
The old star-eaten blanket of the sky,
That I may fold it round me and in comfort lie.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um soneto de Pero de Andrade Caminha

Eu cantarei de amor tão novamente,
Se me ouve aquela de quem sempre canto,
Que de mim dor e magoa, e dela espanto
Terá a mais fera, inculta e dura gente.

E ela que assim tão crua e indignamente
Dura aos meus choros é, surda ao meu canto,
Algüa parte crerá (se não for tanto
Como eu desejo) do que esta alma sente.

Mas como esperarei achar piedade
De mim nem em mim mesmo, se ela nega
(Não peço brandos já) duros ouvidos?

Se nega um volver d'olhos, com que cega
A luz, e dá ao escuro claridade,
Como serão meus danos nunca cridos?


do livro: Antologia da Poesia Portuguesa
organização: Sheila Moura Hue

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O perfil dos minerais: um poema de Vítor Solteiro


(A meus pais)


calejadas pelo ardor do sal
as mãos
fincam na terra
o pomo da ternura


na progenitora lâmina
da enxada
elas desvelam
o perfil dos minerais

do blog: A Arquitetura das Palavras
"Paysan à la houe", quadro de Georges Seurat, 1882
Foto retirada daqui:
http://www.guggenheim.org/

terça-feira, 6 de abril de 2010

O sonho da argila: um poema de Thiago de Mello



O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro - e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
- permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto - em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.

Do livro Narciso Cego

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Pião: poema de Geir Campos


Quem te ensinou, pião, a simples arte
de girar e fazer do giro a vida,
vertical sobre o bico - único ponto
de teu corpo, no chão, a suportar-te?
Essa a tua verdade essencial:
como um homem cercado de mentiras,
buscas talvez em torno uma saída
que não achas; e assim debalde giras
num equilíbrio falso, que afinal
se rompe... e ao chão te entregas, todo, tonto.

Do livro Rosa dos Rumos.

quarta-feira, 31 de março de 2010

três fotografias de Paul Strand

Untitled
1915


White Fence
1916


Leaves II
1929



quinta-feira, 25 de março de 2010

A fruta: um poema de Antonio Miranda

A FRUTA


É a fruta madura
intumescente,
ejaculando
iridescente,
disseminando.

Fruta cortada,
ferida,
exalando provocações
irrecusáveis.

A fruta no prato,
o corpo na cama,
é o pranto que acalma,
é a natureza natimorta
que exorta
e clama.

Fruta colhida,
tolhida,
prostrada,
possuída,
aguardando a consumação.

É a fruta na mão.