quarta-feira, 28 de abril de 2010

Alberto Caeiro: Ontem à tarde

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.



(Mas eu mal o estava ouvindo
que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)



Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.



(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.


E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

domingo, 25 de abril de 2010

A rainha da tarde: um poema de Lêdo Ivo



Interrogo a terra
Responde a camélia
com sua fragrância
entranhada em pedra.
Interrogo o amor.
Fala o seio nu,
minha estrela eterna
suspensa na treva.
Interrogo a chuva.
E a resposta pende,
surdo candelabro
em lábios de musgo.
Aos sapos que moram
no úmido crepúsculo
e aos céus que devoram
os nossos resíduos,
a tudo que é coisa
ou forma vivente
oculta em couraça
ou véu transparente
pergunto e respondo.
E escondo o segredo
numa vagem úmida.
Do que se pergunta,
do que se responde,
só há de restar
teu riso exultante,
minha doce e branca
rainha da tarde,
tesouro guardado
em sua bainha.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poeiras na réstia: o novo livro de Everardo Norões

O poeta Everardo Norões publicou um novo livro, Poeiras na réstia (Rio de Janeiro: 7Letras). "Alimentando-se da prosa do mundo, os versos de Everardo Norões destacam-se pela forte visualidade e uma exuberância que nos surpreende através das frestas das palavras, dos pequenos detalhes. Sua poesia, livre, não deixa limitar pelo próprio estilo, arriscando-se na exploração de novas cores, novas vozes. Ela sublinha a existência daquilo que é pequeno e imperceptível, resgatando em versos a diferença, aquilo que se perderia no esquecimento, a poeira na réstia de luz. O livro também apresenta os poemas de Everardo traduzidos em espanhol, catalão, inglês, francês, italiano e em quéchua." (texto de apresentação do livro)
Confira o blog do escritor Everardo Norões: Retábulo de Jerônimo Bosch

segunda-feira, 19 de abril de 2010

“The Embankment”: um poema de T.E. Hulme



Outrora, na delicadeza dos violinos descobri o êxtase,
No relâmpago dourado de tacões sobre o pavimento duro.
Agora vejo
Que o calor é a própria essência da poesia.
Ó, Deus, torna pequeno
O velho cobertor do céu, devorado de estrelas,
Para que nele possa envolver-me e jazer em conforto.

***

Once, in finesse of fiddles found I ecstasy,
In the flash of gold heels on the hard pavement.
Now see I
That warmth’s the very stuff of poesy.
Oh, God, make small
The old star-eaten blanket of the sky,
That I may fold it round me and in comfort lie.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um soneto de Pero de Andrade Caminha

Eu cantarei de amor tão novamente,
Se me ouve aquela de quem sempre canto,
Que de mim dor e magoa, e dela espanto
Terá a mais fera, inculta e dura gente.

E ela que assim tão crua e indignamente
Dura aos meus choros é, surda ao meu canto,
Algüa parte crerá (se não for tanto
Como eu desejo) do que esta alma sente.

Mas como esperarei achar piedade
De mim nem em mim mesmo, se ela nega
(Não peço brandos já) duros ouvidos?

Se nega um volver d'olhos, com que cega
A luz, e dá ao escuro claridade,
Como serão meus danos nunca cridos?


do livro: Antologia da Poesia Portuguesa
organização: Sheila Moura Hue

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O perfil dos minerais: um poema de Vítor Solteiro


(A meus pais)


calejadas pelo ardor do sal
as mãos
fincam na terra
o pomo da ternura


na progenitora lâmina
da enxada
elas desvelam
o perfil dos minerais

do blog: A Arquitetura das Palavras
"Paysan à la houe", quadro de Georges Seurat, 1882
Foto retirada daqui:
http://www.guggenheim.org/

terça-feira, 6 de abril de 2010

O sonho da argila: um poema de Thiago de Mello



O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro - e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
- permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto - em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.

Do livro Narciso Cego