sábado, 15 de maio de 2010

Lembrança de uma tempestade e Amor: DOIS POEMAS DE LÊDO IVO

AMOR

Pouso a minha mão
na tua espádua;
e a noite se muda
em alvorada.

No mar passam navios
vagabundos:
haverei de levar-te
ao fim do mundo.

Um pássaro canta
seu canto de pássaro.
É dia ou é noite?

Jamais saberemos.
Luz e sombra unidas
na eterna aliança.



LEMBRANÇA DE UMA TEMPESTADE

Era um boteco imundo perto da Central.
Refugiei-me nele quando a tempestade
caiu sobre a cidade, entupindo os esgotos
e mudando a avenida em sujo lençol d´água.


Entre putas escrotas e burros-sem-rabo
eu escutava a chuva cair nos telhados.
Minha infância voltava, e era a velha música
imbecil de um piano sempre avariado.


O presente e o passado se uniam nas bátegas.
Os bueiros cantavam a canção urbana
da água escura impedida de escorrer nos cantos.


Pedi um sanduíche e um copo de cachaça.
Depois foi o céu claro e veio a nuvem branca.
E a luz do sol voltou a imperar na cidade.

Os dois poemas se encontram no livro Curral de Peixe.

domingo, 9 de maio de 2010

Para uma girafa: um poema de Marianne Moore


Se é ilícito, para não ser fatal
ser pessoal, e indesejável

ser literal - prejudicial também se
o olho não é inocente - quer dizer que

só se pode viver nas folhas mais altas
alcançável apenas pelo bicho mais alto? -

dos quais as girafas é o melhor exemplo
o animal inconvencional/inconversacional*.

Quando atormentada pelo psicologizável,
uma criatura que teria sido irresistível

pode ser insuportável;
ou, para ser exata, excepcional

ou menos convencional/conversacional
do que certos animais emaranhados no emocional.

......Afinal
as consolações da metafísica podem ser
profundas. Em Homero, a existência

é uma falha; a transcendência, condicional;
"a jornada do pecado à redenção, perpetual".

* Ana C. não se decidiu entre (in)convencional e (in)conversacional (versos 8 e 13)

tradução: Ana Cristina César

TO A GIRAFFE

If it is unpermissible, in fact fatal
to be personal and undesirable

to be literal — detrimental as well
if the eye is not innocent — does it mean that

one can live only on top leaves that are small
reachable only by a beast that is tall? —

of which the giraffe is the best example —
the unconversational animal.

When plagued by the psychological,
a creature can be unbearable

that could have been irresistible;
or to be exact, exceptional

since less conversational
than some emotionally-tied-in-knots animal.

....After all
consolations of the metaphysical
can be profound. In Homer, existenceis

flawed; transcendence, conditional;
“the journey from sin to redemption, perpetual.”

terça-feira, 4 de maio de 2010

Poema terciário: um poema de Domingos Carvalho da Silva

Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem. Um rio
banhava o rosto da aurora.
Cavalos já foram pombos
na madrugada de outrora.


Onde há florestas havia
golfos oblongos por onde
tranqüilos peixes corriam.
Uma lua alvissareira
passava à noite. E deixava
reticências de cometa
vagalumiando na relva
das margens, até a aurora
da Idade de Ouro do outrora,
quando cavalos alados
tinham estrelas nas crinas
alvas como asas de pombo.


O Verbo não existia.
Deus era incriado ainda.
Só as esponjas dormitavam
trespassadas por espadas
de água metálica, impoluta.
E as gaivotas planejavam
etapas estratosféricas
próximo às praias ibéricas.
E as montanhas desabavam
em estertores terciários,
em agonias de estrondo,
nas manhãs de sol atlântico,
quando cortavam as nuvens
– alvos garbosos eqüinos –
esquadrões marciais de pombos.


Teu cabelo era ainda musgo.
Teus olhos o corpo frio
de uma ostra semiviva.
E tua alma sempre-viva
Sobrenadava o oceano
qual uma estrela perdida.


Teu coração era concha
fechada e sem pulsação.
E teu gesto – que é teu riso –
era urn mineral estático
ainda não escavado
pelo mar duro e fleumático.

Cavalos já foram pombos.
E a prata que anda na garra
dos felinos, reluzia
em vibrações uterinas
no ventre da terra fria,
quando o dia era só aurora
e Deus sequer existia,
na madrugada do outrora.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Alberto Caeiro: Ontem à tarde

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.



(Mas eu mal o estava ouvindo
que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)



Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.



(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.


E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

domingo, 25 de abril de 2010

A rainha da tarde: um poema de Lêdo Ivo



Interrogo a terra
Responde a camélia
com sua fragrância
entranhada em pedra.
Interrogo o amor.
Fala o seio nu,
minha estrela eterna
suspensa na treva.
Interrogo a chuva.
E a resposta pende,
surdo candelabro
em lábios de musgo.
Aos sapos que moram
no úmido crepúsculo
e aos céus que devoram
os nossos resíduos,
a tudo que é coisa
ou forma vivente
oculta em couraça
ou véu transparente
pergunto e respondo.
E escondo o segredo
numa vagem úmida.
Do que se pergunta,
do que se responde,
só há de restar
teu riso exultante,
minha doce e branca
rainha da tarde,
tesouro guardado
em sua bainha.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poeiras na réstia: o novo livro de Everardo Norões

O poeta Everardo Norões publicou um novo livro, Poeiras na réstia (Rio de Janeiro: 7Letras). "Alimentando-se da prosa do mundo, os versos de Everardo Norões destacam-se pela forte visualidade e uma exuberância que nos surpreende através das frestas das palavras, dos pequenos detalhes. Sua poesia, livre, não deixa limitar pelo próprio estilo, arriscando-se na exploração de novas cores, novas vozes. Ela sublinha a existência daquilo que é pequeno e imperceptível, resgatando em versos a diferença, aquilo que se perderia no esquecimento, a poeira na réstia de luz. O livro também apresenta os poemas de Everardo traduzidos em espanhol, catalão, inglês, francês, italiano e em quéchua." (texto de apresentação do livro)
Confira o blog do escritor Everardo Norões: Retábulo de Jerônimo Bosch

segunda-feira, 19 de abril de 2010

“The Embankment”: um poema de T.E. Hulme



Outrora, na delicadeza dos violinos descobri o êxtase,
No relâmpago dourado de tacões sobre o pavimento duro.
Agora vejo
Que o calor é a própria essência da poesia.
Ó, Deus, torna pequeno
O velho cobertor do céu, devorado de estrelas,
Para que nele possa envolver-me e jazer em conforto.

***

Once, in finesse of fiddles found I ecstasy,
In the flash of gold heels on the hard pavement.
Now see I
That warmth’s the very stuff of poesy.
Oh, God, make small
The old star-eaten blanket of the sky,
That I may fold it round me and in comfort lie.