sábado, 19 de junho de 2010

CHOVE: poema de Ana Cristina César

A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Novembro 65. Do livro Inéditos e Dispersos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PEDRAS: um poema de Cecília Meireles


Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

do livro Poemas Escritos na Índia.

sábado, 12 de junho de 2010

Penuvens - Anibal Beça

Um broto de verde espiga
não se debulha à toa.
Se acaricia nas veias
da mão
o prenúncio do voo
a despedida do grão
para a boca de dizer
o espanto
descontado no canto.

Assim
A descoberta
Da leveza
Da palavra
Pluma
Irmã de pássaro
Ímã de poeta
verso implume.

Retirado de Revista de Literatura de Evaldo Ferreira

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Um trecho de Visões do Paraíso de Sergio Buarque de Holanda


"Com a sua ressalva de que, erigindo em escalão para piedosas empresas, como a da recuperação dos lugares santos em Jerusalém, ou para se alcançarem os verdadeiros bens do espírito, esse mesmo ouro, tão infamado pelos homens doutos e prudentes, se faria desejável e era até "excelentíssimo", justificava-se o móvel principal que levava às Índias numerosos aventureiros de todas as nações. Incapazes de atinar com o alcance das delicadezas, muitos irão dar um passo além, só lhes faltando, em verdade, canonizar a própria ganância (grifo meu). Ganância, não apenas de riquezas como ainda de honrarias, aparatos e glórias do mundo, que passam a constituir a meta constante do conquistador castelhano. E assim, até a ventura eterna vem a ter, muitas, para ele, a cor da própria cobiça, com o que se recobre o paraíso, em sua imaginação, de todas as galanterias terrenas".

Do livro Visões do Paraíso de Sergio Buarque de Holanda

sábado, 5 de junho de 2010

Floriano Martins: o poema REINO DE VERTIGENS

A Socorro Nunes

Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo:
noite saqueada por uma caravana de relâmpagos.
Despojos do tempo foragido de sua fonte,
minando abismos à deriva, perdas flutuantes.
O rosto deformado da beleza que as ruínas cultuam,
linguagem extraviada ao querer entrar em si.
Teu corpo e o meu em sua queda mais secreta.
Um labirinto que fosse um deserto e um deus
ciente que dali não há retorno. Fuga de trevas.
Os disfarces fatais da memória ante o infinito.
Indetíveis sombras caindo sobre o mundo.
Teu corpo e o meu: o que resta de um no outro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ferreira Gullar: o poema Tato




Na poltrona da sala
as mãos sob a nuca
    sinto nos dedos
    a dureza do osso da cabeça
    a seda dos cabelos
    que são meus

A morte é uma certeza invencível


    mas o tato me dá
    a consciente realidade
    de minha presença no mundo

Do livro Muitas Vozes



Após decidir postar esse poema de Ferreira Gullar no blog, encontrei esta fotografia do poeta na Internet. Não sei quem a registrou, não encontrei os créditos. Mas não pude deixar de ver a presença do poema nesta fotografia. Nela - assim como no poema - está a presença do tato em con(tato). Na leveza de sentir as mãos passarem o corpo, a consciência da realidade afirma a presença. Como um pintor sente a tinta sobre mão e assim sente a presença dele no mundo e vice-versa. A experiência táctil pode confirmar a "certeza invencível da morte" na ausência do corpo. No entanto, para além da morte, o tato nos dá a experiência imediata e plena "de minha presença no mundo", como a fotografia acima na qual o poeta (é minha leitura) não esconde o rosto, mas sente a si mesmo (enquanto presença) no tato que desliza sobre o rosto. (Jefferson Bessa)

sábado, 29 de maio de 2010

Merleau-Ponty: um trecho de O Olho e o Espírito



A visão do pintor não é mais um olhar sobre um exterior, relação "físico-óptica" (Paul Klee) somente com o mundo. O mundo não está mais diante dele por representação: antes, o pintor é que nasce nas coisas como por concentração e vinda a si do visível; e o quadro, finalmente, não se refere ao que quer que seja entre as coisas empíricas senão sob a condição de ser primeiramente "autofigurativo"; ele não é espetáculo de alguma coisa a não ser sendo "espetáculo de nada" (Ch. P. Bru), rebentando a "pele das coisas" (Henri Michaux) para mostrar como as coisas se fazem coisas e o mundo se faz mundo.

Do livro O Olho e o Espírito.