segunda-feira, 28 de junho de 2010

JOAQUIM CARDOZO: o poema Elegia dos pássaros voando


São muitos os que voam, os que voam
Tomando várias direções;
Pássaros noturnos, pássaros aquáticos.
Voam gaivotas, voam jacutingas,
Voam pernaltas, voam socó-bois. . .
Às vezes avançam em bandos cerrados
Fugindo da noite.


Voam garças em linhas cruzadas
Como se saíssem juntas de um ninho
Como se fossem pousar na esfera entrecortada
E fazer surgir um voo maior.



Voam garças ao alto
De agudo bico, como os das gaivotas.
Voam planando, as asas ao vento pairando.
Na retaguarda vem um voo mais alto
Seguindo os pássaros que passam.



As asas desse voo vão fugindo
Muito longe e muito altas.
No seu voo sereno
Há um canto de elegia:
A elegia dos pássaros voando.

Do livro O interior da matéria

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Duas fotografias de Ninil Gonçalves

Cachoeira
A Jefferson Bessa

Do blog Olhar Oblíquo de Ninil Gonçalves

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Poema de Hilton Valeriano

(Oswaldo Goeldi)


O EQUÍVOCO
A José Arnaldo

Tempo de dizer, que meias palavras não bastam.
Que o esforço resultou inútil.

Tempo de dizer, que o abraço não se fez cálido,
e sim amargo, hostil.

Tempo de dizer, que tampouco há esperança.
Vivemos e não somos recompensados.

O desamparo consome a relutância
daqueles que persistem.

Os dias perduram no pó de contradições.
Juntas elas formam o equívoco da vida.

Do blog Poesia Diversa de Hilton Valeriano

terça-feira, 22 de junho de 2010

Josef Sudek: fotografias "Da janela de meu atelier"







Fotografias de Josef Sudek que se organizam com o título "From de window of my atelier".

sábado, 19 de junho de 2010

CHOVE: poema de Ana Cristina César

A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Novembro 65. Do livro Inéditos e Dispersos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PEDRAS: um poema de Cecília Meireles


Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

do livro Poemas Escritos na Índia.

sábado, 12 de junho de 2010

Penuvens - Anibal Beça

Um broto de verde espiga
não se debulha à toa.
Se acaricia nas veias
da mão
o prenúncio do voo
a despedida do grão
para a boca de dizer
o espanto
descontado no canto.

Assim
A descoberta
Da leveza
Da palavra
Pluma
Irmã de pássaro
Ímã de poeta
verso implume.

Retirado de Revista de Literatura de Evaldo Ferreira