domingo, 25 de julho de 2010

"de amor ardem os bosques": poema de Maria Azenha

não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra flama se o teu coração não arder

guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
a um poeta é reservado


o alfabeto
uma árvore
o fogo

Este poema está no livro "de amor ardem os bosques" de Maria Azenha no capítulo (ou "a segunda folha", conforme o índice do livro informa ) "a ciência dos bosques". Agradeço o envio do livro. Foi um belo passeio pelo Bosque de variados bosques presentes nos poemas. Por entre o coração e a ciência destes bosques, por entre as sombras e as clareiras, os poemas experimentam caminhos que se abriram ao homem na sua trajetória pelo Bosque que é o Mundo. Assim, o livro harmoniza o que comumente se dissocia: ciência e coração, sombra e luzes. Na tradição do símbolo do bosque, Maria Azenha compõe uma caminhada em que todos estes bosques se conciliam. (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

vinolência: um poema de Luiz Filho de Oliveira


tomo-te em meus braços
a boca vinosa: sangue
bem tinto a vidar-me

já tu me-tomaste
de branca surpresa - tanto! -
que te-encontras tonta





Poema retirado do blog Deleitura de Luiz Filho de Oliveira. Recentemente lançou o livro de poesias Onde Humano.

Para quem quiser visitar o espaço: CLIQUE AQUI.

sábado, 17 de julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

FIGURA MÉTRICA: poema de William Carlos Williams



Há um pássaro entre os choupos -
É o sol!
As folhas são pequenos peixes amarelos
Nadando no rio;
O pássaro voa roçando sobre eles
Com o dia nas asas.
Fênix!
É ele que está produzindo
O intenso coruscar entre os choupos
E é o seu canto
Que ofusca o rumor

Das folhas no vento.

tradução: Joaquim Cardozo

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Morre o poeta ROBERTO PIVA: Homenagem e dois poemas

O poeta Roberto Piva morreu no último sábado (dia 03) em São Paulo, aos 72 anos. Os poemas abaixo Transformando o horizonte e Antinous estão no livro Mala na mão & asas pretas de Roberto Piva.

Transformando o horizonte

o espaço
....em
........teu braço
abre o passo
........corta o traço
no canto da boca
....olho & escuto
.......teu soluço
...........encantado
molhando
....os cabelos
.......te espero na garoa
............da cidade.
_____________________
Antinous
(movimento de árvores)

são questões
...................terça-feira eu prefiro você bem
.................................................................louco
...................minha palavra & nada que você acredita
...................poderá acontecer: ostras olhos injetados Hegel
...........durma com suas violetas de subúrbio
.......................................a cidade tosse como
.......................................um índio com febre
São Paulo acorda em suas coxas
...........................docemente
.......banho quente com vapor
............em espiral flocos de
............samambaias eróticas
assim que você espreguiçar eu estarei
........................................sangrando

sexta-feira, 2 de julho de 2010

MENINO: um poema de Joan Teixidor


Todos os jardins se fizeram para ti
e as flores, as pedras.
Não tentes saber mais, contempla
a luz pendurada na árvore.

Quando grande, não te lembrarás
desta paz divina.
Mas uma obscura saudade haverá no desejo
do que agora te sobra.

*tradução João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 28 de junho de 2010

JOAQUIM CARDOZO: o poema Elegia dos pássaros voando


São muitos os que voam, os que voam
Tomando várias direções;
Pássaros noturnos, pássaros aquáticos.
Voam gaivotas, voam jacutingas,
Voam pernaltas, voam socó-bois. . .
Às vezes avançam em bandos cerrados
Fugindo da noite.


Voam garças em linhas cruzadas
Como se saíssem juntas de um ninho
Como se fossem pousar na esfera entrecortada
E fazer surgir um voo maior.



Voam garças ao alto
De agudo bico, como os das gaivotas.
Voam planando, as asas ao vento pairando.
Na retaguarda vem um voo mais alto
Seguindo os pássaros que passam.



As asas desse voo vão fugindo
Muito longe e muito altas.
No seu voo sereno
Há um canto de elegia:
A elegia dos pássaros voando.

Do livro O interior da matéria