quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Canção da Laranjeira Seca: poema de Federico Garcia Lorca


LENHADOR,
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

....Por que nasci entre espelhos?
O dia dá voltas em meu redor.
E a noite me copia
em todas as suas estrelas.

....Quero viver sem ver-me.
E formigas e vilões,
sonharei que são minhas
folhas e meus pássaros.

....Lenhador.
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

Do livro Canções.
Tradução: William Agel de Melo

domingo, 8 de agosto de 2010

Chico Buarque: Paratodos


O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano/ Meu maestro soberano/ Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro/ Quem soprou esta toada/ Que cobri de redondilhas/ Pra seguir minha jornada / E com a vista enevoada/ Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas / A viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro / Contra fel, moléstia, crime / Use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro / Bandoleiros, vi hospícios / Moças feito passarinho / Avoando de edifícios / Fume Ari, cheire Vinícius / Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho / Contra a solidão agreste / Luiz Gonzaga é tiro certo / Pixinguinha é inconteste / Tome Noel, Cartola, Orestes / Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto / Gil e Hermeto, palmas para / Todos os instrumentistas / Salve Edu, Bituca, Nara / Gal, Bethania, Rita, Clara / Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano/ Vou na estrada há muitos anos/ Sou um artista brasileiro


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

três fotografias de Ansel Adams

Birds on a Beach, Evening,
1966
Road,
Nevada Desert

Lake MacDonald,
Glacier National Park
1942


Aspens,
Northern New Mexico
1958

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pássaro na vidraça: poema de Everardo Norões


súbita pulsação
na vidraça
luz
na lágrima parada
entre espaços
onde tudo se dissolve
(ínfima poeira
nas Galáxias)
uma
vertiginosa flor
explodida
dentro
de si
mesma
Do livro Poeiras na Réstia.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um dia de primavera: um poema do chinês LI PO

Li Po entoando um poema
(Liang K'ai, meados do século XIII, tinta sobre papel)

Nossa vida no mundo é apenas um grande sonho.
Então, para que nos atormentarmos?
Prefiro beber o dia inteiro,
e ficar deitado à sombra.

Ao acordar, olho em redor:
um pássaro gorjeia entre as flores.
Rogo-lhe que me informe
sobre a estação do ano, e ele responde
que estamos na época em que a primavera
faz cantarem os pássaros.

Como principiava a enternecer-me,
recomecei a beber,
cantei até a lua chegar
e de novo tornei a perder a noção das coisas.


tradução de Cecília Meireles

domingo, 25 de julho de 2010

"de amor ardem os bosques": poema de Maria Azenha

não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra flama se o teu coração não arder

guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
a um poeta é reservado


o alfabeto
uma árvore
o fogo

Este poema está no livro "de amor ardem os bosques" de Maria Azenha no capítulo (ou "a segunda folha", conforme o índice do livro informa ) "a ciência dos bosques". Agradeço o envio do livro. Foi um belo passeio pelo Bosque de variados bosques presentes nos poemas. Por entre o coração e a ciência destes bosques, por entre as sombras e as clareiras, os poemas experimentam caminhos que se abriram ao homem na sua trajetória pelo Bosque que é o Mundo. Assim, o livro harmoniza o que comumente se dissocia: ciência e coração, sombra e luzes. Na tradição do símbolo do bosque, Maria Azenha compõe uma caminhada em que todos estes bosques se conciliam. (Jefferson Bessa)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

vinolência: um poema de Luiz Filho de Oliveira


tomo-te em meus braços
a boca vinosa: sangue
bem tinto a vidar-me

já tu me-tomaste
de branca surpresa - tanto! -
que te-encontras tonta





Poema retirado do blog Deleitura de Luiz Filho de Oliveira. Recentemente lançou o livro de poesias Onde Humano.

Para quem quiser visitar o espaço: CLIQUE AQUI.