quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FUI: um poema de Konstantinos Kaváfis


Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que em parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi então vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
tradução: José Paulo Paes

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vibrações Do Sol: um poema de Gilka Machado




Dias em que framindo os meus versos estão,
em que estranho meu ser passivo e cismarento;
dias em que meu corpo é uma palpitação
de asas, da natureza ante o deslumbramento!

Numa dia, assim, como este, os meus tédios se vão,
e ao céu de escampo azul e ao Sol de ardor violento
eu só quero sentir a forte vibração
da vida, num prazer ou mesmo num tormento.

Saem dos lábios meus as expressões em trovas;
quero viver, gozar emoções muito novas,
amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal.

E, numa agitação de anseios incontidos,
nestes dias de Sol, os meus cinco sentidos
são aves ensaiando o voo para o Ideal.

Do livro Estado de Alma.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Canção da Laranjeira Seca: poema de Federico Garcia Lorca


LENHADOR,
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

....Por que nasci entre espelhos?
O dia dá voltas em meu redor.
E a noite me copia
em todas as suas estrelas.

....Quero viver sem ver-me.
E formigas e vilões,
sonharei que são minhas
folhas e meus pássaros.

....Lenhador.
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

Do livro Canções.
Tradução: William Agel de Melo

domingo, 8 de agosto de 2010

Chico Buarque: Paratodos


O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano/ Meu maestro soberano/ Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro/ Quem soprou esta toada/ Que cobri de redondilhas/ Pra seguir minha jornada / E com a vista enevoada/ Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas / A viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro / Contra fel, moléstia, crime / Use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro / Bandoleiros, vi hospícios / Moças feito passarinho / Avoando de edifícios / Fume Ari, cheire Vinícius / Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho / Contra a solidão agreste / Luiz Gonzaga é tiro certo / Pixinguinha é inconteste / Tome Noel, Cartola, Orestes / Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto / Gil e Hermeto, palmas para / Todos os instrumentistas / Salve Edu, Bituca, Nara / Gal, Bethania, Rita, Clara / Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano/ Vou na estrada há muitos anos/ Sou um artista brasileiro


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

três fotografias de Ansel Adams

Birds on a Beach, Evening,
1966
Road,
Nevada Desert

Lake MacDonald,
Glacier National Park
1942


Aspens,
Northern New Mexico
1958

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pássaro na vidraça: poema de Everardo Norões


súbita pulsação
na vidraça
luz
na lágrima parada
entre espaços
onde tudo se dissolve
(ínfima poeira
nas Galáxias)
uma
vertiginosa flor
explodida
dentro
de si
mesma
Do livro Poeiras na Réstia.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um dia de primavera: um poema do chinês LI PO

Li Po entoando um poema
(Liang K'ai, meados do século XIII, tinta sobre papel)

Nossa vida no mundo é apenas um grande sonho.
Então, para que nos atormentarmos?
Prefiro beber o dia inteiro,
e ficar deitado à sombra.

Ao acordar, olho em redor:
um pássaro gorjeia entre as flores.
Rogo-lhe que me informe
sobre a estação do ano, e ele responde
que estamos na época em que a primavera
faz cantarem os pássaros.

Como principiava a enternecer-me,
recomecei a beber,
cantei até a lua chegar
e de novo tornei a perder a noção das coisas.


tradução de Cecília Meireles