quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Marianne Moore: Poesia





POESIA


Também não gosto.

........Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a

........................[ gente acaba descobrindo

nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.



Tradução de José Antonio Arantes

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O pequeno vagabundo: um poema de William Blake

Oh mãe querida, mãe querida, a Igreja é fria
Mas doce e quente e boa é a Cervejaria;
Onde há bom trato ao certo sei dizer esperto,
E esse trato no Céu jamais irá dar certo.


Mas se dessem cerveja a nós lá na Igreja,
E uma doce fogueira, às almas benfazejas,
Cantar e orar se iria quanto é longo o dia
E da Igreja ninguém jamais se afastaria.

O Padre então rezar, beber, cantar pudera,
Quais pássaros seríamos na primavera;
E teria a Ilusão, na Igreja em prontidão,
Prole mais forte, sem jejum e sem bastão.

E, como um pai radiante ao ver os filhos seus
Contentes e felizes tal como Ele, Deus,
Concedendo quartel ao Diabo, ou ao tonel,
Dar-lhe-ia um beijo, e mais bebida, e mais burel.

tradução: Paulo Vizioli

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Monstros: um poema de Dámaso Alonso


Todos os dias rezo esta oração
quando me levanto:

Oh Deus,
Não me atormente mais.

Diga-me o que significam
estes espantos que me rodeiam.
Cercado estou de monstros
que mudamente me perguntam
igual, igual a mim quando os interrogo.
Talvez a você perguntem,
o mesmo que eu quando em vão perturbo
o silêncio da sua imperturbável noite
com minha desgarrada interrogação.
Sob a penumbra das estrelas
sob a terrível obscuridade da luz solar,
espreitam-me olhos inimigos,
formas grotescas me vigiam
cores hostis me estendem
os laços:
são monstros,
estou cercado de monstros!

Não me devorem.
Devorem meu repouso ofegante
me façam ser uma angústia que se desenrola a si mesma
me façam homem,
monstro entre monstros.

Não, ninguém tão horrível
como este Dámaso frenético
como esta centopeia amarela que o clama com todos os [
tentáculos enlouquecidos,
como esta besta imediata
difundida em angústia fluente;
não, ninguém tão monstruoso
como este animal estúpido que ruge por você
como esta dilacerada incógnita
que agora o repreende com articulados gemidos,
que agora o diz:
“Oh Deus,
não me atormente mais,
diga-me o que significam
estes monstros que me rodeiam
E este espanto íntimo que à noite geme para você.
tradução: Jefferson Bessa

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FUI: um poema de Konstantinos Kaváfis


Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que em parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi então vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
tradução: José Paulo Paes

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vibrações Do Sol: um poema de Gilka Machado




Dias em que framindo os meus versos estão,
em que estranho meu ser passivo e cismarento;
dias em que meu corpo é uma palpitação
de asas, da natureza ante o deslumbramento!

Numa dia, assim, como este, os meus tédios se vão,
e ao céu de escampo azul e ao Sol de ardor violento
eu só quero sentir a forte vibração
da vida, num prazer ou mesmo num tormento.

Saem dos lábios meus as expressões em trovas;
quero viver, gozar emoções muito novas,
amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal.

E, numa agitação de anseios incontidos,
nestes dias de Sol, os meus cinco sentidos
são aves ensaiando o voo para o Ideal.

Do livro Estado de Alma.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Canção da Laranjeira Seca: poema de Federico Garcia Lorca


LENHADOR,
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

....Por que nasci entre espelhos?
O dia dá voltas em meu redor.
E a noite me copia
em todas as suas estrelas.

....Quero viver sem ver-me.
E formigas e vilões,
sonharei que são minhas
folhas e meus pássaros.

....Lenhador.
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

Do livro Canções.
Tradução: William Agel de Melo

domingo, 8 de agosto de 2010

Chico Buarque: Paratodos


O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano/ Meu maestro soberano/ Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro/ Quem soprou esta toada/ Que cobri de redondilhas/ Pra seguir minha jornada / E com a vista enevoada/ Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas / A viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro / Contra fel, moléstia, crime / Use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro / Bandoleiros, vi hospícios / Moças feito passarinho / Avoando de edifícios / Fume Ari, cheire Vinícius / Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho / Contra a solidão agreste / Luiz Gonzaga é tiro certo / Pixinguinha é inconteste / Tome Noel, Cartola, Orestes / Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto / Gil e Hermeto, palmas para / Todos os instrumentistas / Salve Edu, Bituca, Nara / Gal, Bethania, Rita, Clara / Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano/ Vou na estrada há muitos anos/ Sou um artista brasileiro