domingo, 26 de setembro de 2010

A UMA FÁBRICA FECHADA: UM POEMA DE DOMINGOS CARVALHO DA SILVA


Atrás da pele de tuas paredes
os êmbolos dormem
e há nas sirenes um silêncio
de horizonte.
Os dínamos guardam o repouso
dos minerais ocultos,
as alavancas dobram os joelhos da laje.
Nas veias de cobre
o sangue é apenas um caminho de luz.

Quieta,
és como um esqueleto montado,
vazio de vozes humanas,
planeta morto.

Quieta
és uma pedra apenas, e em tua superfície
morre de inanição a última raiz do musgo.

Do livro À Margem do Tempo

domingo, 19 de setembro de 2010

Elegia: um poema de Geir Campos


Quando se evolará da argila o sopro
que me faculta o gesto leviano?
Se um deus mo prometeu, outro mais alto
o aniquilou sob um destino humano.
Mais grave que a vaidade relativa
de ser estátua e ser máquina viva,
já pesa em mim o exílio dos espaços
chumbando os membros cada vez mais lassos:
a máxima viagem fora aquela
que devolvesse à terra a carne morna,
para eu fundir meu encontro maior na
sua frieza e reintegrar-me nela.
Do livro Arquipélago

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Marianne Moore: Poesia





POESIA


Também não gosto.

........Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a

........................[ gente acaba descobrindo

nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.



Tradução de José Antonio Arantes

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O pequeno vagabundo: um poema de William Blake

Oh mãe querida, mãe querida, a Igreja é fria
Mas doce e quente e boa é a Cervejaria;
Onde há bom trato ao certo sei dizer esperto,
E esse trato no Céu jamais irá dar certo.


Mas se dessem cerveja a nós lá na Igreja,
E uma doce fogueira, às almas benfazejas,
Cantar e orar se iria quanto é longo o dia
E da Igreja ninguém jamais se afastaria.

O Padre então rezar, beber, cantar pudera,
Quais pássaros seríamos na primavera;
E teria a Ilusão, na Igreja em prontidão,
Prole mais forte, sem jejum e sem bastão.

E, como um pai radiante ao ver os filhos seus
Contentes e felizes tal como Ele, Deus,
Concedendo quartel ao Diabo, ou ao tonel,
Dar-lhe-ia um beijo, e mais bebida, e mais burel.

tradução: Paulo Vizioli

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Monstros: um poema de Dámaso Alonso


Todos os dias rezo esta oração
quando me levanto:

Oh Deus,
Não me atormente mais.

Diga-me o que significam
estes espantos que me rodeiam.
Cercado estou de monstros
que mudamente me perguntam
igual, igual a mim quando os interrogo.
Talvez a você perguntem,
o mesmo que eu quando em vão perturbo
o silêncio da sua imperturbável noite
com minha desgarrada interrogação.
Sob a penumbra das estrelas
sob a terrível obscuridade da luz solar,
espreitam-me olhos inimigos,
formas grotescas me vigiam
cores hostis me estendem
os laços:
são monstros,
estou cercado de monstros!

Não me devorem.
Devorem meu repouso ofegante
me façam ser uma angústia que se desenrola a si mesma
me façam homem,
monstro entre monstros.

Não, ninguém tão horrível
como este Dámaso frenético
como esta centopeia amarela que o clama com todos os [
tentáculos enlouquecidos,
como esta besta imediata
difundida em angústia fluente;
não, ninguém tão monstruoso
como este animal estúpido que ruge por você
como esta dilacerada incógnita
que agora o repreende com articulados gemidos,
que agora o diz:
“Oh Deus,
não me atormente mais,
diga-me o que significam
estes monstros que me rodeiam
E este espanto íntimo que à noite geme para você.
tradução: Jefferson Bessa

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FUI: um poema de Konstantinos Kaváfis


Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que em parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi então vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
tradução: José Paulo Paes

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vibrações Do Sol: um poema de Gilka Machado




Dias em que framindo os meus versos estão,
em que estranho meu ser passivo e cismarento;
dias em que meu corpo é uma palpitação
de asas, da natureza ante o deslumbramento!

Numa dia, assim, como este, os meus tédios se vão,
e ao céu de escampo azul e ao Sol de ardor violento
eu só quero sentir a forte vibração
da vida, num prazer ou mesmo num tormento.

Saem dos lábios meus as expressões em trovas;
quero viver, gozar emoções muito novas,
amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal.

E, numa agitação de anseios incontidos,
nestes dias de Sol, os meus cinco sentidos
são aves ensaiando o voo para o Ideal.

Do livro Estado de Alma.