sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os gatos: um poema de Charles Baudelaire




Os amantes febris e os sábios solitários
Amam de modo igual, na idade da razão,
Os doces e orgulhosos gatos da mansão,
Que como eles têm frio e cismam sedentários.

Amigos da volúpia e devotos da ciência,
Buscam eles o horror da treva e dos mistérios;
Tomara-os Érebo por seus corcéis funéreos,
Se a submissão pudera opor-lhes à insolência.

Sonhando eles assumem a nobre atitude
Da esfinge que no além se funde à infinitude,
Como ao sabor de um sonho que jamais termina;

Os rins em mágicas fagulhas se distendem,
E partículas de ouro, como areia fina,
Suas graves pupilas vagamente acendem.

Do livro As flores do mal
tradução: Ivan Junqueira

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mário de Sá-Carneiro: o poema FIM




Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

MINOR WHITE: duas fotografias

estrada e álamos (1955)


celeiro e nuvens (1955)

domingo, 26 de setembro de 2010

A UMA FÁBRICA FECHADA: UM POEMA DE DOMINGOS CARVALHO DA SILVA


Atrás da pele de tuas paredes
os êmbolos dormem
e há nas sirenes um silêncio
de horizonte.
Os dínamos guardam o repouso
dos minerais ocultos,
as alavancas dobram os joelhos da laje.
Nas veias de cobre
o sangue é apenas um caminho de luz.

Quieta,
és como um esqueleto montado,
vazio de vozes humanas,
planeta morto.

Quieta
és uma pedra apenas, e em tua superfície
morre de inanição a última raiz do musgo.

Do livro À Margem do Tempo

domingo, 19 de setembro de 2010

Elegia: um poema de Geir Campos


Quando se evolará da argila o sopro
que me faculta o gesto leviano?
Se um deus mo prometeu, outro mais alto
o aniquilou sob um destino humano.
Mais grave que a vaidade relativa
de ser estátua e ser máquina viva,
já pesa em mim o exílio dos espaços
chumbando os membros cada vez mais lassos:
a máxima viagem fora aquela
que devolvesse à terra a carne morna,
para eu fundir meu encontro maior na
sua frieza e reintegrar-me nela.
Do livro Arquipélago

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Marianne Moore: Poesia





POESIA


Também não gosto.

........Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a

........................[ gente acaba descobrindo

nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.



Tradução de José Antonio Arantes

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O pequeno vagabundo: um poema de William Blake

Oh mãe querida, mãe querida, a Igreja é fria
Mas doce e quente e boa é a Cervejaria;
Onde há bom trato ao certo sei dizer esperto,
E esse trato no Céu jamais irá dar certo.


Mas se dessem cerveja a nós lá na Igreja,
E uma doce fogueira, às almas benfazejas,
Cantar e orar se iria quanto é longo o dia
E da Igreja ninguém jamais se afastaria.

O Padre então rezar, beber, cantar pudera,
Quais pássaros seríamos na primavera;
E teria a Ilusão, na Igreja em prontidão,
Prole mais forte, sem jejum e sem bastão.

E, como um pai radiante ao ver os filhos seus
Contentes e felizes tal como Ele, Deus,
Concedendo quartel ao Diabo, ou ao tonel,
Dar-lhe-ia um beijo, e mais bebida, e mais burel.

tradução: Paulo Vizioli