quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

o poema TAREFA de Geir Campos


Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas imutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar -
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
do livro Canto Claro.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um soneto de Camões




Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Poesia Pura de Mário Quintana


A poesia pura? coisa tão impossível como a imaginação pura.
Ambas se compõem de resíduos, detritos, restos de maré vazante...
Mas sabe lá o que pode um mágico extrair daí!
E a imponente, luzente cartola desses prestidigitadores de palco é apenas um pobre símbolo da maravilhosa lata de lixo dos Grandes e Verdadeiros Magos.

Da Preguiça como Método de Trabalho (1987).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

em meta tua nua linguagem poética: um poema de Luiz Filho de Oliveira

sem oralidade: em fala de pedra
me-implicito-em-teus-ângulos-explícitos
com minha língua paisagem

como nenhum poeta ou bardo
em cantos canto algum ou carme
ousou poamá-los por lira tal

faço-o em oraliginalidade
de quando a onde: agoraqui
com linguadas de linguagem


Do blog DELEITURA

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A flor e a empregada de Dade Amorim




Minha patroa insiste
: da flor a água se muda todo dia.
O dia todo ela fala
(sua voz me cansa o ouvido)
a flor não muda e repete
que mude a água da flor
esquecida em sua jarra.

A flor tem que ter sua muda
toda semana
(ela nem ouve
as coisas que eu resmungo).
Se a flor da jarra não muda
a flor perde todo viço
eu sempre aviso
(prefiro o lado da flor
que ao menos sofre calada)
– e a flor cada vez mais triste.

Ela diz que é minha a culpa
ainda que eu mude a água
e ela se esqueça da flor.

A flor já não resiste
e morre
cabisbaixa.

Dia desses não aguento
me livro de flor e jarra
e procuro uma patroa
que entenda tanto de flores
quanto eu.


Do blog: Inscrições

domingo, 31 de outubro de 2010

Jorge Luis Borges

Suspeitei muitas vezes que o sentido é, na verdade, algo acrescentado ao verso. Tenho plena convicção de que sentimos a beleza de um verso antes mesmo de começarmos a pensar num sentido (...). O que quero dizer é que não precisamos nos comprometer com um sentido.

Retirado de Pensamento e Poesia. p.89

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Walt Whitman: "Vós, tardias e esparsas folhas de mim"


Vós, tardias e esparsas folhas de mim em ramos do inverno que [se aproxima,
E eu uma bem aparada árvore do campo ou de uma fileira de [pomar;
Vós, lembranças diminutas e abandonadas - (não a brotação de [maio, ou o florescimento do trevo de julho - não o grão de [agosto agora);
Vós, pálidas ripas de bandeira - vós, estandardes sem valor - vós [que ficais além do tempo,
Contudo, minhas folhas queridas do coração, todo o resto [confirmando,
As mais fiéis - as mais firmes - permanecem.
tradução: Luciano Alves Meira