segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Edward Hopper: três pinturas


The window night


Room in Brooklyn


The hotel room

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um poema de San Juan de La Cruz

Esposa

Ah! onde te escondeste,
Amado, e me deixaste este gemido?
Como o cervo correste,
havendo-me ferido;
saí por ti clamando, e eras já ido.

Pastores que subirdes
às malhadas, além, galgando o morro:
se a quem mais quero virdes,
pedi-lhe por socorro,
dizei-lhe que adoeço, peno e morro.

Buscando meus amores,
irei por entre montes e ribeiras;
não colherei as flores,
passarei sem temores
pelas feras e fortes e fronteiras.


De cântico espiritual
trad. Anderson Braga Horta

domingo, 2 de janeiro de 2011

IT'S BETTER TO BE HAPPY: um poema de Paulo Mendes Campos




Sentada às vezes sobre a relva boa
Ia rever os álbuns de pintura,
Amava a criação e a pintura
Com seus olhos de amor que amar perdoa.

Se o relógio cantava no salão,
Levava susto e ria-se depois:
A manga é para mim, para nós dois
O roseiral, a rede, o sol, o pão

Pela manhã, saltando na piscina,
Aos saltos acordava o sapo-boi;
E tempo-que-será, tempo-que-foi
Davam-se as mãos dançando na colina.

Do livro A palavra escrita.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um poema de Eugénio de Andrade


Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
onde as mãos correram inocentes,
o silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.

Do livro Matéria Solar

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Nada que É: um poema de João Cabral de Melo Neto


Um canavial tem a extensão
ante a qual todo metro é vão.

Tem o escancarado do mar
que existe para desafiar

que números e seus afins
possam prendê-lo nos seus sins.

Ante um canavial a medida
métrica é de todo esquecida,

porque embora todo povoado
povoa-o o pleno anonimato

que dá esse efeito singular:
de um nada prenhe como um mar.
do livro Agrestes.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Uma passagem de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa






"Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! - só estava era entretido nas idéias dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?"

Trecho de "Grande Sertão: Veredas". p.26

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

o poema TAREFA de Geir Campos


Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas imutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar -
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
do livro Canto Claro.