quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Torrencial: um poema de Lara Amaral



Olhos goticulados pela chuva no vidro

a folha não agüenta o peso da água
[desprende-se

o telhado não suporta a queda do céu
[desaba

o mundo cai lá fora
e os olhos nem piscam
a atenção é toda deles

até os gritos histéricos
do quarto ao lado
são abafados

a noite troveja alto

os ouvidos morrem em paz.


Retirado do blog de Lara Amaral.
Nota: Segundo Lara, o poema não foi inspirado no atual desastre no RJ.
Fotografia encontrada na net sem créditos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MEIO-DIA: um poema de Li Po





As nuvens são leves, o vento é sereno, aproxima-se o meio-dia.
Diante das flores, um regato corre, ao longo dos álamos.
Os homens não podem compreender a alegria que transborda do [meu coração
e dizem que estou alegre sem motivo, como uma criança.


tradução Cecília Meireles

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Árvore de Frutos: um poema do angolano António Cardoso


Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.

Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!

(No reino de Caliban II - antologia)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Edward Hopper: três pinturas


The window night


Room in Brooklyn


The hotel room

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um poema de San Juan de La Cruz

Esposa

Ah! onde te escondeste,
Amado, e me deixaste este gemido?
Como o cervo correste,
havendo-me ferido;
saí por ti clamando, e eras já ido.

Pastores que subirdes
às malhadas, além, galgando o morro:
se a quem mais quero virdes,
pedi-lhe por socorro,
dizei-lhe que adoeço, peno e morro.

Buscando meus amores,
irei por entre montes e ribeiras;
não colherei as flores,
passarei sem temores
pelas feras e fortes e fronteiras.


De cântico espiritual
trad. Anderson Braga Horta

domingo, 2 de janeiro de 2011

IT'S BETTER TO BE HAPPY: um poema de Paulo Mendes Campos




Sentada às vezes sobre a relva boa
Ia rever os álbuns de pintura,
Amava a criação e a pintura
Com seus olhos de amor que amar perdoa.

Se o relógio cantava no salão,
Levava susto e ria-se depois:
A manga é para mim, para nós dois
O roseiral, a rede, o sol, o pão

Pela manhã, saltando na piscina,
Aos saltos acordava o sapo-boi;
E tempo-que-será, tempo-que-foi
Davam-se as mãos dançando na colina.

Do livro A palavra escrita.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um poema de Eugénio de Andrade


Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
onde as mãos correram inocentes,
o silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.

Do livro Matéria Solar