sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A ROSA: um poema de Hölderlin


    Suave irmã!
    Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
    Pois de mim terá partido o espírito da vida;
      Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
        As flores no campo escalvado,
          E não te achar.

Poema inserido no capítulo "Planos e fragmentos" do livro Hölderlin- Poemas
Tradução de Paulo Quintela.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Torrencial: um poema de Lara Amaral



Olhos goticulados pela chuva no vidro

a folha não agüenta o peso da água
[desprende-se

o telhado não suporta a queda do céu
[desaba

o mundo cai lá fora
e os olhos nem piscam
a atenção é toda deles

até os gritos histéricos
do quarto ao lado
são abafados

a noite troveja alto

os ouvidos morrem em paz.


Retirado do blog de Lara Amaral.
Nota: Segundo Lara, o poema não foi inspirado no atual desastre no RJ.
Fotografia encontrada na net sem créditos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MEIO-DIA: um poema de Li Po





As nuvens são leves, o vento é sereno, aproxima-se o meio-dia.
Diante das flores, um regato corre, ao longo dos álamos.
Os homens não podem compreender a alegria que transborda do [meu coração
e dizem que estou alegre sem motivo, como uma criança.


tradução Cecília Meireles

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Árvore de Frutos: um poema do angolano António Cardoso


Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.

Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!

(No reino de Caliban II - antologia)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Edward Hopper: três pinturas


The window night


Room in Brooklyn


The hotel room

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um poema de San Juan de La Cruz

Esposa

Ah! onde te escondeste,
Amado, e me deixaste este gemido?
Como o cervo correste,
havendo-me ferido;
saí por ti clamando, e eras já ido.

Pastores que subirdes
às malhadas, além, galgando o morro:
se a quem mais quero virdes,
pedi-lhe por socorro,
dizei-lhe que adoeço, peno e morro.

Buscando meus amores,
irei por entre montes e ribeiras;
não colherei as flores,
passarei sem temores
pelas feras e fortes e fronteiras.


De cântico espiritual
trad. Anderson Braga Horta

domingo, 2 de janeiro de 2011

IT'S BETTER TO BE HAPPY: um poema de Paulo Mendes Campos




Sentada às vezes sobre a relva boa
Ia rever os álbuns de pintura,
Amava a criação e a pintura
Com seus olhos de amor que amar perdoa.

Se o relógio cantava no salão,
Levava susto e ria-se depois:
A manga é para mim, para nós dois
O roseiral, a rede, o sol, o pão

Pela manhã, saltando na piscina,
Aos saltos acordava o sapo-boi;
E tempo-que-será, tempo-que-foi
Davam-se as mãos dançando na colina.

Do livro A palavra escrita.