domingo, 6 de fevereiro de 2011

Eternos atalaias: poema de Cruz e Souza




Os sentimentos servem de atalaias
Para guiar as multidões errantes
Que caminham tremendo, vacilantes
Pelas desertas, infinitas praias...

Abrangendo da Terra as fundas raias,
Atingindo as esferas mais distantes,
São como incensos, mirras odorantes,
Miraculosas, fúlgidas alfaias.

Tudo em que logo transfiguram,
Encantam tudo,tudo em torno apuram,
Penetram, sem cessar, por toda parte.

Alma por alma em toda a parte inflamam.
E grandes, largos, imortais, derramam
As melancólicas estrelas d'Arte!


do livro Últimos Sonetos

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

Perfeição: um poema de Jorge Guillén


Fica curvo o firmamento
Compacto azul, sobre o dia.
É o arredondamento
Do esplendor: meio-dia.
Tudo é cúpula. Repousa,
No centro sem querer, a rosa
A um sol em zênite se sujeita.
E tanto se dá o presente
Que o pé andante sente
A integridade do planeta.


trad. Jefferson Bessa

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A ROSA: um poema de Hölderlin


    Suave irmã!
    Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
    Pois de mim terá partido o espírito da vida;
      Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
        As flores no campo escalvado,
          E não te achar.

Poema inserido no capítulo "Planos e fragmentos" do livro Hölderlin- Poemas
Tradução de Paulo Quintela.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Torrencial: um poema de Lara Amaral



Olhos goticulados pela chuva no vidro

a folha não agüenta o peso da água
[desprende-se

o telhado não suporta a queda do céu
[desaba

o mundo cai lá fora
e os olhos nem piscam
a atenção é toda deles

até os gritos histéricos
do quarto ao lado
são abafados

a noite troveja alto

os ouvidos morrem em paz.


Retirado do blog de Lara Amaral.
Nota: Segundo Lara, o poema não foi inspirado no atual desastre no RJ.
Fotografia encontrada na net sem créditos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MEIO-DIA: um poema de Li Po





As nuvens são leves, o vento é sereno, aproxima-se o meio-dia.
Diante das flores, um regato corre, ao longo dos álamos.
Os homens não podem compreender a alegria que transborda do [meu coração
e dizem que estou alegre sem motivo, como uma criança.


tradução Cecília Meireles

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Árvore de Frutos: um poema do angolano António Cardoso


Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.

Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!

(No reino de Caliban II - antologia)